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Demagogia e populismo
11-Jul-2008
«Talvez por ter sido jornalista durante muitos anos (no Expresso), António Marinho Pinto, actual bastonário da Ordem dos Advogados, sabe preparar as suas intervenções públicas. Para cada entrevista leva sempre uma frase, uma ideia, que fica. Que choca. Que tem citação.
Um qualquer português que fizesse 10% destas acusações genéricas e insultuosas ficaria com problemas para gerir nos próximos dez anos em sede da Justiça. Mas Marinho Pinto, servindo-se de um cargo de relevo à frente de uma classe profissional prestigiada, obviamente traçou um caminho e definiu uma estratégia: enquanto os processos vão e vêm, folga ele com a legítima indignação dos visados. O bastonário sabe, como qualquer bom populista e demagogo, que "o povo" gosta disto, deste caldo de acusações medíocres e cobardes contra tudo o que cheire a "poderosos".»
 
DEMAGOGIA E POPULISMO
 
«Talvez por ter sido jornalista durante muitos anos (no Expresso), António Marinho Pinto, actual bastonário da Ordem dos Advogados, sabe preparar as suas intervenções públicas. Para cada entrevista leva sempre uma frase, uma ideia, que fica. Que choca. Que tem citação.

Dou alguns exemplos.

Abordando a violência doméstica, nomeadamente a que é exercida sobre as mulheres, veio defender que esta deveria deixar de ser um crime público. Mais: havia, e portanto ainda haverá, um "feminismo entranhado" na lei.

Quanto ao processo Casa Pia, entendeu informar- -nos (sem dar qualquer prova, era apenas a sua convicção...) que houve "uma tentativa de decapitar a direcção do PS".

No que respeita à Polícia Judiciária, disse a certa altura que esta polícia "não está na dependência do Ministério Público, mas sim do Governo".

Falando sobre corrupção alertou-nos para a existência de crimes cometidos "impunemente" por pessoas com cargos de relevo na hierarquia do Estado.

Analisando a actividade das forças policiais, PSP e GNR, afirmou que elas "não estão a cumprir as suas funções". Porquê? Porque durante o dia "os polícias amontoam-se nas esquadras" das grandes cidades, mas à noite "estão completamente abandonadas" e muitas vezes "entregues a jovens inexperientes". A culpa, neste caso, é dos "sindicatos".

Referindo-se aos deputados, mas não só, chegou a dizer que "é preciso um sobressalto cívico para que caiam alguns parasitas, algumas bactérias que existem nas estruturas da República".

Sobre o funcionamento dos tribunais, emitiu a opinião de que nada mudou desde o tempo do marquês de Pombal, sendo que os magistrados são temidos mas não respeitados. E repetiu agora, na entrevista a Judite de Sousa, na RTP, a comparação que já fizera no mês passado: eles, os magistrados, podem ser comparados com os agentes da antiga PIDE.

Não cito mais, nem sequer a defesa que Marinho Pinto também fez de Vale e Azevedo. Acho que, para ilustrar a realidade, estas "pérolas" chegam.

2Um qualquer português que fizesse 10% destas acusações genéricas e insultuosas ficaria com problemas para gerir nos próximos dez anos em sede da Justiça. Mas Marinho Pinto, servindo-se de um cargo de relevo à frente de uma classe profissional prestigiada, obviamente traçou um caminho e definiu uma estratégia: enquanto os processos vão e vêm, folga ele com a legítima indignação dos visados. O bastonário sabe, como qualquer bom populista e demagogo, que "o povo" gosta disto, deste caldo de acusações medíocres e cobardes contra tudo o que cheire a "poderosos".

E, quanto à matéria de facto, ele também sabe, com recurso à experiência de advogado, que há ali um largo caminho para, na devida altura, fazer passar como legítima convicção pessoal algumas destas acusações. Quanto à violência sobre as mulheres ou às violações às crianças (espero que para Marinho Pinto o processo Casa Pia não tenha sido uma simples invenção...), pode ainda ficar descansado. Nenhum dos milhares de ofendidos se vai queixar destas afirmações gratuitas, de uma insensibilidade social que assusta.

Sinceramente, admira-me a passividade com que os advogados vão assistindo a estas diatribes. Percebo que, numa classe dominada pelos grandes escritórios, Marinho Pinto tenha ganho a função fazendo de cruzado da maioria dos profissionais do sector. Mas neste momento não entendo o silêncio. Custa-me a admitir que os advogados se revejam nestas declarações brutais, que alimentam o alarme social - e que são cobardes porque estendem sobre classes inteiras generalizações que podem, num caso ou noutro, ter alguma razão particular. E que seriam bem-vindas se viessem com nomes e datas.

Quando tudo isto começou, José Miguel Júdice fez um aviso. Achei que estava a ser exagerado. Passado este tempo tenho forçosamente de lhe dar razão. Marinho Pinto já passou todos os limites.

Pesquisei a Net com o termo PIDE e, associado aos resultados, apareceram-me dois nomes do Portugal que temos. Além de António Marinho Pinto... Alberto João Jardim. Ou seja, com o Google, e utilizando o isco certo, é muito fácil apanhar um demagogo...»
 
JOÃO MARCELINO | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 12.07.2008
Comentarios (18)add
... : Tony
Nem mais.
Vá lá que a cegueira entre algum jornalismo tem sido vencida pela lucidez dos jornalistas que buscam a objectividade e não se deixam levar pelo engodo da mentira populista.
Ó Antunes, ou lá como se chama, leia lá este artigo, letra a letra e faça o favor de o entregar ao seu imperador absolutista.
12.Julho.2008
... : Mendes de Bragança
É obrigação de todos nós fazer qualquer coisa para dar cabo deste irresponsável à solta.
Os advogados andam a fazer-lhe o cerco. Com o tempo será caçado. É o que ele está a pedir.
Agora equipara-nos a agentes da Pide. Alguém lhe recomenda um psiquiatra?
12.Julho.2008
... : miro
Este bastonário gordo
Um jornalista engenhocas
Passa a vida na TV
A mandar as suas bocas

E vendo bem o que ele diz
A enganar meio mundo
É um discurso infeliz
Nada demonstra no fundo

Os exemplos que ele deu
Na entrevista-entretém
Dizem até o contrário
E não convencem ninguém

Então o agente da pide
Não era torcionário
Cabendo algum dos juízes
Nesse seu imaginário ?

Pelos exemplos que deu
Dos actos de algum juiz
Bem se viu na entrevista
Que ele não mede o que diz

Olhando a história recente
Há juízes condenados ?
Não há; mas se virmos bem
Há no rol advogados

E faria algum sentido
Ir para a televisão
Acusar essa classe:
O advogado é ladrão

Deve haver tento na língua
E alguma contenção
Não podendo gente séria
Fazer generalização

As suas declarações
Assim tão generalistas
Ofendem muito juiz
Que desde a sua matriz
Foram sempre antifascistas

Lutei contra o Salazar
E sou juiz de carreira
E nunca vi o Marinho
A lutar à minha beira

Por isso, as acusações
Que deixou nas entrelinhas
Devolvo-as à procedência
Pois não são condutas minhas

E nesta minha resposta
Nada cheira a falsidade
Tudo o que disse é correcto
Sem ofensa e com verdade

Chamar bastonário gordo
Não é para ofender
É traduzir por palavras
O que nós podemos ver


2008












12.Julho.2008
... : Larenz-em-Cortes
Pela 1a vez concordo com Mendes. E acho q estamos todos (juizes, mp, advogados) de acordo.
É acabar com os dislates deste ser.Rapidamente.
12.Julho.2008
... : Gajo atento a mandar "bitaites"
Grande entrevistadora!

Parece-me que foi a melhor entrevista de sempre da Judite de Sousa! Que foi aquela em que ela foi mais persistente nas perguntas e em que ia mais bem preparada!

Só faltou mostrar-lhe as estatísticas da Justiça para aquela criatura engolir que na ESMAGADORA maioria dos processos os arguidos são condenados em simples penas de multa e que agora até nas penas de prisão até 5 anos a execução das mesmas pode e costuma ficar suspensa, para que o indivíduo não fizesse passar a mensagem de que andam mesmo pessoas a ir para a prisão por causa da má intervenção de advogados estagiários, como se fosse irrelevante o facto de eles só intervirem em processos da competência de tribunais singulares, e para não passar a ideia de que qualquer juiz tem vários arguidos presos à sua ordem. E faltou também mostrar-lhe dados sobre processos disciplinares do CSM e, em particular, sobre aposentações compulsivas de juízes, para não passar a ideia de que o CSM não pune qualquer juiz, e falar-lhe das situações em que o MP interpôs recursos em benefício exclusivo do arguido.

Mas em duas coisas dou razão ao BOA: o subsídio de residência devia ser tributável (quem é o que gasta todo na renda de uma casa? E se sobra não é mais um rendimento? E os professores por exemplo ganham menos e não recebem aquele subsídio, pois não?) e parece-me de facto incorrecto magistrados (cônjuges ou outras pessoas em situação análoga) que residem juntos na mesma casa continuarem a recebê-lo por inteiro como se qualquer um deles estivesse a viver sozinho longe de casa.

Também achei interessante saber que o BOA - que tanto "julga" os outros - não se sente com capacidade para ser juiz, que "não dormiria descansado tendo presos à sua ordem", que "teria muitas dúvidas" (!!!).

O que é que podemos retirar daqui? Por ele ninguém ia preso? Ele não sabe apreciar provas e não sabe que para os casos em que restem dúvidas também há regras e que por isso bastar-lhe-ia segui-las para conseguir dormir descansado?

Continuo na minha: ia achar imensa piada se TODOS os juízes apresentassem queixa-crime contra ele pela eventual prática de vários crimes de difamação agravada. É que ele começa por generalizar as imputações, mas depois lá admite que só uma parte dos juízes tem comportamentos reprováveis... E a meu ver formula juízos ofensivos da honra e consideração destes depois de lançar a suspeita sobre todos.... Se todos ou quase todos os magistrados vivos o processassem teria de vir defender-se e dizer exactamente a quem se refere, em vez de ter a cómoda solução de dizer que é a outros... E, estando em causa não só a imputação de factos mas também a formulação de juízos ofensivos e não sendo o meio como ele os divulga o meio NECESSÁRIO para atingir fins legítimos (e isto dando de barato que estes existem...) - o mais correcto seria precisamente, por exemplo, comunicá-los ao CSM. E já nem falo dos tais juízes de há 30 anos, de quem ele fala como se ainda interessasse o facto de eles terem transitado para a ordem constitucional seguinte -, parece-me provável que o processo com tais queixas viria alterar o sentido das declarações do BOA e o seu comportamento, além da sua credibilidade perante o cidadão comum... E, na hipótese de condenação, o cúmulo jurídico podia ser surpreendente... Foram visados por diversas vezes milhares de juízes e através da comunicação social...
12.Julho.2008
... : ppp
este tipo sabe pouco de leis e de direito.

e sabe muito de covardia, mentira e populismo.

triste país. triste advocacia.
12.Julho.2008
... : polis
SUGESTÃO ao CSM e à ASJP, e a Rui RANGEL, sobre este jornalista-bastonário:

«Recuso contrariar afirmações covardes, vagas, mal educadas e populistas».
12.Julho.2008
... : Larenz-nas-Cortes
Continuo na minha: ia achar imensa piada se TODOS os juízes apresentassem queixa-crime contra ele pela eventual prática de vários crimes de difamação agravada. É que ele começa por generalizar as imputações, mas depois lá admite que só uma parte dos juízes tem comportamentos reprováveis... E a meu ver formula juízos ofensivos da honra e consideração destes depois de lançar a suspeita sobre todos....

Muito bem!
De vez em quando aparecem-me aqui uns bastonários...
12.Julho.2008
... : Contra
Desculpem a pergunta, mas perdem-se direitos pelo casamento? Não vejo razão para que se dois juízes ou procuradores casarem entre si daí resulte a perda do direito funcional de um deles. E nos casos em que dois juízes vivem em economia comum? Imagine-se um juiz que vive em casa do pai, ele também juiz. Um deles também deve perder o subsídio? Enfim, parece que a mesquinhes do jornalista MeP começa a ter correlegionários.
12.Julho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
A entrevista de Judite de Sousa foi fraquita, aliás, nunca vi entrevista mais mediocrezita - ela com sorrisitos meio tolitos ele a nova picareta falante (então e os 40 mil euros? não estavam no guião, pois claro) - mas o texto de João Marcelino - com quem de resto não simpatizo - é bom, e está tudo dito.
12.Julho.2008
... : mfr
"Quem semeia ventos colhe tempestades"... Entre os seus pares a revolta já começou... não tarda nada serão outros sectores, como parece ser o caso dos jornalistas (finalmente!) a verem a real demagogia, e depois seguir-se-ão os outros em geral.
Aguardemos serenamente, pois que quem ri por último ri melhor.
13.Julho.2008
... : CHAPARRO
Senhor Administrador
Constato a omissão do meu comentário. Ter-se-á o mesmo perdido, dado recusar a ideia de qualquer tipo de censura?
Os meus cumprimentos

Resposta do Administrador: Sr. Comentador Chaparro, lamento os seus 3 comentários não foram publicados por violarem as regras desta revista, já muitas vezes enunciadas. Aqui não há censura, mas há disciplina e respeito pelos direitos, recusando-se que se aproveitem artigos para fazer comentários visando outras pessoas concretamente identificadas com termos ofensivos contra as mesmas. Sugiro que, caso assim o pretenda, reformule os seus comentários, sem essas menções passíveis de causar ofensa à honra de terceiros, caso em que que os mesmos serão objecto de publicação. Se me permite também uma sugestão, evite escrever todas as palavras em letras maiúsculas, porque na linguagem da internet, isso corresponde a estar a gritar em alta voz. Os meus cumprimentos.
13.Julho.2008
... : CALVIN (CUIDADO, MALDIZENTES, CHEGUEI!!!)
«O bastonário sabe, como qualquer bom populista e demagogo, que "o povo" gosta disto, deste caldo de acusações medíocres e cobardes contra tudo o que cheire a "poderosos".»
Oh! Senhor Marcelino, corrija-me lá a memória, se estiver equivocado, mas o Senhor, por acaso, não é o mesmo que ainda não há muito tempo, depois de se ter feito tranferir, a «peso de ouro» e com alguma «polémica» com os seus ex-patrões à mistura, para o «DN», fazia parte da Direcção dum jornal, não simples jornalista de base, atenção, de seu nome «Correio da Manhã», de quem esse mesmo «povo» (buçal, presumo eu), tanto gostaria, dadas as respectivas tiragens, sóbrio, isento, nada, mas mesmo nadinha, sencionalista no seu tempo, ,tudo segundo os conformes da sã prática jornalística?!
Espero, com esta pergunta, não ter entrado, qual elefante e de forma indelicada, por uma loja de porcelas! smilies/grin.gif
13.Julho.2008
... : CALVIN
Sr Aministrador:
Com saudades minhas? Pensava que me ia sem mais? Vá lá um abraço dai! smilies/grin.gif

Resposta do Administrador: Sr. que comentava com pseudónimo Chaparro e agora o faz com Calvin, aqui não se aplica o termo saudade. Não é por mudar de pseudónimo que os comentários são ou deixam de ser publicados.
14.Julho.2008
... : Hannibal Lecter
Excelente artigo: está lá tudo. E tudo o que lá está é certeiro.
14.Julho.2008
... : descontente
Quanto ao parasitismo de alguns deputados... smilies/wink.gif
14.Julho.2008
... : Esmeralda-sim
As intervenções deste benemérito da Nação, de seu nome Marinho Pinto, no programa de Fátima Lopes, do canal do sargento, a propósito da caso Esmeralda, são duma subserviência que ronda a bajulice.
Contratado por aquela pouco mais que analfabeta apresentadora, o advogado que a classe elegeu como seu representante, nunca se coibiu de praticar o seu desporto favorito: o tiro aos juízes.
Sem sequer ter lido os acórdãos, disse tanta cavalidade que mais parece tratar-se dum caso de esquizofrenia.

14.Julho.2008
... : Um Homem do Norte
Esmeralda-sim versus Esmeralda-não.

A humildade é um exercício que subjaz ao principio democrático e é o fio condutor ao direito constitucional à critica e, por isso, o povo na sua imensa sabedoria diz e com razão que " ninguém é o dono da verdade"

Por isso convido-a a reflectir sobre o Juízo de valor que fez sobre a referida Jornalista e chegue à conclusão que a opinião é algo que ninguém pode impedir mas apenas censurar.

Já dizia o poeta " ... Não hà machado que corte a raíz ao pensamento.."

A ideia que hà monopolistas da verdade é um mito que não encaixa em pessoas de horizontes alargados.

Refiro que não sou jornalista nem tão pouco conheço essa Senhora cujos programas não aprecio.
16.Julho.2008
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