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No domingo 17 de Fevereiro passado, o Público deu à estampa um texto
designado "O rumo da justiça" da autoria do Dr. Nuno Garoupa, Professor
da Faculdade de Direito da Universidade do Illinois (USA). Nesse texto
dá-nos Nuno Garoupa a súmula de um estudo sobre o funcionamento da
Justiça Cível em Portugal, patrocinado pela FLAD. O estudo baseia-se em
dados fornecidos pelo Ministério da justiça e conclui que se confirmou
"o agravamento da congestão dos tribunais cíveis em 2003 e 2004
(demonstrando que as reformas do Governo PSD/CDS não só fracassaram os
seus objectivos como agravaram a situação)"... Lamentavelmente,
o Dr. Garoupa confirma o adágio anglo-saxónico segundo o qual "there
are lies, big lies and statistics".
Os dados do Ministério da justiça que Nuno Garoupa usou no Estudo só
existem até 2004. Só depois de Julho de 2007 acedeu aos dados de 2005 e
2006 e, actualizando as suas conclusões, Nuno Garoupa declara que "a
litigância em tribunais cíveis de 1.a instância sofreu um decréscimo
importante em 2006 (cerca de 12%)". Mas, "a taxa de congestão dos
tribunais agravou-se em 2005 para o seu valor histórico mais alto
(confirmando a política desastrosa dos Governos PSD/CDS) e tem uma
redução muito suave em 2006, para os níveis de 2004".
Lamentavelmente,
o Dr. Garoupa confirma o adágio anglo-saxónico segundo o qual "there
are lies, big lies and statistics". A análise que faz no texto que
refiro revela da parte do seu autor alguma ignorância sobre as
realidades da vida.
Primeiro ponto que o Dr. Garoupa ignora
totalmente é que o aumento da litigância cível tem pouco a ver com
políticas do Governo e tudo a ver com fenómenos de sociedade, a saber:
a acelerada taxa de urbanização dos portugueses a partir dos anos 80 e
o acréscimo brutal da litigância de massas decorrente de um aumento sem
precedentes do crédito ao consumo e do acesso estandardizado a bens de
primeira necessidade como água, electricidade gás e telefones,
sobretudo móveis.
Estes fenómenos conjugados deram origem a um
aumento crescente e sustentado da litigância judicial que no espaço de
10-15 anos passou de cerca de 500.000 processos por ano para mais de um
milhão e meio.
O segundo ponto em que a ignorância do referido autor
é manifesta é que as reformas de fundo na área da justiça, como nas
outras, demoram anos e não meses a produzir efeitos, e são reformas a
montante - acesso à justiça - e a jusante - fluidez do sistema. Ora,
entre finais dos anos 80 e a década de 90, todas as reformas
introduzidas foram no sentido de facilitar o acesso à justiça, quer no
que diz respeito ao apoio judicial, quer no que diz respeito ao custo
traduzido em custas judiciais.
Por outro lado, manteve-se na íntegra
o sistema processual que vinha e vem do passado, moroso, garantístico,
incerto quanto aos seus resultados, palavroso, cheio de alçapões, ao
ponto de as reformas destinadas a tornar o sistema mais fluido, como a
do processo simplificado ou a da audiência preparatória, serem na
prática ignoradas pelo sistema.
O terceiro ponto é que um governo
responsável procura não inventar nada, porque sabe que quando acabou de
inventar o seu tempo acabou: as reformas na área da justiça levam anos,
e muitos, a amadurecer. O XV Governo limitou-se, procurando introduzir
melhorias, a dar corpo a reformas - acção executiva, contencioso
administrativo, desburocratização, acesso informático à justiça - que
vinham de trás e continuaram para a frente.
Os números do Professor
Garoupa, se demonstram alguma coisa, demonstram o contrário exacto do
que afirma: primeiro, que as reformas a que o XV Governo PSD/CDS deu
corpo começaram a produzir os seus efeitos, apesar de necessitarem de
sérios acertos e correcções; segundo, que as medidas de curto prazo,
como as que o actual Governo tomou em 2006, podem ter efeitos
paliativos no sistema, mas sempre de muito curto prazo. Quando o Dr.
Garoupa examinar os números de 2007, verificará que é assim.
Numa
coisa estou em total concordância com o Dr. Garoupa: as alterações
necessárias são estruturais e não conjunturais. Sobre isso podia
escrever um livro, mas também sei que quem quiser levar à prática esse
tipo de reformas vai ser crucificado na praça pública.
JOÃO LUÍS MOTA | PÚBLICO | 21.02.2008
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