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Entrevista de Germano Marques Silva criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
20-Fev-2008
Em entrevista ao Jornal de Negócios, Germano Marques da Silva oferece a sua visão sobre o estado da Justiça em Portugal. O penalista fala também da Ordem dos Advogados e assegura que o tema da corrupção, reintroduzido por António Marinho e Pinto, é candente na sociedade portuguesa. Está contra a saída dos advogados do Parlamento e defende, em casos de criminalidade grave e específica, o levantamento do sigilo profissional dos causídicos.

Uma Justiça lenta e desigual, arguidos que não o deveriam ser, diplomas legislativos que são alvo de grande discórdia... o sistema de Justiça ganhou, nos últimos tempos, um enorme mediatismo. É positivo ou negativo que se fale tanto do nosso sistema de Justiça e da Justiça que se faz em Portugal?
Em certas áreas da justiça, nomeadamente a criminal e a da Família, sobretudo quando envolve crianças, essa mediatização acontece em todo o mundo em que se podem discutir tais questões. Antes do 25 de Abril não era possível colocar em causa as instituições. Hoje não há instituições intocáveis. Por isso, a crítica é bem-vinda.

Por vezes, a crítica não é assim tão bem recebida pelas instituições.
Todas estas instituições ligadas à Justiça têm muitas tradições. No passado, era impossível pensar-se em termos críticos. Hoje já não é assim. A comunicação social e aqueles a que dá voz falam sobre tudo sem perceberem o funcionamento das instituições. Estas têm de se abrir, mas a comunicação social também tem de encetar um processo aprendizagem.

Entre as vozes criticas ao funcionamento das instituições tem estado a do bastonário da Ordem dos Advogados, que trouxe para a "praça pública", designadamente, o problema da corrupção.
Que entendimento faz das intervenções de marinho e Pinto?

Sobretudo a partir do bastonato de Pires de Lima, todos os bastonários assumiram uma postura extremamente crítica. O bastonato de António Pires de Lima quebrou com uma tradição muito institucional. Foi das pessoas que mais recorreu à comunicação social e que, abertamente, criticou tudo. Agora, temos é um estilo diferente.

O estilo de António Marinho e Pinto tem produzido mais eco?
A Ordem dos Advogados e o seu bastonário têm funções muito amplas. Por um lado, o bastonário tem que defender a profissão, porque é o advogado dos advogados. Mas também há uma tradição em que o advogado dos advogados é igualmente o advogado dos cidadãos em geral.

Ou seja, tem de falar também para a sociedade em geral e sobre os problemas que afectam os cidadãos.
Exactamente. Ele não fala apenas para dentro da classe, tem de falar também para fora. Com um estilo que lhe é próprio, o Dr. Marinho e Pinto falou sobre um tema que, toda a gente sabe, é candente na sociedade portuguesa. Ouvi muitos colegas desagradados com a forma como estava a falar. A maneira como o Dr. Marinho e Pinto falou é um problema de estilo pessoal. Agora, que o tema é candente, todos sabemos. Não sei dizer se [a corrupção] é muita ou pouca, agora, a sensação que há é que ela existe e tem de ser atacada.

O actual bastonário da Ordem defende, tal como o anterior defendia, que se deve tornar incompatível o exercício cumulativo da advocacia com a função de deputado. Qual é a sua opinião?
O problema tem sempre que ver com quem é que nós queremos para deputados. Queremos ter uma ampla liberdade de escolha ou pretendemos criar uma carreira profissional para deputados? A política ganha quando envolve gente de formações e opiniões diversas. É nessa diversidade que se encontram as melhores soluções para o País. Podemos dizer que um advogado não pode ser militante de um partido? As influências não se fazem apenas no Parlamento.

Fazem-se também noutros corredores?
Se calhar os corredores do Governo são muito mais importantes; ou os corredores das grandes empresas públicas. Não se pode analisar de uma forma simplista. Se tenho um membro que sai do meu escritório e vai para o Governo, não o deve poder fazer?

Com a transposição para a nossa lei de uma directiva comunitária relativa ao branqueamento de capitais, há quem diga que o sigilo profissional dos advogados poderá ficar comprometido. É também essa a sua opinião? Em que condições aceita que o sigilo seja quebrado?
Essa matéria está a ser discutida em toda a Europa. A advocacia hoje é muito complexa. Muitos advogados exercem hoje actividades de quase mediadores no mundo dos negócios. Não se compreende que qualquer mediador - seja imobiliário, seja bancário - esteja sujeito a um dever de comunicação e outros que com eles fazem concorrência não o esteja. Uma coisa é o advogado que intervém no processo como defensor do arguido. Daí, o dever de sigilo absoluto. Outra coisa é quando o advogado começa a exercer outro tipo de actividades onde pode haver branqueamento de capitais.

Quer apontar um exemplo?
Por exemplo, há alguém que me chega ao escritório com uma mala cheia de notas, e me diz para comprar uma propriedade com esse dinheiro, que afirma ser de uma fuga aos impostos. Se for com a mala de dinheiro ao banco, o banco tem de comunicar. Se for a um agente imobiliário, este tem de comunicar, Por que razão não deve o advogado comunicar?

O novo regime de acesso ao direito tem recebido enormes críticas por parte dos advogados. Os honorários são considerados baixos e afirma-se que os cidadãos com menores recursos são prejudicados. É também essa a sua opinião?
É sempre o maldito dinheiro. O novo regulamento chega a ser desprestigiante para os advogados. O que ganham num processo é incompatível com a dignidade da profissão e com a dedicação que se espera das pessoas. Depois, isto tem outro tipo de implicações, como se ganha mal não dedica tempo à defesa oficiosa. Por outro lado, também é verdade que o Orçamento do Estado não pode suportar o aumento constante das defesas oficiosas com remunerações condignas.

Críticas à reforma penal foram sobretudo de "cariz político". Não é possível tolerar que um indivíduo esteja preso preventivamente meses ou anos e que não saiba quais são as provas que [existem contra si]. A corrupção é um tema candente na sociedade portuguesa. Ouvi muitos colegas desagradados com o dr. Marinho e Pinto. A forma como falou é apenas um problema de estilo pessoal.

Entre as mudanças que o Governo fez na área da Justiça, uma das mais criticadas foi a reforma penal. Passados seis meses, que balanço é possível fazer?
Não houve qualquer problema.

As críticas foram infundadas?
Foram. Aliás, aplaudi o ministro. Se a "vacatio legis" em vez de ser de 15 dias fosse de 15 anos, haveria de ser no último ano, no último mês, eventualmente na última semana que se iria estudar a reforma. É assim em Portugal. Nas várias reformas em que participei, sempre defendi que o período de "vacatio legis" deveria ser curto. As alterações nos diplomas não são tão extensas que impeçam qualquer jurista experimentado de as apreender numa semana. Depois de passado o tempo da crítica, no fundo mais de cariz político, a reflexão que hoje se faz é, sobretudo, em tomo de dois artigos do Código de Processo Penal.

Relativos a que matérias?
Ao segredo de justiça. Discute-se apenas se se deve ou não manter um período indefinido no âmbito de segredo de justiça ou se deve haver limites.

Qual é a opinião a sua opinião quanto ao segredo de justiça?
O problema não é fácil. Desde há muitos anos que defendo que a justiça se quer mais transparente. Mas há certo tipo de criminalidade, de investigação muito complexa, que não se consegue investigar sem que haja pelo menos um período em que há segredo.

Refere-se a que tipo de casos?
À criminalidade organizada, à criminalidade transfronteiriça, mesmo à própria corrupção. Há um certo tipo de criminalidade que, para se obter sucesso na investigação, implica um período de um certo secretismo. Agora, o que não é possível é manter uma pessoa sujeita a ver a suas contas bancárias congeladas durante anos. Também não é possível tolerar que um indivíduo esteja preso preventivamente meses ou anos e que não saiba quais são as provas que o acusam.

Os prazos que foram estabelecidos são ou não suficientes para a investigação?
Esse é o aspecto que se discute. Mas isso muitas vezes não tem só a ver com a lei, mas com os meios.

O PGR foi muito crítico sobre essa matéria. Não concorda com a pertinência dessas criticas?
Concordo. A questão que o PGR levanta tem de ser muito ponderada. Há certo tipo de crimes em que não conseguimos determinar o tempo da investigação. A questão pode e está a ser repensada.

Logo, em alguns casos será necessário prorrogar prumo.
É possível eventualmente considerar prorrogações de prazos, embora ponderando caso a caso essas situações. Acontece é que vivemos num período securitário. Qualquer coisa que choque, começa logo o povo a pensar que deviam era ir todos para a cadeia.

Os julgamentos são na praça pública.
Essa é a dificuldade. Não viu o escândalo que se fez à volta das declarações do director-geral da Polícia Judiciária?!
 
Está a referir-se ao ‘Caso Maddie’?
Quem conhece a história do conceito de arguido no Direito recente, depois de 1972, terá pensado: "Onde é que está o escândalo de ele ter dito que pode ter havido precipitação na constituição de arguido?". Na nossa lei, a constituição de arguido é fundamentalmente um instrumento de defesa.

O suspeito passa a ter direitos.
Passa a poder estar sempre acompanhado por advogado. Passa a ter direito ao silêncio. Passa a conhecer os elementos do processo. Acontece é que em termos populares ou comuns, quando se constitui alguém arguido é quase como que a condená-lo. A partir de 1987, a atribuição do estatuto de arguido nem sequer exige que hajam fortes suspeitas. Se houver qualquer suspeição e se se quiser investigar aquela pessoa em função dessa suspeição, tem de se constituir como arguido. Com as recentes alterações passa a ser necessário que existam fortes suspeitas. Mas nessa altura não se pode interrogar alguém para aprofundar as suspeitas.

Essa alteração é benéfica ou não?
As leis não podem estar desarticuladas do ambiente social. Quando um jornal diz que fulano é suspeito. Então está lixado. Na casa desse fulano começa toda a gente chorar; porque ele já é suspeito. Ao mesmo tempo, os amigos começam a afastá-lo. No entanto, a nossa Constituição diz que todos os arguidos se presumem inocentes.

JORNAL DE NEGÓCIOS | 20.02.2008 

Comentarios (8)add
... : BD
O Sr. Prof. Doutor (a quem muito estimo) brinda-nos com mais um chazinho de malvas (perdoe-me a expressão, que 'roubei' ao Sr. Prof. Doutor Costa Andrade quando este se referiu à nova Lei da Política Criminal e cuja entrevista também era, ela própria um chazinho de malvas), à semelhança de outros reputados penalistas. Todos eles homens sábios, sem dúvida alguma, sensatos, comedidos, responsáveis, conhecedores profundos das matérias penais - é como se vissemos neles os próprios simbolos ou o verdadeiro significado das instituições democráticas e do Sistema de Justiça. Também figuras injustamente relegadas para segundo plano pelo ávido poder político. Tudo isto é verdade e indiscutível. Mas, fazendo uma análise fria da entrevista concedida, o que é que o Sr. Prof. Doutor disse de realmente novo (de inovador) aqui? Nada. A meu ver. Evidências, muita bondade, demonstrando quiçá alguma distância superior face a todas estas coisas do mundo. E entretanto os grandes criminosos continuam, esses sim, em 'roda livre', a fazer alegremente das suas pelo País. Mas que fique claro que vale mais ler o que o Sr. Prof. Doutor diz do que o que muitos outros que se fazem passar por entendidos. Mas, de si, de vocês, nós, esperamos sempre mais. Muito mais. Porque a salvação do Sistema de Justiça passa sobretudo pela vossa descomprometida sabedoria.
20.Fevereiro.2008
... : Um cidadão
Sr. BD, gostei muito do seu comentário
20.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
«É sempre o maldito dinheiro. O novo regulamento chega a ser desprestigiante para os advogados. O que ganham num processo é incompatível com a dignidade da profissão e com a dedicação que se espera das pessoas. Depois, isto tem outro tipo de implicações, como se ganha mal não dedica tempo à defesa oficiosa. Por outro lado, também é verdade que o Orçamento do Estado não pode suportar o aumento constante das defesas oficiosas com remunerações condignas».
A GELATINA BANDEIA...BANDEIA...DE CÁ PARA LÁ...BANDEIA....BANDEIA.
Só para os lados dos médicos é que não, pois, em nome do direito à saúde, até têm tido prémios avultados de produtividade/oprerações, na casa dos milhares de euros, como recentemente veio a público...Mas como a Justiça parece um direito menor...badeia...bandeia...de cá para lá..bandeia..bendeia...
20.Fevereiro.2008
... : Um cidadão
"Orçamento do Estado não pode suportar o aumento constante das defesas oficiosas com remunerações condignas."
Bastava cortar alguns estudos encomendados a certos escritórios, que custam centenas de milhares, já dariam para muitos casos de defesas oficiosas com remunerações condignas, não é verdade?

20.Fevereiro.2008
... : Ridículo
"PSD vota contra audição de Jardim Gonçalves e Teixeira Pinto no Parlamento

A audição parlamentar dos antigos presidentes do Conselho de Administração do Banco Comercial Português (BCP) Jorge Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto foi rejeitada com os votos contra do PSD. Contudo, os sociais-democratas aprovaram a audição, amanhã, de Filipe Pinhal, também ex-administrador do BCP.
?O requerimento foi rejeitado com os votos a favor do CDS-PP e Partido Comunista (que havia apresentado a proposta), os votos contra do PSD e a abstenção do PS?, indicou o presidente da Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, Jorge Neto."

Esta notícia do site da RTP demonstra quão certa a afirmação do Prof. Doutor "A política ganha quando envolve gente de formações e opiniões diversas. É nessa diversidade que se encontram as melhores soluções para o País." e, especialmente, para as instituições bancárias.

Por outro lado, não sei porque a AR prefere ouvir um Bastonário "populista" do que banqueiros sérios que, nesses dias de crise económica, podem oferecer umas dicas úteis para todos nós, pobres contribuintes, para evitar "saldar" os problemas do sector bancário.
20.Fevereiro.2008
... : Um cidadão
Mas ninguém perguntou ao Sr. Prof. Doutor a sua opinião sobre a directiva comunitária de 2005 onde recomenda no sentido de legislar o enriquecimento ilícito como crime de corrupção.
20.Fevereiro.2008
... : Alberto Ruço
«A comunicação social e aqueles a que dá voz falam sobre tudo sem perceberem o funcionamento das instituições ».

O problema é este.
Não há qualquer problema com a crítica.
Mas há problemas com a mentira e com a manipulação.
Se se quer criticar uma decisão judicial, em primeiro lugar o crítico informa-se bem sobre os factos.
Depois, indaga a lei que se aplica ao caso.
Só depois «deita faladura» para dizer que os factos não foram bem apurados, se for o caso, e tem de justificar porquê, por forma a convencer os outros do motivo porque razão diz isso; ou explica que a lei está incorrectamente aplicada e diz, procurando convencer os outros, da razão que lhe assiste.
Ou, ainda, mostra que a lei não satisfaz o interesse ou conflito de interesses em questão e propõem outra lei, fundamentando com razões a mudança.
Se os críticos fizerem isto, nada há a dizer.
Se não fizerem isso devem estar calados porque são fontes e rios de mentiras.
Só que, isto dá muito trabalho e ao mergulharmos nos problemas rodeamo-nos de dúvidas, acabamos por acalmar e lá se vai o nosso «ódio».
Somos um Povo de críticos e palrradores.
Ao ponto de 1/3, ou mais, daquilo que se passa numa sala de audiências não ter qualquer préstimo, salvo stressar quem tem pouco tempo para trabalhar.
Casos que se resolviam perfeitamente em duas horas, demoram quatro; outros que se resolviam em um dia, demoram dois.
Só que isto não interessa aos críticos; assim como não lhes interessam os 800 000 processos que todos os anos entram nos tribunais.

21.Fevereiro.2008
... : Barrabás
O problema da reforma processual penal não se vê.
Veio trazer um grande acréscimo de trabalho e de dificuldades de investigação, sem qualquer proveito.
Só que isto não se vê.
Aquilo que os nossos olhos não enxergam não existe, mas vai causar mossa.
21.Fevereiro.2008
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