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«(...) A cunha não é um acto de corrupção, como enfiar notas na mão de um
autarca. É, de forma bem mais cândida, driblar a máquina burocrática,
pedir pequenos favores. (...) O problema é que, sem a existência de regras claras e justas, passa a
haver uma espécie de fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que
melhor comoverem os poderosos»
A cunha tem muito que se lhe diga. Toda a gente está disposta a
condená-la e a apontá-la como uma das causas do atraso de Portugal, mas
poucos, na prática, passam sem ela. Se Jesus, em vez de frequentar as
terras de Israel, tivesse pregado nas margens do Tejo, teria dito à
multidão em fúria: "Quem nunca meteu uma cunha que atire a primeira
pedra." E aí todos baixariam a cabeça, começando pelos mais velhos, e
iriam apedrejar para outra freguesia. É que a cunha não é um acto de
corrupção, como enfiar notas na mão de um autarca. É, de forma bem mais
cândida, driblar a máquina burocrática, pedir pequenos favores para o
primo que é óptimo rapaz, tentar muitas vezes ajudar quem efectivamente
precisa ou, como se diz na minha terra, ter um simples "olhamento".
Mas, claro, de cunhas bem-intencionadas está o inferno cheio. Veja-se o
caso "Lisboagate". As primeiras notícias divulgadas pelo DN ainda
vinham acompanhadas de um halo de santidade. Os abusos na atribuição de
casas pela autarquia eram, afinal, justificados pelas melhores razões:
do Presidente da República à esposa do primeiro-ministro, todos metiam
cunhas e pediam casas, mas sempre a favor do pobrezinho desamparado. A
cunha, boa parte das vezes, não beneficia directamente o próprio e é
feita com o argumento de reparar uma injustiça. O problema é que, sem a
existência de regras claras e justas, passa a haver uma espécie de
fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que melhor comoverem os
poderosos. Claro que atrás do pobre vem o motorista do Presidente que
mora longe, coitado, e atrás do motorista vem a funcionária que se
divorciou e não tem para onde ir, e atrás da funcionária vem o filho da
funcionária, que também é filho de Deus.
A partir daí, nessa avalanche de cunhas e favores cabe tudo, e tudo se
mistura. Quando o caso "Lisboagate" atinge um nome como o de
Baptista-Bastos, é porque algo está podre no reino da Dinamarca. Numa
breve troca de mails,
Baptista-Bastos negou-me ter tido qualquer comportamento "reprovável" e
eu não tenho qualquer razão para pôr em causa a sua verticalidade. Mas
também não tenho dúvidas de que ele jamais deveria ter recorrido à
câmara para conseguir uma casa. O escritor Baptista-Bastos, que já
tanto deu a Lisboa, podia ter direito a ser ajudado numa altura de
dificuldade, como parece ter sido o caso. O jornalista Baptista-Bastos,
não. Porque pediu um favor ao poder autárquico. Porque auferiu de um
privilégio vedado ao cidadão comum. Que alguém que sempre foi tão
moralmente exigente nos seus artigos de imprensa não perceba isto
faz-me confusão. Quem, como ele, acredita na nobreza do jornalismo, tem
de reconhecer uma cunha quando a vê. E, sobretudo, deve reconhecê-la
quando a mete.
JOÃO MIGUEL TAVARES | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 30.09.2008
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