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Lisboagate e a cultura da cunha
30-Set-2008
«(...) A cunha não é um acto de corrupção, como enfiar notas na mão de um autarca. É, de forma bem mais cândida, driblar a máquina burocrática, pedir pequenos favores. (...) O problema é que, sem a existência de regras claras e justas, passa a haver uma espécie de fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que melhor comoverem os poderosos»

A cunha tem muito que se lhe diga. Toda a gente está disposta a condená-la e a apontá-la como uma das causas do atraso de Portugal, mas poucos, na prática, passam sem ela. Se Jesus, em vez de frequentar as terras de Israel, tivesse pregado nas margens do Tejo, teria dito à multidão em fúria: "Quem nunca meteu uma cunha que atire a primeira pedra." E aí todos baixariam a cabeça, começando pelos mais velhos, e iriam apedrejar para outra freguesia. É que a cunha não é um acto de corrupção, como enfiar notas na mão de um autarca. É, de forma bem mais cândida, driblar a máquina burocrática, pedir pequenos favores para o primo que é óptimo rapaz, tentar muitas vezes ajudar quem efectivamente precisa ou, como se diz na minha terra, ter um simples "olhamento".

Mas, claro, de cunhas bem-intencionadas está o inferno cheio. Veja-se o caso "Lisboagate". As primeiras notícias divulgadas pelo DN ainda vinham acompanhadas de um halo de santidade. Os abusos na atribuição de casas pela autarquia eram, afinal, justificados pelas melhores razões: do Presidente da República à esposa do primeiro-ministro, todos metiam cunhas e pediam casas, mas sempre a favor do pobrezinho desamparado. A cunha, boa parte das vezes, não beneficia directamente o próprio e é feita com o argumento de reparar uma injustiça. O problema é que, sem a existência de regras claras e justas, passa a haver uma espécie de fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que melhor comoverem os poderosos. Claro que atrás do pobre vem o motorista do Presidente que mora longe, coitado, e atrás do motorista vem a funcionária que se divorciou e não tem para onde ir, e atrás da funcionária vem o filho da funcionária, que também é filho de Deus.

A partir daí, nessa avalanche de cunhas e favores cabe tudo, e tudo se mistura. Quando o caso "Lisboagate" atinge um nome como o de Baptista-Bastos, é porque algo está podre no reino da Dinamarca. Numa breve troca de mails, Baptista-Bastos negou-me ter tido qualquer comportamento "reprovável" e eu não tenho qualquer razão para pôr em causa a sua verticalidade. Mas também não tenho dúvidas de que ele jamais deveria ter recorrido à câmara para conseguir uma casa. O escritor Baptista-Bastos, que já tanto deu a Lisboa, podia ter direito a ser ajudado numa altura de dificuldade, como parece ter sido o caso. O jornalista Baptista-Bastos, não. Porque pediu um favor ao poder autárquico. Porque auferiu de um privilégio vedado ao cidadão comum. Que alguém que sempre foi tão moralmente exigente nos seus artigos de imprensa não perceba isto faz-me confusão. Quem, como ele, acredita na nobreza do jornalismo, tem de reconhecer uma cunha quando a vê. E, sobretudo, deve reconhecê-la quando a mete.
 
JOÃO MIGUEL TAVARES | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 30.09.2008
Comentarios (12)add
... : Rosário Marques
Ahhhhhhh... o meu espanto, ainda não conseguiu fechar a boca.
30.Setembro.2008
... : Mendes de Bragança
Tu quoque Baptista Bastos?
30.Setembro.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
João Miguel Tavares pôe bem o problema quando distingue o escritor do jornalista. O escritor de reconhecido mérito, por aquilo que dá ao país ou à cidade em termos culturais, merece em caso de dificuldade ser ajudado pelo poder. O jornalista não. Mas, como estamos em maré de paradoxos..., qual deles afinal foi ajudado pelo poder autárquico? O jornalista de língua afiada que toma posições políticas ou o bom (ou pelo menos razoável, também convém não exagerar) escritor? Chamem o Borges, talvez ele deslinde...
30.Setembro.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
No meu comentário anterior: "Põe", e não "pôe". Fica a rectificação. Já agora - "o Borges" é o Jorge Luís, e o paradoxo é o de "O Outro", ou "O Mesmo". Daí o paradoxo... para pensar.
30.Setembro.2008
... : Alberto Sousa
Realmente, o caso do batista-bastos é paradigmático. Como insider do métier, sabendo que o escândalo rebentaria brevemente na comunicação social, procurou antecipar-se. Foi esse, creio, o objectivo do artigo que fez publicar num diário nacional, tentando deste modo atenuar as farpas que lhe seriam apontadas, como mais um da seita dos privilegiados das cunhas às casas a preços de abóbora.

Ignorante e ingénuo que sou, não entendo por que o presidente da CML, segundo o DN de hoje, «pediu um parecer prévio à Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD)», antes de divulgar a lista dos apadrinhados, conforme é sua vontade (diz ele, ainda de acordo com o DN.)

Como este portal é visitado por sabedores de leis, talvez haja alguém que tenha a bondade de me informar se os contratos de arrendamento urbano relativos ao património autárquico não são por definição documentos de acesso público a qualquer cidadão interessado no seu conteúdo, salvo o caso de justificadamente haverem sido sigilados por ato expresso e publicitado.
30.Setembro.2008
... : Alberto Ruço
As cunhas proliferam e são bem toleradas porque resolvem problemas ou atribuem benefícios aos beneficiários da cunha, ao mesmo tempo que geram reservas de gratidão a favor daqueles que dão execução à cunha, os «cunhados», tudo isto, sem uns e outros despenderem um cêntimo do próprio património.

Se alguém faz um favor apenas à custa do seu património ou do seu trabalho, tudo bem.
Porém, a cunha usa o que é público, de todos, em proveito de dois: o beneficiário da cunha, que recebe o proveito e o «cunhado» que dispõe do que não lhe pertence e fica com a auréola de «boa pessoa», «bom coração», «tipo porreiro», ainda que se trate de alguém capaz de cobrar mais tarde a retribuição do favor, com juros.
Sem dúvida que constituiu uma reserva de gratidão.
E para grandes «cunhados» grandes reservas de gratidão popular.

Quem mete uma cunha sabe que está a tentar «lixar» alguém, o qual, ainda que de forma remota, receberia legitimamente o benefício que ele pretende para si.
E quem aceita a cunha e lhe dá seguimento também sabe que vai subtrair a alguém aquilo que legitimamente lhe pertence.

Fazer «caridade» com o que é dos outros, com o que é público e ganhar com isso, além de ser um abuso, nada fica a dever a um furto.

Mas a cunha é mais que um furto.
A cunha é subversiva dos valores e socialmente maléfica porque feita à custa da destruição da igualdade e da justiça entre os cidadãos.

30.Setembro.2008
... : Rosário Marques
Ora, Alberto Sousa, sabe bem que sim, que existe a lei do acesso aos documentos da administração publica, que fala em arquivo aberto e em transparencia...... mas o Sr. Alberto Costa que adiar publicar esses nomes.... quer dar tempo a que cada um possa salvaguardar-se.

Apesar que, diga se em abono da verdade, ainda é o dia a dia na Administração Pública, o impedir o acesso aos documenos, como se ainda estivessemos no tempo do Estado de Policia (ou já estamos de novo? parece tudo tão igual!!)

Ou, talvez ate consiga que a CADA diga qu enao pode divulgar os nomes por estarem sujeitos a proteção da vida privada dos envolvidos!

Afinal, eles nao sao uns quaisquer uns!

Será que vão ainda ter que pagar os valores reais dashabit~ções que de facto usaram?

Ou, para variar, como é dinheiro publico - dinheiro dos impostos que eu pago! - fica tudo assim???


01.Outubro.2008
... : CesarMarques
Não sabiam...!?
É dar uma volta pelo país...
01.Outubro.2008
... : Suum cuique tribuere
A ciganada e outra malta malta da Quinta da não sei o quê é que beneficiam dos n ossos impostos por terem subsídios e casas, etc e tal, mas no fim as Srs Vereadoras do PS, com consciência social,,, isto é tudo o mesmo!!!! Volta Salazar, o Povo já te perdoou.
01.Outubro.2008
... : Abel Marques
...será que nenhum de vocês sabe o que é a palavra manipulação, e ainda ligam a [***] organizada como o João Miguel Tavares e companhias do Expresso?...Leiam mas é o Blog do Eduardo Pitta denominado por "daliteratura" e constatem que as coisas não são bem como parecem e o Baptista-Bastos foi injustamente apelidado como a "bete noire" deste processo, o qual não tem nada a ver a não ser arrendatário da Câmara, como outras centenas de pessoas sem ser a custos sociais e com rendas normais?..o que vale é que ele tem as costas muito largas para um país muito estreito.
02.Outubro.2008
... : Rosa Suqueira
O camarada Bastos tem direito ah casita, carago.
A dasha pertence-lhe...
os ricos eh q nun...
03.Outubro.2008
... : Manuel Trindade
O BB tem mais coragem do que este puto que diz ser jornalista e está farto de pedir cunhas a privados para ter espaços de conversa na TSF, artigos em jornais e [****]. Não se esqueçam que o [****] é de direita e eu não acredito que o BB tenha conversado com ele da forma como [****] descreve! Para já o homem tem mais de setenta anos e não era depois de uma vida inteira à porrada que se ia vender! A casa dele é camarária: ora bolas, o homem já o diz à anos. Não existe novidade nenhuma. Além disso paga renda de algo que nunca irá ter:preocupem-se mas é com os ex-ministros nos negócios de milhões na Lusoponte!
17.Outubro.2008
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