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O silêncio é de ouro criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
25-Fev-2008
Vivemos na era da informação, na sociedade mediática, no tempo da imagem. Não é propriamente novidade. Já cá andamos há tantos anos que talvez fosse altura de aprender a viver com isso. O mais surpreendente é constatar a crescente dificuldade em lidar com aquele mundo em que nascemos. Os disparates e tolices parecem multiplicar-se. Alguns são caricatos. Por exemplo, temos visto uma sucessão de funcionários públicos superiores atropelarem-se na ânsia de arranjar sarilhos com declarações à imprensa.

O enredo é tão semelhante e ingénuo que faz dó ver como essas eminências não percebem a armadilha antes de lá caírem. Começam por dar longas entrevistas que evidentemente ninguém lê. Surpreende logo que eles acreditem que alguém se interessaria pelas suas doutas opiniões e pomposas revelações.

Mas o que todos lêem são os extractos que a imprensa se encarrega de seleccionar, elaborar e propagandear, os pedaços mais sumarentos, chocantes, comprometedores.

Seguem-se os inevitáveis desmentidos, correcções, apoios do ministro competente, pedidos de exoneração da oposição. Em consequência, aquela tarefa administrativa crucial para o País, que nunca seria favorecida se a entrevista corresse bem, fica dificílima ou até irremediavelmente comprometida após o deslize. Depois, é só esperar uns diazitos e tudo recomeça com outro ingénuo burocrata.

Não há quem cale esses leais servidores do Estado? As gaffes dos ministros são já proverbiais, mas ao menos fazem parte das suas funções.

Um político deve estar preparado para explicar as suas escolhas e prestar contas do caminho a seguir. Mas os funcionários não têm de se mostrar às tropas. O seu papel é monótono e silencioso, cumprindo ordens da tutela e operando os mecanismos. A sua influência está no cargo e nos resultados.

Os media não notam que esta degradação também cai sobre eles.

Os repórteres confundem as figuras tristes com jornalismo de qualidade. Em Portugal, relatos enviesados, manipulação descarada, boatos mesquinhos, piadinhas tolas, fotografias ridículas e notícias encomendadas passam por imprensa genuína.

As dificuldades em viver neste mundo não se ficam pela vida pública. Na televisão, rádio, jornais ou auditórios é normal organizar colóquios, debates, mesas-redondas para lidar com questões de fundo.

Mas como vivemos na sociedade mediática, não se podem fazer as coisas de forma esclarecedora. Empilham-se os oradores de múltiplas orientações, proveniências e atitudes. O resultado é uma cacafonia incompreensível que, levada a sério, deixaria toda a gente mais confusa que antes. Claro que, vivendo na era da informação, o povo sai satisfeito com uma ou outra ideia simplista que um interveniente mais habilidoso explicou de forma convincente.

Vivemos num mundo de espelhos, numa fogueira de ilusões. Consideramo-nos informados e esclarecidos mas nos assuntos sérios, opções estratégicas, problemas de fundo, novas infra-estruturas, escândalos empresariais, temos de admitir que ninguém se entende.

Pior, a nossa vida é hoje agredida da forma mais violenta e boçal por aquilo que pretende divertir-nos. Não passaria pela cabeça de ninguém meter em casa os desconhecidos que encontra na rua. Mas à noite, na televisão, tudo o que vier é aceite obedientemente. Uma família pacata, num serão habitual, assiste a mais violência, crime, engano e miséria que uma aldeia medieval num ano de invasões bárbaras.

Como viver numa sociedade assim? A única forma é enfrentá-la, como a um furacão: bem escorados nos valores e critérios básicos, escolhendo com cuidado as referências que nos guiam. Existe ainda um elemento importante, que uma das referências mais decisivas da actualidade acaba de formular.

O Papa pediu há dias, no encontro quaresmal com o clero de Roma a 7 de Fevereiro, um "jejum de imagens e palavras". A sociedade mediática criou uma embriaguez de estímulos que embrulha e asfixia, manipula e embrutece. É preciso lidar com ela como com a poluição.
Na era da informação é crucial lembrar que o silêncio é de ouro.
 
JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DN | 25.02.2008
 
Comentarios (7)add
... : Aguenator : http://Aguenator
Para alguns, a submissão a dogmas de homens de certas caracteristicas é a verdade absoluta.
Outros empurram para essa submissão porque só há isso.
Outros ficam como se fosse tema de conversa.
Outros estão-se a borrifar para a conversa.
Libertar a voz é um processo
Com pausas ou sem elas precisamos ...
25.Fevereiro.2008
... : BD
Este texto, com o devido respeito pelo seu autor, deve ser lido ao contrário, isto é, o silêncio não é de ouro, nem deve ser de ouro, temos é de contrapor ao ruído mediático um ruído culto, responsável, de qualidade. Isso sim. Agora silêncios como medida de combater o chinfrim dos jornais e das televisões é que não. Isso, meus amigos, era o que eles queriam. O Papa (filósofo que admiro) pediu 'jejum de imagens e palavras'. Se foi verdade, nunca ouvi tamanha blasfémia. Então como é que se espalha a palavra do Senhor?
25.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
Ora, não é isto a sociedade de «mercado» que tanto se ambicionava, «enterrado» o marxismo?!!! Vende-se o que se compra e vice-versa! O ««l´argent» passou a ser «DEUS»! Já agora: a Igreja ainda considera «pecado» usar-se preservativo?
25.Fevereiro.2008
... : Mendes de Bragança
Este texto é brilhante e superior.
Muitos advogados e juízes deveriam lê-lo e retirar dele as devidas ilações. Falariam menos na comunicaçãp social, o que equivale a dizer, que diziam menos disparates.
25.Fevereiro.2008
... : Calvin
Oh! Sr. Mendes, e já agora por que não, também, MPs? smilies/grin.gif
25.Fevereiro.2008
... : Mário Rama da Silva
JCN, como é habitual, tem razão e não tem.
A agressivdade dos meios de comunicação social na busca de peças e, porque não dizê-lo, a inexperência de muitos jornalistas aos quais se exige que produzam a todo o custo para sobreviver na profissão, quando não assume contornos próximos dos paparazzi impele-os a entrevistar todo o bicho careta que se coloque em posição para tal. Por outro lado, não parece que a oferta seja inferior à procura e o conhecido "emplastro" tem hoje muitos rivais que se pelam por dar uma entrevista ou dizer apenas uma frase que seja para o telejornal. Logo, a probabilidade do disparate é, apenas, uma questão de estaística.
Nisto, reconheçamos razão a JCN.
Onde lhe falha a razão é quando entende que deve haver alguém que cale os funcionários públicos que dão as entevistas.
Primeiro,porque podem dizer coisas úteis e não dizer nenhum disparate.
Segundo, porque se disserem efectivamente disparates ficam com o ónus das figuras que façam e o erro estará em vir o ministro apoiar essa eventual triste figura, fazendo-a sua.
Terceiro, porque se for além do simples disparate pode ser sancionado, política e disciplinarmente.
Quarto, mas não menos importante, porque a experiência nos diz que não é calando, por via de autoridade, quem diz disparates que se resolve nada.
Pelo contrário, o único resultado é o de só falarem os que concordam com quem manda, para dizer o que lhe mandam, silenciando os discordantes.
A solução é nomear pessoas competentes, dotadas do suficiente bom senso para não dizerem, nem fazerem, disparates.
Quanto às citações de natureza religiosa, elas são parte da essência de JCN e, por isso, são apenas o que são: manifestações pessoais de fé.
26.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
Lê-se com gosto o Mario Rama da Silva. porque se aprende sempre um pouco com ele. Bem haja!
28.Fevereiro.2008
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