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Vivemos na era da
informação, na sociedade mediática, no tempo da imagem. Não é propriamente
novidade. Já cá andamos há tantos anos que talvez fosse altura de aprender a
viver com isso. O mais surpreendente é constatar a crescente dificuldade em
lidar com aquele mundo em que nascemos. Os disparates e tolices parecem
multiplicar-se. Alguns são caricatos. Por exemplo, temos visto uma
sucessão de funcionários públicos superiores atropelarem-se na ânsia de
arranjar sarilhos com declarações à imprensa.
O enredo é tão semelhante e ingénuo que faz dó ver como essas eminências não
percebem a armadilha antes de lá caírem. Começam por dar longas entrevistas que
evidentemente ninguém lê. Surpreende logo que eles acreditem que alguém se
interessaria pelas suas doutas opiniões e pomposas revelações.
Mas o que
todos lêem são os extractos que a imprensa se encarrega de seleccionar, elaborar
e propagandear, os pedaços mais sumarentos, chocantes,
comprometedores.
Seguem-se os inevitáveis desmentidos, correcções, apoios do
ministro competente, pedidos de exoneração da oposição. Em consequência, aquela
tarefa administrativa crucial para o País, que nunca seria favorecida se a
entrevista corresse bem, fica dificílima ou até irremediavelmente comprometida
após o deslize. Depois, é só esperar uns diazitos e tudo recomeça com outro
ingénuo burocrata.
Não há quem cale esses leais servidores do Estado? As
gaffes dos ministros são já proverbiais, mas ao menos fazem parte das
suas funções.
Um político deve estar preparado para explicar as suas escolhas
e prestar contas do caminho a seguir. Mas os funcionários não têm de se mostrar
às tropas. O seu papel é monótono e silencioso, cumprindo ordens da tutela e
operando os mecanismos. A sua influência está no cargo e nos resultados.
Os
media não notam que esta degradação também cai sobre eles.
Os repórteres
confundem as figuras tristes com jornalismo de qualidade. Em Portugal, relatos
enviesados, manipulação descarada, boatos mesquinhos, piadinhas tolas,
fotografias ridículas e notícias encomendadas passam por imprensa genuína.
As
dificuldades em viver neste mundo não se ficam pela vida pública. Na televisão,
rádio, jornais ou auditórios é normal organizar colóquios, debates,
mesas-redondas para lidar com questões de fundo.
Mas como vivemos na
sociedade mediática, não se podem fazer as coisas de forma esclarecedora.
Empilham-se os oradores de múltiplas orientações, proveniências e atitudes. O
resultado é uma cacafonia incompreensível que, levada a sério, deixaria toda a
gente mais confusa que antes. Claro que, vivendo na era da informação, o povo
sai satisfeito com uma ou outra ideia simplista que um interveniente mais
habilidoso explicou de forma convincente.
Vivemos num mundo de espelhos, numa
fogueira de ilusões. Consideramo-nos informados e esclarecidos mas nos
assuntos sérios, opções estratégicas, problemas de fundo, novas
infra-estruturas, escândalos empresariais, temos de admitir que ninguém se
entende.
Pior, a nossa vida é hoje agredida da forma mais violenta e boçal
por aquilo que pretende divertir-nos. Não passaria pela cabeça de ninguém meter
em casa os desconhecidos que encontra na rua. Mas à noite, na televisão, tudo o
que vier é aceite obedientemente. Uma família pacata, num serão habitual,
assiste a mais violência, crime, engano e miséria que uma aldeia medieval num
ano de invasões bárbaras.
Como viver numa sociedade assim? A única forma é
enfrentá-la, como a um furacão: bem escorados nos valores e critérios básicos,
escolhendo com cuidado as referências que nos guiam. Existe ainda um elemento
importante, que uma das referências mais decisivas da actualidade acaba de
formular.
O Papa pediu há dias, no encontro quaresmal com o clero de Roma a 7
de Fevereiro, um "jejum de imagens e palavras". A sociedade mediática criou uma
embriaguez de estímulos que embrulha e asfixia, manipula e embrutece. É preciso
lidar com ela como com a poluição.
Na era da informação é crucial lembrar que
o silêncio é de ouro.
JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DN | 25.02.2008
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