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Isto é uma espécie de ditadura criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
04-Abr-2007

ImageDepois do "flop" do caso íntimo, do Freeport, da viagem ao Quénia e, ao que tudo indica, da Independente, Sócrates parece ter o caminho aberto para controlar a sério a comunicação social - que renunciou a atacar o governo no seu âmago, na sua política, nas ameaças feitas ao regime, aos direitos, ao princípio da separação de poderes, no terreno do próprio descrédito das instituições.

SE UM DELEGADO do Ministério Público e até um juiz, dignos representantes do segundo poder, estão a caminho de ser esmagados por Sócrates, os jornalistas vão pelo mesmo caminho. No fim, só o primeiro-ministro se fica a rir.

A comunicação social pode estar hoje a pagar o preço pela excessiva complacência com as chapeladas dos socialistas nos últimos dois anos, designadamente com a quebra de promessas eleitorais, a politização da justiça, as brincadeiras com a eleição dos novos juízes do Tribunal Constitucional, a condenação de muitos portugueses ao nascimento em Espanha, a criação de um aparelho securitário controlado pelo primeiro-ministro, a aposentação compulsiva de dois sindicalistas da PSP por motivos políticos.

Nos regimes musculados como o de Sócrates, a comunicação social deve ter um papel cívico muito acentuado, como garante do próprio funcionamento das instituições democráticas. Ora, a comunicação social, com algumas honrosas excepções, andou nos últimos dois anos siderada com a pessoa de Sócrates. Até o tipo de escândalos que escolheu para tentar atingir o primeiro-ministro, o caso da vida íntima, o caso das férias no Quénia e até hoje o caso da Independente, são temas societários, perto do "fait-divers". O que parece mostrar que a comunicação social renunciou a atacar o governo no seu âmago, na sua política, nas ameaças feitas ao regime, aos direitos, ao princípio da separação de poderes, no terreno do próprio descrédito das instituições. A coberto da necessidade de equilibrar as finanças do país, tudo se tem permitido, como se Portugal vivesse hoje uma espécie de ditadura, parafraseando os "Gato Fedorento".

Hoje, quando Sócrates telefona seis vezes seguidas a um jornalista, de forma a tentar condicionar a sua investigação sobre a universidade Independente, quando o primeiro-ministro parece sentir-se cada vez mais fortalecido para fazer gato sapato dos jornalistas, secando as fonte dos jornais e o trabalho de investigação, atacando o alegado "jornalismo de sargeta" como pretexto para controlar melhor todo o jornalismo, ameaçando as notícias que têm opiniões, o que leva, naturalmente, os jornalistas a protestaram, há que notar que o executivo só age assim porque não parou de galgar terreno nos últimos dois anos, levando tudo à frente, princípios, direitos, garantias.

Há dois exemplos gritantes. Quando, há uns meses, os socialistas fizeram a proposta ao PSD de negociar o julgamento de Camarate em troca da criação de comissões parlamentares judiciais, com um procurador eleito na AR, na verdade um comissário político, tal equivaleu a uma tentativa de golpe de Estado que deveria ter merecido da comunicação social, se funcionasse como garante da democracia, acções exemplares, bloqueio à informação, greve geral, manchetes a negro, interrupções de telejornais.

O mesmo se diga em relação a outro caso, mais recente, envolvendo o Tribunal Constitucional, órgão jurisdicional por excelência da democracia e da República. Confessadamente, os socialistas geriram politicamente a escolha e tomada de posse dos novos juízes do Tribunal Constitucional de modo a precaverem-se contra um eventual pedido de fiscalização da constitucionalidade da lei do aborto por parte do Presidente da República, situação que, se tivesse ocorrido, levaria a que fosse a anterior composição do TC a debruçar-se sobre a lei do aborto. Outro caso envolvendo o TC reside no facto de num universo restrito de 13 juízes, dois novos juízes serem, precisamente cônjuges de dois anteriores juízes que acabaram os seus mandatos. Tudo junto, o TC sai desacreditado, a democracia fica mais enfraquecida e a própria ética republicana é posta em causa. Ainda por cima, as suspeitas recentes de que o TC pode ser, desde há muito, um órgão manietado a partir da Maçonaria, agravam o estado de coisas, o estado a que isto chegou, parafraseando Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril.

Deslizes.
Os deslizes da comunicação social com Sócrates, têm sido muitos. O caso íntimo de Sócrates foi um "flop". O caso Freeport foi outro. O caso das férias no Quénia também não surtiu efeito. Desta vez, com o caso da licenciatura na Independente, o risco de a comunicação social se voltar a dar mal também é alto. Talvez por isso, Sócrates tenha decidido hoje ser muito mais pedagógico do que anteriormente. Telefonou incessantemente para que os jornais não fizessem as figuras tristes de antigamente.
E verdade que está por provar se houve, ou não, tratamento de favor da Independente na conclusão da licenciatura do primeiro-ministro e há factos que precisam de ser melhor investigados. Como a tabela das equivalências dadas nas disciplinas. Como o ter sido um militante do PS a leccionar quatro das cinco cadeiras que faltavam a Sócrates. Onde estão os documentos que permitam obter conclusões? Designadamente, onde estão os testes realizados por Sócrates?
No entanto, há já indicadores muito negativos para a comunicação social. Por exemplo, fora do estado de sítio que se vive na Independente, o facto é que Sócrates tem mesmo um MBA pelo ISCTE, com a melhor média do curso, 17 valores, algo que chegou a ser posto em causa esta semana e que redundou em novos trunfos para Sócrates. Ao ponto de o director do ISCTE ter vindo em defesa de Sócrates e do seu elevado mérito. Por sua vez, fora do quadro académico, não há ninguém que não considere que o primeiro-ministro pode ter muitos defeitos mas é um homem muito competente e trabalhador. Pode haver dúvidas formais sobre o canudo, mas Sócrates é hoje visto como um "doutor honoris" da governação no terreno. O risco, a avaliar pelas experiências anteriores, é que os portugueses devem continuar a dar subidas a Sócrates nas sondagens depois do caso da Independente. O risco ainda maior é que Sócrates, cada vez mais inebriado com o seu sucesso, ainda torne o país mais totalitariamente irrespirável.

PS. Está por explicar por que é que Sócrates telefonou para seca e meca do jornalismo e, que se saiba, a RTP não tenha recebido nenhuma chamadinha do Governo. Terá sido por que não passou nenhuma peça nos seus telejornais do passado sábado sobre a licenciatura de Sócrates?

PAULA GAIÃO | SEMANÁRIO | 05.04.2007

Comentarios (9)add
... : LM
Porque aguardar pela próxima quarta-feira para comunicar ao país a "regularidade" da sua licenciatura?

Para cozinhar exames, testes feitos e eu sei lá que mais que justifiquem o injustificável?

O país vai muito mal e isto é mesmo muito sério!

É o total descrédito de um Estado de Direito!

07.Abril.2007
... : josé costa - Casal do Marco
ESTADO DE DIREITO?
.
O que é isso?
.
Vigorando neste país o Estado de Direito, já o PGR tinha mostrado ao país de que fibra é feito, assegurando aos portugueses a abertura de um inquérito aos "canudos" por encomenda a professores que sózinhos leccionam várias disciplinas tão dispares e ainda examinam os alunos a quem depois vão servir em governos desses alunos como é o caso presente!
Estado de Direito, só se fôr o da Etiópia!
Procurador-geral da República só se fôr a das Bananas!
Tenham vergonha e respeitem a inteligência dos portugueses!
07.Abril.2007
... : josé costa - Casal do Marco
Que Estado de Direito é este em que a Ordem dos Advogados ( uma corporação PRIVADA) se permite através dos seus estatutos, dar ordens aos Tribunais (Instituições do Estado dito de Direito) !
07.Abril.2007
... : PG
Tem razão. Mas desista! Não vale a pena. Somos muito pobres há muito tempo!!
Se nem a PGR investiga os indicios de graves irregularidades ADMINISTRATIVAS de uma universidade dita privada reconhecida Estado...
08.Abril.2007
... : josé
Na governação de Guteres, Vara, Sócrates e Seguro, eram "tres jovens turcos", "provincianos", com ambições politicas e de ascenção social ilimitadas mas sem quaisquer graus académicos visiveis. Por isso, não podiam voar alto politicamente por serem "fracas" as habilitações literárias. Astutos e com a formação ética que vêm demonstrando, rapidamente adquiriram "graus académicos" e chegaram a onde quiseram e em simultâneo: ao "topo politico,da administração pública, etc., etc.". Ou seja, em pouco tempo conseguiram adquirir o que não tinham logrado obter antes de terem chegado ao PODER. E são estes senhores que governam PORTUGAL!!!!!
10.Abril.2007
... : Filipa
Ainda tenho a ténue esperança de que os espanhóis nos anexem e que possamos correr com a actual escumalha que nos (des)governa.
A restauração foi um erro que nos está a sair caro.
11.Abril.2007
... : sovisto
Filipa
Estou consigo.
Viva D Teresa, o Conde Andeiro e D Leonor Teles.
Abaixo D. Afonso Henriques, D João I e D João IV.

12.Abril.2007
... : Julio Roque
Os comentaristas acima devem pertencer ao grupo que anda a colar os cartazes do PNR. Se morderem a língua morrem envenenados. São os puros da Nação Imortal os novos Heróis do Mar. Os que acordaram agora do coma profundo. Mais valia que lá continuassem...
16.Abril.2007
... : armando
Só me entristecia se de um facto, fosse uma realidade, a anexação a espanha, cara Filipa, espero que seja um desabafo e não tenha saido do âmago das suas entranhas envenadas, não queremos recordar as épocas passadas, em que durante séculos as nossas leis eram ditadas pelos espanhois, aonde a nossa liberdade era o que era e para quem era.
Não me parece que neste mundo actualmente capitalista, aonde vence quem tem poder, conhecimentos, que criam a dinâmica, os inteligentes, e o dinheiro, nos coloque numa posição de submissão, sem arrojo, sem pátria, e sem dignidade.
Decerto que tudo faremos para cumprir e limpar o lixo que os governos constantes nos deixam, mas esta maioria silenciosa, não pode calar, nem aceitar sermos anexados com uns "merdas" que julgam os mais inteligentes apenas porque progridem materialmente e financeiramente, este não é o nosso mundo, creiam que existirá mais do que interesses, subornos, vinganças, estatutos sociais, tachos e ...,
Estaremos sempre atentos cara Filipa, desculpe-me se fui indelicado, mas sou apenas um cidadão comum, que não aceitarei calar, quando se julgar a verdade, esta sim tem de ser julgada.
03.Maio.2007
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