 O futuro terá muita dificuldade em entender a nossa obsessão com o Estado. Esta
é a época que mais teoriza sobre o papel das autoridades, onde os poderes
públicos mais se esforçam por melhorar a vida dos cidadãos, mas onde existe a
maior confusão, atropelo e ambiguidade nesses mesmos poderes. O Estado não faz o
que deve e anda a meter-se onde não é chamado. Assistimos nos últimos tempos a
um recuo evidente do Governo nas suas funções básicas. Ao mesmo tempo há
funcionários, fiscais e técnicos a invadir a intimidade dos cidadãos em nome da
segurança e bem-estar. Se isto continua em breve teremos uma inversão total da
estrutura institucional.
O mais surpreendente é que muitas mudanças básicas acontecem, não por razões
ideológicas, de forma planeada ou segundo análises fundamentadas, mas por mero
deslize. São consequências laterais de tácticas oportunistas, expedientes
patetas ou golpes de conveniência. A tacanhez política está a ter efeitos
radicais que dificilmente serão corrigidos.
O recuo do Estado nas suas
funções próprias é bastante evidente. Desesperado pelo défice, o Governo perde
de vista o seu papel. A fúria de privatização há muito deixou de ter propósitos
estruturais, para se tornar mero instrumento financeiro. Privatiza-se não o que
se deve, mas o que rende. Como as corporações capturaram as funções que deveriam
exercer, cada ministério trata mais de reivindicações de profissionais que do
seu serviço ao povo.
Um recente caso escandaloso é o das Estradas de
Portugal. Entregou-se a uma sociedade anónima uma função essencial do Estado, a
liberdade de circulação, pois estradas abertas constituem um direito fundamental
de cidadania. Qual a razão? A bomba de relógio financeira das SCUT, criada na
ilusão de obter dinheiro privado para infra-estruturas, está a explodir. Por
isso entrou-se numa fuga para a frente, generalizando a abordagem. Quando o
primeiro-ministro afirmou em 16 de Novembro que a nova empresa tem por objectivo
a "sustentabilidade financeira", ele sabe que isso só será possível com uma
qualquer forma sofisticada dos antigos bandoleiros dos atalhos.
Enquanto
aliena funções fundamentais, a sempre crescente máquina estatal atarefa-se a
tratar da violência doméstica, inovação tecnológica, galheteiros nos
restaurantes, embalagens de brinquedos. Proíbe o fumo, o ruído e o excesso de
velocidade, promove o aborto e facilita o divórcio. Dizemos ser um país livre,
mas é impossível a matança do porco, brindes no bolo-rei, ou termómetros de
mercúrio.
Tudo isto no meio de uma fúria legislativa, onde novas versões
de diplomas surgem antes de secar a tinta nas anteriores. Um exemplo sugestivo,
já que se fala de trânsito, é o Código da Estrada. O Estado, que se demite da
gestão rodoviária, está cada vez mais enfiado com o condutor ao volante. Como
andar de automóvel não muda há décadas, seria de esperar estabilidade nessa
legislação fundamental que afecta toda a população. Pelo contrário, esse campo é
um emaranhado de diplomas.
Referindo apenas os principais, tínhamos um
código, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 114/94, de 3 de Maio, que foi depois
revisto e republicado pelos DL 2/98, de 3/1, e 265-A/ 2001, de 28/9, e alterado
pela Lei 20/2002, de 21/8. Então o Governo decidiu criar um novo Código, que
aprovou pelo DL 44/2005, de 23/02. Desde então, nestes dois anos já foram
publicados 26 novos diplomas que o complementam, corrigem e acrescentam. São
quatro leis, cinco decretos-leis, dois decretos regulamentares, seis portarias e
nove despachos. O site da
Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, na secção Trânsito, tem um total de
46 diplomas que devemos conhecer cada vez que entramos num carro.
O mais
incrível é que os responsáveis não se dão conta de que esta profusão legislativa
apenas manifesta a sua tolice, impotência e incapacidade. O Estado tornou-se uma
galinha tonta, a correr em todos os sentidos. As gerações futuras vão
divertir-se com este tempo infantil que acha que a lei resolve tudo mas não
consegue decidir qual lei o deve fazer.
JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 03.12.2007
Comentarios () |
|
|
|
|
|