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A ideologia invisível do Governo criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
11-Fev-2008
ImageÀ primeira vista, o Governo Sócrates carece de orientação ideológica. O socialismo saiu da gaveta para o baú do sótão e os recuos, cedências, compromissos e expedientes parecem revelar um pragmatismo isento de princípios.
Mas no que realmente conta o actual Executivo tem seguido uma linha doutrinal férrea e impiedosa, escondendo a sua determinação clara debaixo de uma aparente bonomia.

Isto revela-se em pequenos sinais que escapam à vigilância institucional. A nova ministra da Saúde antes da posse afirmou algo espantoso: "Sempre trabalhei no serviço público e é esse que eu defendo" (SIC, 29/Jan.). Ela assume à partida que, dos seus dois cargos - ministra de Portugal e gestora do Serviço Nacional de Saúde-, já escolheu o segundo. A sua preocupação central será, como aliás os antecessores, a carreira dos médicos, não a saúde dos doentes.


Esta frase descuidada vai ao centro do nosso drama actual. O Estado existe para servir a sociedade, mas se o aparelho cresce muito a partir de certa altura ele passa a ser o seu próprio objectivo. Quando os servidores públicos usam os seus poderes nacionais para se servirem a si mesmos, a perversão é total. A ideologia do Governo Sócrates esconde, debaixo de um ataque exterior às regalias extremas do funcionalismo, este propósito totalitário de estatização.

Nisso o Governo é prudente e popular. Existe em Portugal um consenso paternalista que considera os serviços públicos, em si, bons e seguros. As empresas, tendo fins lucrativos, exploram os clientes enquanto os burocratas, com fins de carreira, são eficazes. O modelo até é capaz de funcionar com suecos, mas com lusitanos tem sido um desastroso fiasco há séculos. Apesar disso, os cidadãos apaticamente vão aceitando as múltiplas e minuciosas investidas de nacionalização.

Parte-se da imagem que a saúde ou escola privadas são mais caras que as públicas, o que é evidentemente falso. Os custos dos serviços particulares são visíveis e pagos pelos utilizadores, enquanto os públicos, escondidos na confusão do Orçamento, são também pagos pelos mesmos contribuintes. Só que quando o pagador está a olhar, as coisas são diligentes e económicas, enquanto os desperdícios que a capa pública esconde são impossíveis de medir.

No entanto os governos vêm usando os impostos que retiram aos contribuintes para criar serviços que competem com as escolhas dos mesmos contribuintes. Tudo é feito com o pretexto de virtuoso serviço à nação e com o aplauso de professores, médicos e outros funcionários, que preferem a segurança pública à maçada de ser julgados pelos resultados. De facto estar no mercado, depender da satisfação dos clientes e só receber quando se produz qualidade é um grande aborrecimento.

Se é assim em todos os sectores, na Educação, cujo objecto directo é a ideologia, o propósito ganha novos contornos. Nas escolas trata- -se de formar as consciências da juventude e o Estado não quer perder esse precioso instrumento de poder. O cerco que tem feito ao ensino privado e livre tem sido implacável e cruel. A retirada dos subsídios aos ATL, a construção de escolas do Estado junto a estabelecimentos privados e outras medidas têm este objectivo totalitário.

Mas a ideia vai mais longe. O secretário de Estado da Educação defendeu-se de críticas recentes afirmando: "Todas as escolas têm um coordenador da educação para a saúde, na qual está envolvida a educação sexual" (RR, 31/Jan.). Reduzir o sexo a um problema sanitário é tão tonto como ver a Biologia dentro da Física ou a Literatura na Gramática. Mas esta frase não é tolice, é ideologia. Não se trata de um erro, são ordens. Neste campo, como tantos outros, a escola pública é veículo para as doutrinas das luminárias do regime que, na História como no Português, na Educação Sexual como na Economia, impõem como verdades estabelecidas o que não passa de preconceitos.
 
JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 11.02.2008 

 

Comentarios (4)add
... : Barracuda
Não vale a pena comentar. A uma ideologia, a do culto da incompetência e do nepotismo, o autor contrapõe outra, a da sacristia, na convicção de que a que professa dá contas ao Supremo e a do Governo a ningém.Para este senhor a igualdade dos cidadãos naquilo que é essencial em qualquer Estado de Direito assenta no privado, provavelmente no de inspiração divina. Para os desgovernos que temos tido assenta no bem-estar dos companheiros/camaradas. De qualquer maneira o privado português não presta, vive pelo parasitismo do público em todos os domínios (na indústria, no comércio e nos serviços), sempre de mão estendida para o óbulo do erário público. O público também não, por razões várias: para além da selecção pelo compadrio partidário para os cargos de que tudo depende, há a cltura de que tudo o que é público é baldio e apropriável pelo privado, ainda que se tenham de fazer leis intuitu personnae e as promessas de boca bastem para constituir direitos reais. São exactamente esses donos do público e do privado, no fundo de todos nós, que cinicamente vêm defender que o público não presta por essência e, se calhar por isso, há que se apropriar dele por todos os meios. Fazem-no e podem continuar. Nada lhes acontecerá. Só gostaria de saber onde irão mamar os nossos impostos que os seus governos nos rapinam depois de a teta pública ter secado definitivamente. Que bando de hipócritas. De qualquer modo, o afirmado pelo texto supra não merece comentários mas que hei-de fazer, ninguém é perfeito.
11.Fevereiro.2008
... : Um cidadão
Na minha humilde opinião, mais importante do que qualquer ideologia política, é o combate à corrupção.
11.Fevereiro.2008
... : berlim
um governo neoliberal e anti-judiciário como este e como este p.m. tornam impossível o combate á corrupção, com o argumento de que isso iria atrasar a economia livre...
14.Fevereiro.2008
... : Horácio
A IDEOLOGIA VISÍVEL DE JOÃO CÉSAR DAS NEVES
A mais reaccionária, troglodítica, medieval e inquisitorial que imaginar se pode.
Por vezes, chega a parecer que JCN não existe, sendo uma caricatura da direita inventada pela esquerda para a deacreditar. Mas,por mais estranho que isso possa parecer, tudo indica que a criatura existe mesmo, e pensa mesmo aquilo qur escreve!
15.Fevereiro.2008
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