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Realizou-se anteontem, em Lisboa, o 1.º
Congresso Ibérico do Poder Judicial. Esta iniciativa, que congregou os
juízes portugueses e espanhóis, foi inédita na vida do poder judicial e
da justiça ibérica. Foram questões de Estado, que estiveram
presentes neste congresso, que marca o arranque de futuras iniciativas
deste género à escala europeia. São assuntos que mexem com a vida dos
cidadãos, com o regular funcionamento das instituições e solidez do
Estado de Direito. E se é assim, como explicar que estas temáticas e a
presença das quartas figuras de ambos os Estados, não tivessem despertado
interesse na cobertura noticiosa do evento?
Realizou-se anteontem, em Lisboa, o 1.º
Congresso Ibérico do Poder Judicial. Esta iniciativa, que congregou os
juízes portugueses e espanhóis, foi inédita na vida do poder judicial e
da justiça ibérica. Estiveram presentes o presidente do Supremo
Tribunal de Justiça, quarta figura do Estado português, e o presidente
do Tribunal Supremo Espanhol, que apresentaram notáveis comunicações na
defesa intransigente da independência do poder judicial face aos demais
poderes do Estado.
Várias foram as razões para a concretização
deste evento. As duas principais prendem-se com a reafirmação de que é
ilegítima a intromissão dos demais poderes do Estado na esfera de
competência e actuação próprias do poder judicial e com a necessidade
de deixar assinalado ao poder político que os Conselhos Superiores da
Magistratura e os Conselhos Gerais da Magistratura ou do Poder Judicial
espanhóis devem exercer a sua actividade com independência dos demais
poderes do Estado e responsabilizar-se pelo autogoverno e tutela da
independência interna e externa do poder judicial.
Também
neste foro se concluiu ser essencial que as reformas do sistema
judicial sejam orientadas no interesse do cidadão, tendo por objecto
uma justiça equitativa, eficaz, pacificadora das tensões sociais e de
acesso universal. Outra matéria abordada, que constitui uma preocupação
dos valores do Direito e da Justiça, foi a necessidade de colocar na
agenda pública a auto-regulação do poder judicial, nos domínios da
ética e dos deveres profissionais, recusando os juízes ibéricos a
alienação do seu papel fundamental na definição do respectivo estatuto.
Como
vêem, são questões de Estado, que estiveram presentes neste congresso,
que marca o arranque de futuras iniciativas deste género à escala
europeia. Sendo as questões da justiça uma preocupação também da União
Europeia, pretendeu-se consolidar valores e princípios inalienáveis e
contribuir no entendimento entre os juízes portugueses e espanhóis. São
assuntos que mexem com a vida dos cidadãos, com o regular funcionamento
das instituições e solidez do Estado de Direito. E se é assim, como
explicar que estas temáticas e a presença das quartas figuras do
Estado, não tivessem despertado interesse na cobertura noticiosa do
evento?
Não desconheço que é preciso preparar bem o “embrulho”
para despertar o interesse dos media. Não sei se nesta componente
alguma coisa falhou. Ainda que tivesse havido algum erro de estratégia,
as temáticas em discussão, num panorama ibérico, não eram, só por si,
apelativas para os senhores jornalistas? Só há interesse público quando
Sócrates e Zapatero se reúnem para resolver assuntos políticos
ibéricos? Ou quando um jogador dá um murro num colega de equipa? Só há
interesse público nas notícias de ‘faca e alguidar’?
Não
querendo cometer a heresia de me intrometer nos critérios editoriais
dos senhores jornalistas, aqui existe desigualdade de tratamento dos
assuntos. Sem dúvida que um dos problemas que afecta os media é a
ausência de critérios editoriais ou jornalísticos e a eventual
manipulação desses critérios que, por vezes, estão ao serviço do
decisor político e não do direito de informar e de ser informado. Que
me desculpem os senhores jornalistas, mas assim não dá.
Como
escreve Bourdieu: “Os jornalistas têm ‘lentes’ especiais através das
quais vêem certas coisas e não vêem outras, e através das quais vêem as
coisas que vêem da forma especial por que as vêem.”
RUI RANGEL | CORREIO DA MANHÃ | 27.01.2008
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