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Para Fischer Sá Nogueira, Juiz Conselheiro jubilado, «o balanço do ano, em termos de Justiça, foi negativo. Foi um ano em
que, na sequência de muitos outros de idêntica natureza, se continuaram
a cometer erros graves na determinação das causas gerais de um
funcionamento da Justiça eventualmente menos adequado do que o desejado. (...) Não me parece que os portugueses possam esperar por melhorias da
Justiça em 2008. Antes de mais, é preciso saber qual é a filosofia
política de base que preside ou presidirá aos organismos competentes
para a respectiva decisão»
«(...)
2.O balanço do ano, em termos de Justiça, foi negativo. Foi um ano em
que, na sequência de muitos outros de idêntica natureza, se continuaram
a cometer erros graves na determinação das causas gerais de um
funcionamento da Justiça eventualmente menos adequado do que o
desejado. Continuou-se a adoptar a técnica de procurar soluções
pontuais para resolver problemas a que só o sistema na sua globalidade
pode responder: tais remendos são as múltiplas alterações legislativas,
na sua maioria destinadas a resolver um problema imediato, mas
elaboradas sem se ter em atenção a harmonização de cada um com todo o
tecido legal em que deve ser inserido, o que conduzirá a um colapso de
todo o sistema, uma vez que, para além das dificuldades de integração
lógica dos aludidos remendos, se verifica também a adopção de medidas
que se têm vindo a revelar ineficientes para permitir uma mais perfeita
aplicação daJustiça, talvez também por, em vários casos, se
encontrarem redigidas por tal forma que os próprios juristas têm
dificuldade em lhes descortinar o seu sentido real.
3. Não me parece
que os portugueses possam esperar por melhorias da Justiça em 2008.
Antes de mais, é preciso saber qual é a filosofia política de base que
preside ou presidirá aos organismos competentes para a respectiva
decisão: pretender-se-á, como foi tradição durante centenas de anos,
desde o começo da Nacionalidade, continuar a manter a ideia de que o
exercício da Justiça é uma das funções mais nobres que competem
exclusivamente ao Estado, pelo que não deve nem pode era
«funcionalizada», nem cometido o seu desempenho a particulares? Ou não?
Pretender-se-á manter o sistema de «levar a Justiça ao Povo» (isto é,
ser a Justiça que vai ao Povo, para que este mais facilmente, sem
encargos exagerados ou impossíveis de suportar, possa pedir que ela lhe
seja feita), ou pretender-se-á, até por razões orçamentais ou com base
numa falsa ideia de maior eficiência, proceder a uma centralização dos
Tribunais, em detrimento da acessibilidade das populações?
Pretender-se-á, ou não, pôr cobro a uma, pelo menos aparente, injusta
campanha sistemática de descredibilização do trabalho dos Tribunais,
que de nenhum modo serve os interesses e a própria vida da comunidade,
e da qual estes últimos nem sequer se podem defender por imposições
deontológicas, funcionais e estatutárias. Será o conhecimento das
opções políticas que vierem a ser feitas que ditará, a final, o que os
Portugueses poderão vir a pensar sobre a Justiça possível em Portugal
em 2008».
FISCHER SÁ NOGUEIRA | O DIABO | 03.01.2008
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