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Entrevista de Rogério Alves à revista Visão. "É um dos omnipresentes comentadores jurídicos e, no plateau televisivo,
comporta-se com diplomacia. Mas, na sua primeira entrevista enquanto
advogado de Gerry e Kate, pais da menina inglesa desaparecida há um ano
no Algarve, Rogério Alves fala sem rodeios: «Inverosímil, desumano e
patético», são os adjectivos com que o ex-bastonário qualifica o rol de
suspeitas que recaem sobre os McCann, arguidos no caso mais mediático
de que alguma vez se ocupou a Justiça portuguesa. E promete, se o casal
inglês for acusado pelo Ministério Público (MP), tentar demonstrar a
«deficiente» e «incompleta» investigação da Polícia Judiciária (PJ)".
Qual é a sua expectativa quanto ao desfecho deste caso?
Apesar de o segredo de Justiça me vedar o acesso ao processo, o meu
conhecimento cria-me a expectativa de que os pais não vão ser acusados.
Se assim for, os seus clientes ponderam processar as autoridades portuguesas?
É um cenário a considerar, até por toda a publicidade negativa contra o casal. Mas eles ainda nem sequer pensaram nisso.
Caso venham a ser acusados, qual será a sua estratégia de defesa?
Tendo a convicção de que estão inocentes, tentarei demonstrar que a
investigação foi deficiente ou incompleta. Olhando, por exemplo, para a
questão dos vestígios biológicos, acredito que não podem contrariar a
inocência do casal.
Será assim impossível o ADN de Maddie estar no carro que os pais alugaram 24 dias depois?
Se alguém levou para lá a menina antes desses 24 dias, esse vestígio
pode lá estar. Acho descabido que os pais tenham escondido a menina
onde quer que fosse. Em Portugal, muitas vezes, transforma-se o
descabido em lógico. O que se procura atribuir àqueles pais é não só
inverosímil, como desumano e patético.
Acredita, então, que o rapto é a hipótese mais possível
É a hipótese plausível.
Foi aconselhável o casal ter regressado a Inglaterra, após ter sido constituído arguido?
Pareceu-me natural: é lá que têm as suas vidas e nada os obrigava a
ficar cá. Posso é assegurar que voltarão a Portugal sempre que for
necessário, e sem ser preciso qualquer mandado internacional.
Porque é que quatro dos sete amigos que estavam com
eles na noite de 3 de Maio, recusaram participar na reconstituição
proposta pela PJ?
Tanto quanto sei, acharam-na inútil e sem sentido. Os seus advogados
disseram-lhes que não se justificava a sua vinda. Também eu não entendo
a utilidade dessa reconstituição. Não percebo o que é que um ano depois
ela poderia trazer de novo.
Tinha alguma ideia formada sobre o «caso Maddie» antes de, em Setembro de 2007, se tornar advogado do casal McCann?
Sempre acreditei que os pais nada tinham a ver com o caso. Em regra,
nenhum pai maltrata os seus filhos. Primeiro, toda a gente aceitou a
tese do rapto e a mudança da opinião pública pareceu-me assente em
frágeis argumentos, como o das insinuações de teatralidade dos pais. Se
eles tivessem responsabilidade no caso, o mais lógico seria apostarem
na discrição e não na publicidade.
Embora também haja quem faça o raciocínio contrário: o casal criou uma campanha mediática para afastar suspeitas...
As pessoas podem achar o que quiserem e esse é, em Portugal, um dos
riscos de alguma investigação criminal: primeiro, formula-se a tese e,
depois, sustenta-se a tese, quando devia ser ao contrário. Isso é um
sistema de raciocínio viciado.
Acha, então, que a Judiciária adoptou uma tese e só depois a procurou sustentar?
Acho é que a PJ não tem tese. Quando se pronunciou oficialmente foi
pela voz do seu então director [Alípio Ribeiro], que admitiu ter havido
precipitação na constituição dos pais como arguidos. Caiu o Carmo e a
Trindade! Foi crucificado e ficou a saber-se que o líder da PJ não pode
falar em nome da casa que dirige… Quem tem esse direito são fontes
anónimas, que apresentam as teses mais espantosas e atribuídas à PJ.
Presumo que concorda com as palavras de Alípio Ribeiro...
É claro. As novas leis penais exigem, para a constituição de arguido,
suspeitas fundadas. Aliás, isso foi dito pelo próprio Procurador-geral
da República. Mas também ele não tem o direito de falar sobre isso
porque, em Portugal, as fontes anónimas sobrepõem-se hierarquicamente
ao PGR…
Fala num tom que sugere ter havido alguma cruzada contra os McCann. Acredita mesmo nisso?
Claro que houve. Basta ver a quantidade enciclopédica de notícias que
os acusavam e que nasceram de meras especulações. Reuniu-se, em pouco
tempo, um conjunto de advogados de acusação nunca visto.
À data em que o casal foi indiciado, havia a ideia,
entre os investigadores, de que Maddie teria morrido por acidente e que
os pais teriam ocultado o cadáver. Como é que analisa esta teoria?
Para mim, não faz sentido, mas não sei qual a tese que a PJ estudou ou
estuda. Não percebo esta insistência em limitar todo o trabalho da
polícia às pistas anticasal.
A PJ afunilou as suas investigações nos McCann e constitui-os arguidos...
O que não significa que venham a ser acusados, como sucede com a grande
maioria dos arguidos em Portugal. E, graças a um erro legislativo que
se mantém, quando alguém se torna arguido, é-o até ao fim do processo.
Mesmo que a meio do inquérito o MP mude de ideias em relação à pessoa.
VISÃO | 20.06-2008
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