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Fazer pontaria aos juízes
30-Jan-2008
ImageAs reformas na justiça dependem muito da operacionalidade e da credibilidade do Conselho Superior da Magistratura.As garantias da independência do poder judicial e da separação de poderes são quebradas quando menos se espera - às vezes subtil manipulação política, às vezes desatenção.
Uma proposta do Governo que a Assembleia da República (AR), em breve, irá discutir e que visa alterar o conselho permanente do Conselho Superior da Magistratura (CSM), contém uma bala de fragmentação virada contra os juizes. Trata-se de afastar vogais eleitos pelos juÍzes das funções em exclusivo no CSM. Se o Parlamento aceitar dispará-la, o equilíbrio na composição do CSM rompe-se pela parede mestra.

Integram o CSM sete juizes eleitos pelos seus pares, duas individualidades designadas pelo Presidente da República (PR) e sete eleitas pela AR, para além do presidente do Supremo Tribunal de justiça. Todos eles podem exercer funções em tempo integral, por decisão do plenário. Mas, desde há muito, só estão a tempo inteiro, ou quase, os sete juizes. Nunca um vogal designado pela AR ou pelo PR aceitou funções em exclusividade. O que é criticado, já que fere a lógica plural no CSM que a Constituição prevê. Quem está a tempo inteiro recolhe informação, elabora-a e produz iniciativas de gestão e projectos de deliberação. Os outros não o podem fazer, não têm tempo. Por isso o "pacto para ajustiça"do PS e do PSD afirmou (bem, quanto a mim) criar condições para a presença permanente de membros não magistrados no CSM.
 
Os vogais em tempo integral são por vezes chamados de "vogais permanentes", mas não é por isso que passam a integrar o conselho permanente. Só por confusão se pode pensar que é. O conselho permanente, ao contrário do que sugere a designação, não é um órgão de gestão corrente para os assuntos que não possam aguardar o plenário do CSM. Não é assim que funciona, nem é assim que está na lei. Reúne-se ordinariamente uma vez por mês, tal como o plenário, e funciona sobretudo como comissão especializada nas matérias de avaliação dos juizes e de disciplina, deliberando aqui em "primeira instância" - cabendo reclamação para o plenário.
 
A confusão, porém, é feita na proposta do Governo. Anuncia melhores condições de intervenção para os eleitos pela AR. mas para isso propõe que só os vogais do conselho permanente tenham exclusividade de funções. Sem que uma coisa tenha a ver com a outra. O resultado é absurdo. Em lugar de reforçar o CSM com mais vogais a tempo integral, diminui tendencialmente o seu número. Contra o razoável, reduz o número de juízes em exclusividade (de sete para quatro, sem que os outros três tenham sequer redução das funções de origem). Ao mesmo tempo permite que os vogais renunciem a essa exclusividade (como acontecerá, tendo em conta o passado, com os nomeados pela AR e pelo PR).
 
A paridade entre os juizes eleitos pelos pares e os membros "laicos" quebra-se em desfavor dos juizes. Teremos em exclusividade cinco vogais nomeados pelo poder politico, contra apenas quatro juizes na mesma situação. O que revoluciona negativamente o CSM, incompreensível com as maiores funções a que os seus membros são chamados, em 2008, nas estruturas criadas no novo regime de organização e funcionamento do CSM, agora com autonomia administrativa e financeira, e com os anunciados mapa judiciário e novo regime de administração e gestão dos tribunais. Ou seja, se o objectivo era criar condições para a permanência de membros "laicos" no CSM, o resultado é, ao contrário, o de destruir as condições para a permanência de membros juizes.
 
O que abre caminho para que as críticas acerca da politização crescente do CSM ganhem consistência e o tomem, a prazo, num órgão não conliável, enquanto garante de independência dos juízes, sem a aceitação indispensável.
 
Trata-se, no mínimo, duma estranha alteração ao estatuto dos juizes, num tempo em que fazer-lhes pontaria, como disse Umberto Eco, serve quem os quer inofensivos. Espero, sinceramente, que a AR e o Governo corrijam a anomalia. As reformas na justiça dependem muito da operacionalidade e da credibilidade do CSM.
 
LUÍS AZEVEDO MENDES - JUIZ DESEMBARGADOR E VICE-PRESIDENTE DA ASJP
PÚBLICO | 30.01.2008 
Comentarios (18)add
... : Rosa dos Remédios
É evidente que esta medida é para ir para a frente. Pretende-se que os juizes sejam dóceis e se não vergam a bem devem vergar através da entidade que os dirige.
Viva a democracia deste santo país...
30.Janeiro.2008
... : Sanscoulottes-en-Bastille
indo para a frente tal:
Caso n voltem atrás em 5 dias ---demissão em bloco dos Srs. Presidentes da Relação e Supremo.
Após
---demissão em bloco de todos os juízes.
30.Janeiro.2008
... : trabalhador do lixo
Não. Já não vai para a frente, porque já entrámos na fase da pacificação. O da Saúde já foi. Ora o Sr Ministro da Justiça quer completar a legislatura, portanto, tudo sossegadinho até Outubro de 2009. Mas a partir daí, não prometo nada. O Dr Alberto Costa fará mais uns estragozitos. Como dizia o outro, aliviem até lá e habituem-se.
30.Janeiro.2008
... : Tony
Sanscoulottes-en-Bastille, os juízes não são irresponsáveis para deixar o último reduto do estado de direito democrático entregue à política. A diferença faz-se em manter-se no posto, defendendo os cidadãos e não na demissão, abrindo o flanco à ditadura.
30.Janeiro.2008
... : cgf
Meus caros Juízes.
A actual credibilidade do CSM é quase nula.
E não digam que discordam porque eu ouço os comentários de advogados, funcionários, público em geral, e neste último ano até de magistrados (uns em funções e outros já jubilados).
Talvez seja devido à actual crise da justiça que leve a um ruído que acabe por afundar todos nós que trabalhamos na e para a justiça. "Em casa que não há pão..."
Assim, é mister tomarmos como dado adquirido a nessecidade de mudança no poder disciplinar das magistraturas, e, do reforço da legitimidade democrática dos juízes. Já agora, aproveitar a discussão para explicar à população estas ideias, que já tem alguns anos, da necessidade de separação dos poderes de soberania, e, da independência dos juízes.
30.Janeiro.2008
... : pensador
O propósito da medida é muito bem pensado. Muito além do núcleo deste governo. Tem raízes no PS e no PSD. Não vai ser fácil impedir que vá para a frente.... Acordemos todos - e já!

30.Janeiro.2008
... : Conio
Discordo que a actual credibilidade do CSM seja quase nula, mas apenas porque há muitos anos que assim é (ando cá para mais de vinte e as diferenças que tenho visto são poucas, devo dizer).
Que seja necessário fazer algo para mudar o estado das coisas, concordo. Agora o que o Sr Costa anuncia é que também me parece mal, muito mal mesmo. Até porque os juízes já são minoria no CSM e nunca consegui perceber porque os seus mebros não juízes tenham que ser advogados. Direi mesmo: deverão/poderão ser?
30.Janeiro.2008
... : SSS
O problema principal é a reduzida visibilidade, "força" e tempo do mandato do Presidente do STJ.
O Presidente do STJ deveria ter um ou 2 mandatos de 5 anos, pelo menos.

Sem um Presidente do STJ CONHECIDO e PROFUNDO (mas não caladinho), o bloco centralinho continuará a fazer-desfazer!
30.Janeiro.2008
... : Sanscoulottes-en-Bastille
Tony:
Pegam em shotguns e becas? Ou com códigos pesados sem notas e com nomes (só neste país de coimbrinhas...toscos) e mandam da bancada da AR às cabeças de vidro dos divinos eleitos?
*
Com q instrumentos ?
Concretize...sejemos democratas, q nada tem a ver c a etica "republicana".
*
O Juiz diz o Direito (jus dicere), não violenta o Direito...
Ora, a demissão significa que o Direito quanto ao emitente encontra-se viciado...daí n ter razão de ser a existencia como tal.
*



31.Janeiro.2008
... : Sanscoulottes-en-Bastille
Pensador:
Exacto, a demissao é esse acordar...
31.Janeiro.2008
... : Mendes de Bragança
Sou juiz desde 1981 e sempre ouvi os mesmos ressabiados a dizer mal do CSM, das inspecções e a criticar os juízes que trabalham muito. São uns insatisfeitos, uns sabedores arrogantes e alguns deles tudo fizeram para ter assento no CSM e nunca conseguiram.
Estar com o CSM, órgão máximo de defesa da independência do poder judicial e de dignificação da classe, é obrigação de todos os juízes.
31.Janeiro.2008
... : Anónimo
O artigo em análise é do Vice-Presidente da ASJP enquanto tal, ou vincula a própria ASJP? Já agora pergunto: o que pensa fazer a A(S)JP? O silêncio sobre esta e outras matérias começa a ser ensurdecedor...!
31.Janeiro.2008
... : MMg
Penso que, o modelo do juiz fraco e "funcionalizado" é o que está na cabeça destes políticos, e até no espiríto dos portugueses...
01.Fevereiro.2008
... : Mendes de Bragança
O artigo só vinvula o seu autor não a ASJP.
Esta associação é muito mansinha com o poder político actual.
Esta associação anda a reboque dos acontecimentos; parecem atordoados com tudo. O que os deslumbra são as reuniões, os chás, os cafés com o ministro.
Gastam a sola dos sapatos nos corredores do poder e... parece que agora vão à Austrália. É verdade? Fazer o quê?
01.Fevereiro.2008
... : AAA
De facto, também me parece que esta A(S)JP, ou melhor, a sua Direcção Nacional, anda muito mansinha com o poder político actual, muito embora eu desconheça se tomam chás ou cafés com o Sr. Ministro. Mas se tomam, na minha perspectiva fazem mal, pois como se diz na minha terra "quem não se sente não é filho de boa gente". Mas já nada me espanta com o que se vai passando. Ou com o que se não passa.
01.Fevereiro.2008
... : zangadíssimo
Alguns dos comentadores anteriores, para além de distraídos (?) com o que se passa, preferem dizer mal da ASJP.
Têm lido os comunicados e pareceres da ASJP? Claro que não...
Já repararam que o vice-presidente da ASJP é ...vice-presidente da ASJP? Claro que não...
Em vez de acordarem e ajudarem à sensibilização para uma questão manifestamente grave, como faz felizmente o In Verbis, comprazem-se aqui em dizer mal do vizinho, do colega, até de quem os considera amigos... No intriguismo, enfim!...
Acho que o administrador deste sítio, cujo elevado espírito de serviço é um exemplo, não merece o que faqui fazem.
Assim não, meus amigos!



01.Fevereiro.2008
... : Mendes de Bragança
Não é dizer mal da associação. É constatar a realidade. Só não vê quem não quer.
Pela linguagem utilizada, o zangadíssimo, parece um membro da associação que por aqui costumava andar e que revelava não ter a mínima capacidade para suportar uma simples crítica.
Ficava zangadíssimo, todo eriçado quando alguém beliscava a sua associação.
Quem será este zangadíssimo?
02.Fevereiro.2008
... : Administrador In Verbis
"Incontinente", o seu comentário não é publicado, em virtude de não ter qualquer relação directa com o item publicado e, por outro lado, não ser conveniente continuar a alimentar comentários que visem responder a outros que sejam "contra" ou "a favor" da ASJP, embora nos penitenciemos que, à partida, estes também não deviam ter sido publicados por não se relacionarem com o item publicado. Mas uma vez publicados e com respostas, já não faz sentido removê-los.
Agradeço a sua compreensão e a dos demais comentadores.

02.Fevereiro.2008
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