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Vivemos
uma curiosa situação com duas vertentes simétricas e opostas: se, por
um lado, os nossos responsáveis políticos celebram, eufóricos, em
corporação autista, os triunfos obtidos - do acordo sobre o Tratado de
Lisboa aos 3% de défice orçamental -, por outro, arrasta-se uma
população neutralizada, anestesiada, pronta a obedecer a qualquer
ditame do poder. O povo está triste e desmotivado, e o Executivo
alegre. E porque é que o Governo está tão contente com uma população
tão passiva e melancólica? Porque nunca foi tão fácil governar.
Primeiro,
as «propostas» do governo tornaram-se imperativos categóricos. Quer
dizer, puramente formais, mas instituindo uma obrigatoriedade de
princípio, incontestável por direito a priori de quem manda, e
incontestada por inércia dos mandados. Os imperativos não ditam
conteúdos. A sua substância, o seu sentido, a sua alma - igual a zero.
Alguém conhece as ideias mestras sobre Educação e Ensino que regem a
política actual? Sobre a ética da relação professor-aluno,
médico-doente, administradores-administrados?
No entanto, as
escolas, as universidades, os serviços de saúde estão em plena
revolução: chovem toneladas de regulamentos, ordenações, directivas que
obrigam os funcionários a ler centenas se não milhares de «manuais de
instruções», novos estatutos, novos regras para a avaliação dos alunos,
dos professores, dos funcionários -virão depois os médicos, os agentes
da justiça e da polícia, etc. Avaliação absurda, minuciosíssima, muitas
vezes contraditória, facilitista para uns e paralisante para outros.
Que não deixa margem para desvios, erros, faltas, horas livres para se
reciclar, trabalhar para adquirir novos conhecimentos, avançar na
preparação profissional.
AS INICIATIVAS QUE VISAM SIMPLIFICAR (para bem gerir
e «modernizar») multiplicam o número das complicações burocráticas
existentes. Ao tirar a iniciativa, ao querer regulamentar até ao ínfimo
pormenor a actividade dos funcionários, transformam-nos em máquinas. E
ser robot cansa. Como cansam as reuniões e mais reuniões, tantas vezes
inúteis mas obrigatórias. As pessoas andam esgotadas.
Eis como o
autoritarismo, como estilo de governação pessoal, se transforma em rede
impessoal de controlo dos serviços e dos homens: ao contaminar os seus
conceptores, o vírus do autoritarismo torna autoritários os próprios
serviços e avaliações. Autoritarismo e injustiça da rede e dos que
cumprem rigidamente (quer dizer «como deve ser», seguindo estritamente
a lei) os seus imperativos. Com tudo isto, desenvolvem-se as
rivalidades, as invejas, os golpes baixos, a mesquinhez, à medida da
pequenez das disposições que se impõem - o velho ambiente retoma os
seus direitos na nova sociedade tecnológica do conhecimento.
O GOVERNO CONSTRUIU assim uma poderosa máquina de
produção de subserviência e controlo das subjectividades desmotivadas.
A nova lei da subjectivação formula-se assim: menos dinheiro e mais
funcionalidade (gestão do défice oblige) em troca de mais obediência e
menos qualidade de vida (biopoder do Estado).
Em segundo lugar, é
fácil governar por incapacidade, iliteracia histórica, ignorância
sedimentada dos governados. Governar abaixo dos direitos de cidadania.
Desprezando manifestações de rua, silenciando escândalos e injustiças,
desde o novo Estatuto do Aluno a certos artigos do novo Código Penal
sobre crimes sexuais, etc, etc. O rol dos silêncios vai continuar para
induzir mais silêncio e mais inércia no espírito dos portugueses. E
mais facilidade em governar.
JOSÉ GIL | VISÃO | 01.11.2007
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