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02-Nov-2007

É fácil governar abaixo dos direitos de cidadania. Desprezando manifestações de rua, silenciando escândalos e injustiças.

Vivemos uma curiosa situação com duas vertentes simétricas e opostas: se, por um lado, os nossos responsáveis políticos celebram, eufóricos, em corporação autista, os triunfos obtidos - do acordo sobre o Tratado de Lisboa aos 3% de défice orçamental -, por outro, arrasta-se uma população neutralizada, anestesiada, pronta a obedecer a qualquer ditame do poder. O povo está triste e desmotivado, e o Executivo alegre. E porque é que o Governo está tão contente com uma população tão passiva e melancólica? Porque nunca foi tão fácil governar.
Primeiro, as «propostas» do governo tornaram-se imperativos categóricos. Quer dizer, puramente formais, mas instituindo uma obrigatoriedade de princípio, incontestável por direito a priori de quem manda, e incontestada por inércia dos mandados. Os imperativos não ditam conteúdos. A sua substância, o seu sentido, a sua alma - igual a zero. Alguém conhece as ideias mestras sobre Educação e Ensino que regem a política actual? Sobre a ética da relação professor-aluno, médico-doente, administradores-administrados?
No entanto, as escolas, as universidades, os serviços de saúde estão em plena revolução: chovem toneladas de regulamentos, ordenações, directivas que obrigam os funcionários a ler centenas se não milhares de «manuais de instruções», novos estatutos, novos regras para a avaliação dos alunos, dos professores, dos funcionários -virão depois os médicos, os agentes da justiça e da polícia, etc. Avaliação absurda, minuciosíssima, muitas vezes contraditória, facilitista para uns e paralisante para outros. Que não deixa margem para desvios, erros, faltas, horas livres para se reciclar, trabalhar para adquirir novos conhecimentos, avançar na preparação profissional.

AS INICIATIVAS QUE VISAM SIMPLIFICAR (para bem gerir e «modernizar») multiplicam o número das complicações burocráticas existentes. Ao tirar a iniciativa, ao querer regulamentar até ao ínfimo pormenor a actividade dos funcionários, transformam-nos em máquinas. E ser robot cansa. Como cansam as reuniões e mais reuniões, tantas vezes inúteis mas obrigatórias. As pessoas andam esgotadas.
Eis como o autoritarismo, como estilo de governação pessoal, se transforma em rede impessoal de controlo dos serviços e dos homens: ao contaminar os seus conceptores, o vírus do autoritarismo torna autoritários os próprios serviços e avaliações. Autoritarismo e injustiça da rede e dos que cumprem rigidamente (quer dizer «como deve ser», seguindo estritamente a lei) os seus imperativos. Com tudo isto, desenvolvem-se as rivalidades, as invejas, os golpes baixos, a mesquinhez, à medida da pequenez das disposições que se impõem - o velho ambiente retoma os seus direitos na nova sociedade tecnológica do conhecimento.

O GOVERNO CONSTRUIU assim uma poderosa máquina de produção de subserviência e controlo das subjectividades desmotivadas. A nova lei da subjectivação formula-se assim: menos dinheiro e mais funcionalidade (gestão do défice oblige) em troca de mais obediência e menos qualidade de vida (biopoder do Estado).
Em segundo lugar, é fácil governar por incapacidade, iliteracia histórica, ignorância sedimentada dos governados. Governar abaixo dos direitos de cidadania. Desprezando manifestações de rua, silenciando escândalos e injustiças, desde o novo Estatuto do Aluno a certos artigos do novo Código Penal sobre crimes sexuais, etc, etc. O rol dos silêncios vai continuar para induzir mais silêncio e mais inércia no espírito dos portugueses. E mais facilidade em governar.

JOSÉ GIL | VISÃO | 01.11.2007 

 
Comentarios (3)add
... : Ortega-em-MonteReal
Concorda-se com a análise.
Mas não é só aqui...é na União Europeia.
Porquê?
Ainda a Razão Iluminista a dar o mote:
-o formalismo do diálogo;
-o nominalismo da realidade política;
-a era dos direitos por definição heterónoma;
-o imediatismo do tempo.
Falta:
-sedimentação;
-substância;
-serenidade.
Falta a areté helénica. Virtude. O eu de Descartes teve as suas virtudes, mas o eu pouco presta, cansa e causa náusea.A acção do Homem Integral (vir-homem) criativo, que inventa, qual dever adâmico...Falta a memória, a tradição, a cultura do tempo eterno, da contradição existencial de uns-quantos-com-rumo-à-morte.
Falta élan vital, que percorre uma comunidade política virtuosa em que seja a síntese da realização humana conhecida: na monarquia, a honra, na república, a tolerância, ou na tirania o medo. Como elas são. Sempre foram. E agora não são: a honra acabou, a tolerância é um conjunto de dislates hipócritas e o medo reina em democracia.
04.Novembro.2007
... : xico
A burocracia tradicional está a ser substituída pela burocracia informática, mas mantém a sua característica essencial de refúgio e esconderijo da incompetência e dos incompetentes, escondendo nas suas rotinas as razões de ser dos comportamentos e permitindo a perpectuação, por mera inércia, de actos e factos há muito despropositados e inúteis - ou até nocivos.
Ao mesmo tempo, a burocracia encadeia uma série de actos impessoais e automáticos em que se diluem as responsabilidades e que tornam quase impossível responsabilizar os verdadeiros autores de cada acto, gerando uma sensação de impunidade nos burocratas e uma sensação de impotência nas vítimas da burocracia.
Em todas as áreas de acção da administração pública, deveriam questionar-se inúmeras práticas que se mantêm apenas porque ninguém se interroga sobre a sua razão de ser.
Quer quiser ver, verá que por trás de um sistema de normas legais exemplares (e até invejadas no estrangeiro) existe uma realidade que pouco tem a ver com esse sistema.
E não só por inércia da burocracia. Também, em muitos casos, a escassez de meios materiais e humanos impede que se ponha em execução soluções legais magníficas.
05.Novembro.2007
... : anonimo (nen tanto ao céu, nem tando a terra)
Uma vez coloque em ma tese depois de vários termos o ETC.
Fui chamada a atenção: "O QUE É ETC, ETC, NÃO QUER DIZER NADA, O QUE QUER DIZER COM O SEU ETC?
Respondi: USO ETC. QUANDO O QUE TENHO PARA ESCREVER É DE UMA INFINIDADE DE TERMOS, SITUAÇÕES E POSSIBILIDADES, QUE ESGORARIA SEU TEMPO, MEU TEMPO E A IMAGINAÇÃO COLETIVA

06.Novembro.2007
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