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O programa Prós e Contras, emitido pela RTP no dia 12 de Fevereiro, foi muito interessante. Como é habitual em todos os programas de natureza jornalística, misturou questões extremamente relevantes com minudências, mas isso já faz parte das regras do jogo. Mas onde é que está o drama ? É que está a ser preparado o fim da independência dos Juízes.
CUIDADO
Artigo de Opinião
de Dr. Afonso Cabral da Andrade - Juiz de Direito
O programa Prós e Contras, emitido pela RTP no dia 12 de Fevereiro, foi muito interessante. Como é habitual em todos os programas de natureza jornalística, misturou questões extremamente relevantes com minudências, mas isso já faz parte das regras do jogo.
Como eu não sou Jornalista mas sim Juíz, vou ignorar o "magno" problema da taxa de justiça devida pelo recurso de habeas corpus, bem como o conteúdo do direito de reserva que a lei impõe aos Juízes, para ir já ao que me parece essencial.
O programa em causa destinava-se a pôr em causa o Conselho Superior da Magistratura.
A forma encontrada para o fazer foi, é preciso reconhecê-lo, inteligente.
Aproveitando o facto de alguns Juízes não saberem manter a necessária reserva e estarem sempre a emitir opiniões sobre tudo e sobre todos, obrigando por vezes o CSM a intervir no exercício do seu poder-dever de natureza disciplinar, estava encontrado o terreno perfeito para fazer passar uma péssima imagem daquele Órgão do Estado. Bastou invocar o princípio da liberdade de expressão, que numa jovem e verde democracia é sempre hipervalorizado, para obter logo a simpatia do cidadão desconhecedor destas matérias.
A partir daí foi um passeio no parque.
Deu-se voz a Juízes que já foram disciplinarmente punidos ou estão em vias de o ser (não sei se bem ou se mal), para logo, com a direcção oportuna da moderadora, ter o debate recheado de suspeições e acusações que colhem em cheio na opinião pública, tais como o tenebroso "corporativismo", a existência de abusos de poder que permite que uns sejam punidos e outros promovidos, a natural desconfiança e mesmo hostilidade para com os Juízes, apontados por alguns idiotas úteis como privilegiados, etc. E aí está o resultado desejado: passar a ideia que o CSM é um órgão fechado e corporativo, controlado por Juízes, que querem fazer toda a espécie de malfeitorias, e que ainda para mais tem tiques fascistas, pois persegue Juízes não alinhados e que exercem o seu sagrado direito a escrever artigos de opinião para os jornais a criticar decisões de outros Juízes.
Os suspeitos de terem violado o Estatuto dos Magistrados Judiciais foram convertidos em heróis e o CSM, que tem a obrigação de averiguar a existência de violações ao Estatuto dos Magistrados Judiciais e punir os responsáveis, foi convertido em réu e sumariamente julgado e condenado.
É certo que o CSM não é um órgão perfeito, e não tenho dúvidas que a péssima imagem que hoje têm quer o sistema judicial quer os Juízes enquanto classe deriva em grande parte da sua actuação.
Também não me custa acreditar que alguns dos Juízes que apareceram a denunciar abusos de poder inaceitáveis do CSM possam ter razão.
Então onde é que está o drama ?
É que está a ser preparado o fim da independência dos Juízes.
Podem-se fazer ao CSM inúmeras críticas, e eu próprio as tenho feito. Mas apesar de todos os seus defeitos, o Conselho Superior da Magistratura tal como está actualmente definido na Constituição, com uma composição mais ou menos equilibrada de juízes e pessoas nomeadas pelo poder político ainda garante a independência dos Tribunais.
E, meus caros concidadãos, se têm a paciência de estar a ler estas linhas, não tenham dúvidas: o que está a ser preparado pelos principais partidos políticos é uma alteração Constitucional que visa modificar a composição do CSM de forma a diminuir ou mesmo abolir a presença de Juízes de carreira, colocando o Conselho Superior da Magistratura totalmente controlado pelo poder político.
E quando isso acontecer, nada será como dantes.
Não quer isto dizer que qualquer cidadão que tenha um processo em Tribunal fique subitamente desprotegido.
Um processo entre o sr. José da Silva e a sra. Maria das Dores, sobre uma questão de condomínio, ou um divórcio litigioso entre cônjuges desavindos residentes em Freamunde, ou uma acção de despejo em Castro Daire, continuarão a ser julgados com a mesma independência com que antes o eram.
Aliás, a esmagadora maioria dos processos continuarão a ser julgados dessa forma.
A diferença vai-se fazer sentir quando um alto ou até médio dirigente político / partidário cair nas malhas da Justiça. Ou num litígio que oponha um cidadão ou um grupo de cidadãos ao Estado - Administração. Ou quando um jornalista isento incomodar o poder político do momento e for perseguido criminalmente. Ou quando um grande caso de corrupção for levado à barra do Tribunal.
Nestas situações melindrosas, ou noutras semelhantes, pergunto, quem se sentirá à vontade sabendo que o Juíz que vai julgar esses litígios está dependente, na sua classificação, colocação profissional, promoção, ou perseguição disciplinar, de um órgão controlado exclusivamente ou esmagadoramente pelo poder político, leia-se, pelos partidos políticos ?
E, olhando de outro prisma, qual o Juíz que se sentirá totalmente à vontade para, por exemplo, julgar um político importante com a isenção e independência que os cidadãos exigem, sabendo que o órgão do qual depende a sua classificação e a sua ascensão na carreira está controlado por companheiros ou simpatizantes, ou opositores e inimigos políticos da pessoa que ele vai julgar ?
Ou que Juíz se sentirá totalmente à vontade para julgar um jornalista que incomodou uma alta personalidade do mundo da política, e que por isso se viu perseguido criminalmente por uma acusação de difamação, ou abuso de liberdade de imprensa ?
E pode esse jornalista ter a garantia que será julgado por um Magistrado totalmente isento ?
Querem os meus amigos viver num País em que o poder político tem a possibilidade institucional de controlar indirectamente e de forma velada os Juízes ?
Quem acredita que nos momentos decisivos esse poder não será utilizado ?
Quem acredita que estes perigos são pura invenção corporativa ?
Quem se sente à vontade perante um poder judicial cuja independência e isenção ficará assente única e exclusivamente na heroicidade individual de cada um dos seus Juízes ?
O Poder Político está a colocar as suas peças e a preparar o cheque-mate.
Está a fazê-lo debaixo dos aplausos da opinião pública.
Mas cuidado. Este Rei não é um rei corporativo. Este Rei é de todos os cidadãos.
Uma palavra de especial apreço para o Dr. Raúl Esteves, que nas poucas mas certeiras intervenções que teve, demonstrou ter percebido perfeitamente o que estava em causa.
E o meu lamento para quem não percebeu.
Afonso Cabral de Andrade
Juíz de Direito
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