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Da crise da Justiça - a legística criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
28-Jan-2008
Erro comum, o de acreditar que os problemas sociais tem uma só ou principal causa e que todas as dificuldades se resolvem removendo por decreto essa causa. O primeiro problema da Justiça em Portugal são as leis. São muitas e muito más e muito inúteis. Legisla-se demais e legisla-se mal. Do mesmo passo, por simples decorrência lógica, o intérprete e aplicador da lei viu-se funcionalizado e reduzido à condição de mero fiscal da realidade, sem outra função que não a de decretar a natureza irreal ou punível de uma pretensão não exaustivamente descrita numa norma. Acabou a Justiça e passou a valer apneas a selva e a lei do que grita mais alto. Não vamos sair daí, enquanto o legislador não parar de legislar.

 



Erro comum, [...] o de acreditar que os problemas sociais tem uma só ou principal causa e que todas as dificuldades se resolvem removendo por decreto essa causa.
 
À espera há uma hora por uma reunião marcada para as três da tarde, dou por mim a pensar naqueles tolinhos que atribuem a generalidade dos acidentes de viação ao excesso de velocidade e propugnam por uma limitação cada vez mais acentuda dos respectivos limites. Sem terem em conta o verdadeiro problema, acredidatam que o mesmo se resolve por via legislativa, estabelecendo os 40 Km/h. como velocidade máxima permitida nas auto-estradas. Acabar-se-iam os acidentes ou, pelo menos, as suas consequências mais agravosas - acreditam.
 
Evidentemente, não acabavam. Pobrezinhos de espírito, os defensores de tais destrambalhedas soluções legislativas não se apercebem que, nas auto-estradas, a generalidade das pessoas circula a 140 ou 150 à hora (ou mais). Em qualquer caso, independentemente do limite legal. Se o limite legal de velocidade baixar de 120 para 40, as pessoas continuarão a circular a 140 ou 150. A única real diferença estará em que deixarão de violar a lei por uma margem de 20 ou 30 Km/h, para passar a violá-la por uma margem de 100 ou 110 Km/h.
 
Para além, claro, do prazer que proporciona a quem a aprecia, velocidade excessiva ocorre essencialmente por dois motivos: porque os automóveis têm a capacidade de andar mais depressa do que os limites de velocidade estabelecidos e porque a vida social não se compadece com o respeito pelos limites estabelecidos.
 
Só se anda depressa, porque as máquinas permitem que se ande depressa. Um legislador honesto que quisesse, de facto, combater o excesso de velocidade, não estabelecia limites aos condutores, estabelecia limites aos fabricantes e impunha os limitadores de velocidade como condição de homologação de veículos.
 
Deixando, porém, de lado esta manifestação de legislativa hipocrisia, centremo-nos na questão social: tenho uma reunião às três da tarde a trinta quilómetros do Porto. Deverá demorar cerca de uma hora. Às quatro, estarei de regresso e, tendo em conta o tempo normal para percorrer os 30 quilómetros da volta e admitindo uma margem de segurança para alguma coisa que corra mal, marco outra entrevista para as cinco no escritório. Afinal, a reunião das três começa às quatro e, às cinco, quando já devia estar no Porto, estou a sair dela. Como posso a seguir respeitar os limites de velocidade?
 
Não posso. E não há nenhuma lei que possa alterar este facto. Combater o excesso de velocidade - se é que isso deve interessar a alguém - é combater as suas causas, o que postula, entre milhares de outras coisas, perceber por que razão não somos pontuais. Tarefa a tender para o inalcançável domínio da infinitude e do caos.
 
Aceito perder-me em todo este intróito, porque ele ilustra bem o problema da Justiça e da crise que vai por ela.
 
Volta e meia surgem iluminados a dar conta das causas profundas da crise da Justiça: ora são os juízes que são uns calaceiros e acumulam processos em cima das secretárias; ora são os advogados que a nenhuma manobra dilatória se furtam, para entreter as acções que têm entre mãos; ora é o mapa judicial que está desactualizado; ora é o dinheiro que não se gasta na reforma do sistema; ora...
 
Nenhuma explicação unilateral terá nunca o poder de explicar nada. Os problemas da Justiça são múltiplos e complexos, tendencialmente infinitos e inalcançáveis.
 
Vale a pena, apesar de tudo, determo-nos em alguns porque, se o sistema não é, de todo, reformável, pode, ao menos, melhorar substancialmente. Vejamos:
 
O primeiro problema da Justiça em Portugal são as leis. São muitas e muito más e muito inúteis. Legisla-se demais e legisla-se mal.
 
A boa Justiça é feita com poucas e boas leis, interpretadas e aplicadas por bons juristas que saibam com razão, bom senso e sentido de equidade subsumir os factos da vida à natureza geral e abstracta das normas.
 
Desgraçadamente, eliminado, por superlativo e supérfluo, o estudo do direito romano das escolas jurídicas, substituído pelas funcionais burocracias de gabinete, a tendência (europeia, mais do que portuguesa, que se limitou, como sempre, a importar a moda) foi a de querer abarcar na previsão legal os mais ínfimos aspectos da vida, como se toda a realidade, todo o universo de situações juridicamente relevantes, tivesse que estar concretamente contido numa hipótese normativa. Do modo como devem ser fabricados os isqueiros, às indicações que obrigatoriamente devem conter os rótulos das embalagens de milho para pombos, tudo, rigorosamente tudo, passou a ser objecto de uma lei, de uma directiva, de um regulamento.
 
Do mesmo passo, por simples decorrência lógica, o intérprete e aplicador da lei viu-se funcionalizado e reduzido à condição de mero fiscal da realidade, sem outra função que não a de decretar a natureza irreal ou punível de uma pretensão não exaustivamente descrita numa norma.
Eficácia no manuseamento de bases de dados gigantescas, é tudo o que hoje se pede ao juiz. Não, bom senso, inteligência ou sentido de Justiça.
 
Mas, apesar de todos os esforços, a realidade (sobretudo nos imaginosos países mediterrânicos do Sul) teima em não caber toda na lei. Por isso, o legislador, aflito, tentando ser maior que o mundo, legisla cada vez mais. Tapa cada lacuna do sistema com uma nova lei; e com uma nova lei tapa a nova lacuna aberta pela lei anterior, destinada a tapar uma lacuna.
 
O sistema embala. E o legislador legisla... e legisla... e legisla...não à medida dos problemas, mas à medida dos factos e da ordem do dia na comunicação social. Tenta-se deter o mundo por decreto-lei. Como se tentam deter os carros com proibições de excessos de velocidade. Como se a realidade e a velocidade pudessem ser sustidas por ordem do poder legislativo.
 
Regula-se o segredo de Justiça, não por causa do seu sentido ou função, mas por causa do processo Casa Pia; altera-se o regime de supervisão da actividade bancária, não porque alguém tenha pensado melhor nele, mas porque houve um escândalo no BCP; reformula-se a lei de protecção de menores, não para criar uma melhor, mas porque uns míudos assaltaram numas bombas de gasolina a actriz Lídia Franco, do mundo dos famosos.
 
Acaba a lei e começa a medida avulsa. Acaba a norma geral e abstracta e começa a decisão individual e concreta, à medida da gritaria e do poder de cada um fazer ouvir própria voz: um ministro suspende e desautoriza em directo na televisão a decisão da comissão que negou a reforma a uma doente; abre-se um inquérito e altera-se um sistema de urgências, porque passa nos telejornais o registo de conversas telefónicos surrealistas entre agentes do 112 e os bombeiros de Alijó...
 
Tudo é incerto e mera função do noticiário do dia.
 
Não há trabalhos preparatórios, não há estudos, não há ensaios nem testes às consequências da entrada em vigor de uma lei nova. Há leis-medida, feitas à pressa e a martelo, que o próprio legislador assume no respectivo preâmbulo deverem ser imediatamente revistas, confessando que as criou sem pensar e apenas para acudir a uma moda ou a um caso concreto do momento.
 
Neste contexto, qualquer esforço de interpretação é inútil. Não há nem pode haver uniformização de critérios aplicativos. Diante de expressões legislativas equívocas, sem lógica, nem coerência, nem gramática, cada um faz o que quer e como quer e quem necessita tem que submeter-se ao poder de facto de quem decide.
 
Por todo o lado, quando hoje se pergunta como é que se faz este registo, ou se formula este pedido, ou se averigua e requer este direito, a resposta é invariavelmente a mesma: «ai isso, cada um faz de forma diferente; o melhor é perguntar como é que eles fazem lá na Conservatória, na Repartição, ou no Tribunal.»
 
Acabou a Justiça e passou a valer apneas a selva e a lei do que grita mais alto. Não vamos sair daí, enquanto o legislador não parar de legislar.
 

 

Comentarios (4)add
... : Rosa dos Remédios
Apoio na íntegra o presente post. Até que enfim que alguém colocou o dedo na ferida: sem ovos (leia-se, leis decentes) não se fazem omeletes.
Mas o legislador é de tal forma arrogante que não reconhece a sua incapacidade de legislar de modo duradouro e sem estar sujeito às conveniências para os seus camaradas de partido. As alterações ao Código Penal e ao Código de Processo Penal são apenas um exemplo . E não foram a pensar no cidadão comum, mas em algumas aventesmas que, até se entalarem, se julgavam acima da lei...
29.Janeiro.2008
... : Barracuda
O mal é velho mas tende a agravar-se. Bem haja o autor que pelo menos chama os bois pelo nome. Mas o nosso rico País é assim. Já disse várias vezes que somos um acampamento de ciganos, não por desdém pelos nómadas, mas pelo provisório das suas paragens. Portugal não existe. Só existe o território que ocupamos e não merecemos. Tudo o mais é efémero e incongruente. Em termos de experiência pessoal, acrescento que um dia fui procurado por um senhor director-geral que me propunha uma lei orgânica para o ministério respectivo. Já temos, disse. Mas eu, bla bla, sou conhecedor experimentado..., e deixou-me o seu exercício sobre a secretária. Prometi dar uma vista de olhos, o que fiz. Para aquele exercício o Portugal real não existia, o programa do governo para o sector era ignorado e os meios financeiros a mobilizar pormenor de somenos. De volta perguntei ao autor do projecto se tinha tido em conta esta e outras realidades. Respondeu frontalmente que não nem devia pois a lei orgânica era um trabalho abstractamente bem feito e o que o governo tinha a fazer era dar-lhe conteúdo! Temos gente assim, super competente (ou nem por isso) que, à míngua de fazer avançar a realidade que somos, nos manieta, nos inventa, nos manipula e nos asfixia. Bom seria que esta governo, que quer, pode e manda, decidisse cumprir o seu programa, com que diz ter ganho as eleições, apenas a revogar leis e a fazer com que e a dar meios para se cumprirem as poucas e boas que restassem e fossem fato à nossa medida. E depois, o discurso diário na TV ficava mais complicado, não é? Posso garantir que não somos viáveis em autonomia. Entre nós, tudo é efémero e fantasia.
29.Janeiro.2008
... : Navalinho-na-Embra
Barracuda: da próxima síntese, troco os olhos c os seus posts...
Gostei do efémero...e da fantasia, o mais importante, acho eu.
31.Janeiro.2008
... : Alberto Ruço
Concordo que o frenesim legislativo é uma das causas da crise da justiça ( Que crise? Ouço falar de crise há mais de 20 anos! Será que existe ou é uma invenção).
É fácil de verificar.
As sucessivas alterações substantivas e processuais geram um sentimento de insegurança sobre a lei que está em vigor e sobre os procedimentos processuais a adoptar.
O aplicador do direito sente-se inseguro e parece, a cada momento, que desaprendeu aquilo que tinha demorado anos a aprender.
Aliás, para quê estudar se para o ano pode já não ser assim ?
Resultado: tudo é possível; todo o requerimento é possível; não vale a pena pensar, faz-se o requerimento e logo se vê.
A lei determina isto, mas é inconstitucional; os tribunais já não podem confiar na constitucionalidade das leis, etc..

Este sentimento de insegurança leva à desagregação das práticas instituídas, comuns a todos os práticos e ao medo de fazer mal.
O medo de fazer mal gera, compreensivelmente, peças processuais extensas, hiperindicação e produção de provas, requerimentos variados, muito palavreado, um processado em que se dão dois passos à frente e um atrás.

Tenho a sensação que Isto começou, ou levou um bom empurrão, com a reforma do processo civil de 1995.

01.Fevereiro.2008
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