|
A política de mercearia leva ao aumento da insegurança.
Nestas condições o crime sai sempre a ganhar.
Artigo da autoria do Juiz Desembargador Dr. Rui Rangel, na edição de hoje do Correio da Manhã.
«Existe alguma confusão sobre a natureza e gravidade
dos actos praticados por carjacking, que já gerou a defesa pública de
medidas penais mais graves por parte de alguns políticos. É preciso não
confundir as pessoas. O carjacking integra, no nosso sistema penal, o
tipo legal do crime de roubo agravado, praticado com violência sobre as
pessoas. O crime de roubo tem as seguintes molduras penais abstractas:
para o roubo simples as penas variam entre o limite mínimo de um ano de
prisão e o limite máximo de oito anos de prisão; para o roubo agravado
as penas variam entre os três e os 15 anos de prisão. No carjacking,
tratando-se de um crime de roubo agravado, os assaltantes ficam sempre
sujeitos a uma pena que varia entre os três e os 15 anos de prisão.
Alguém, com bom senso e com sentido de responsabilidade, poderá
defender um agravamento destas molduras penais? Só razões de
aproveitamento político da situação delicada que se está a viver,
derivada da onda avassaladora destes crimes, justificam tal tomada de
posição.
Do ponto de vista penal tudo está feito.
Temos uma lei penal razoável, com aceitáveis níveis de confiança e uma
moldura penal sensata e equilibrada. O problema do combate a esta forma
de criminalidade não passa pelo agravamento das penas nem pela criação
de um novo tipo de crime. Também não passa pela criação de grupos de
trabalho, como aquele que produziu recentemente umas conclusões, na
área da prevenção, que La Palice não faria melhor. Passa,
inevitavelmente, por políticas que devolvam a rua às nossas polícias
(PSP, GNR, Polícia Judiciária) para que estas actuem no domínio da
prevenção criminal; por uma boa prevenção policial acompanhada de uma
investigação criminal de excelência, dotada de meios humanos, técnicos
e com formação adequada. As polícias têm de, na área da prevenção,
andar no território do crime, auxiliadas por uma rede de informadores
que convivam com os criminosos, para perceberem as suas lógicas de
actuação. Passa por reforçar o investimento nas polícias, por
incentivar a confiança e, ainda, por uma melhor formação, melhor
recrutamento e maior disponibilidade dos agentes. Passa também por uma
recolha e tratamento adequado de informação e por uma melhor partilha.
A colaboração funcional entre as polícias, trabalhando em equipas
mistas, torna mais eficaz o combate a este crime de teor altamente
violento e perturbador.
E este combate será ainda mais eficaz quando se descobrir e se prender a rede dos receptadores que compra os carros roubados.
Mais
acção e menos protagonismo entre as polícias seria um tónico
moralizador. A segurança interna e o combate à criminalidade organizada
não podem ficar prisioneiras da rigidez orçamental nem da cultura
esquizofrénica de controlo do défice, como tem sucedido. A política de
mercearia que corta os dinheiros, sem critério e prioridades, leva ao
aumento da insegurança, porque o crime, nestas condições, sai sempre a
ganhar. As acções de prevenção, de estratégia e de segurança custam
muito dinheiro, mas valem a pena. Nas áreas consideradas mais críticas,
o carjacking tem aumentando de forma assustadora, cerca de 34 por
cento, o que é alarmante.
Já agora, alguém que
explique como é que uma esquadra da polícia é ‘assaltada’ e por que
razão só se encontrava um polícia de serviço! Será que também é por
culpa da lei penal? A isto chama-se descoordenação e incompetência
política».
RUI RANGEL | CORREIO DA MANHÃ | 04.05.2008
Comentarios () |
|
|
|
|
|