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«As pessoas e entidades interessadas nos grandes negócios são os juízes em causa própria, que fornecem os conselhos científicos e estão na base da política e da legislação».
Seja pelo ruído que os desassossega, seja pela
exposição aos campos electromagnéticos das
antenas que os perturba, seja pelos cabos de
alta tensão que lhes passam por cima, o povo
analfabeto e cientificamente ignorante anda a
incomodar os políticos.
Do alto do seu poder legislativo, apoiado pelos seus
bons homens de ciência, os políticos declaram que o
povo é ignorante.
O povo é ignorante porque não sabe que os níveis de
referência aplicáveis para as radiações electromagnéticas
são inofensivos para a saúde. Também não sabe que
o ruído de baixa frequência não existe e portanto não
incomoda. Quem o afirma?
1.A entidade que autoriza a instalação da antena, Anacom , entidade esta que não fornece a ninguém
nem o campo eléctrico nem o campo magnético nem a
densidade de potência emitida pelas antenas que licencia
nas áreas residenciais. A garantia de conformidade com a
legislação aplicável é nula. Não existe qualquer garantia
de legalidade para os cidadãos portugueses.
2. Os homens de ciência que procedem à monitorização
e medição dos níveis de intensidade dos campos
electromagnéticos.
São universitários competentes e, ao mesmo tempo,
empresários com interesses no mesmo domínio. Este
confl ito de interesses público/privado, que é proibido
em Inglaterra, não o é em Portugal.
As medidas físicas são extrapoladas para a saúde e
bem-estar das populações e descritas em entrevistas
televisivas como saudavelmente inócuas.
Os parâmetros da Física não servem em Portugal. Os
técnicos são incapazes de dizer qual o valor da radiação
em dBm ou miliWatts para uma pessoa exposta, a
uma distância de 300 metros da base de uma antena
de 60 Watts de potência e de 85 por cento de efi ciência
na transmissão. São estes juízes em causa própria que
fornecem os conselhos científi cos e estão na base da
política e da legislação no domínio dos campos electromagnéticos.
E há milhões de euros envolvidos no
negócio das antenas.
3. Os nossos legisladores, apoiando-se também na ciência,
não se manifestam relativamente ao ruído que incomoda
e interrompe o sono e o sossego das pessoas.
Os físicos e os técnicos de acústica utilizam os sonómetros
para medir a intensidade das vibrações audíveis.
Os resultados são referenciados a uma curva padrão
de audição humana, uma medida estatística e universal,
conhecida por malha "A".
O som audível de baixas frequências ( 100 Hertz)
não é ponderado por esta malha "A", tornando-se inexistente.
A maioria da população continua a queixar-se, sem
qualquer sucesso, de um ruído de base (hum noise) situado
naquelas baixas frequências. A legislação continuará
omissa.
Assim, os incómodos devido ao ruído de baixa frequência
produzido pelas máquinas industriais de utilização
no exterior, instaladas em edifícios residenciais, e provenientes
de clínicas médicas, continuam a ser objecto
de reclamações sem qualquer sucesso.
Primeiro, porque a câmara municipal é inoperante na
fiscalização visto a clínica não necessitar de autorização
de ninguém, sublinhe-se "ninguém" , para se instalar.
Segundo, porque, como acima descrito, a legislação e
as medidas de ruído sonoro não contemplam as baixas
frequências.
Conclusão científica: é verdade que o povo português é
muito ignorante.
TERESA SÁ E MELO - INVESTIGADORA | PÚBLICO | 10.05.2008
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