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03-Mar-2008 |
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O poder político tem uma assustadora
tendência para se intrometer na Justiça. Para o evitar é preciso saber
a magistratura que queremos ter. O magistrado impermeável às pulsões do
‘exterior’, bacteriologicamente neutro, nunca passou de uma utopia. Nem
a magistratura pode viver fechada sobre si própria, em esforço de
autolegitimação. Só que o contrário ainda é mais perverso
– o magistrado hiper-sensível aos gritos que vêm da rua ou aos
sussurros dos gabinetes do poder. Ou, pior ainda, que vai alternando a
função jurisdicional com uma colecção de nomeações políticas que a
desfiguram.
Pense-se num magistrado afogado em processos, a
trabalhar em condições do terceiro mundo, avaliado pelo número de
despachos que profere mas raramente pelo seu mérito. E imagine-se um
telefonema de um político, simpaticamente, a convidá-lo para um cargo
superior na Administração ou na área da Justiça. Passa a estar repleto
de mordomias e rodeado de atenções que nunca conheceu. No fim desse
mandato será quase cruel devolvê-lo ao inferno dos tribunais. Se tal
acontecer, ficará a aguardar sequiosamente por outro telefonema
redentor.
É quase ridículo falar na presença nefasta de
magistrados no futebol quando os danos mais graves são causados pelos
que já estão nas mãos do poder político, conscientemente ou não. Por
falar em futebol, adaptando uma conhecida frase desse universo, é bom
nunca esquecer “que os magistrados também são seres humanos como as
pessoas”.
CARLOS DE ABREU AMORIM | CORREIO DA MANHÃ | 02.03.2008
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