header image
Início seta Artigos de Opinião seta A bondade das leis
A bondade das leis criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
24-Nov-2007

O mundo da Justiça está agitado com a questão das garantias da independência dos juízes.
Artigo de Dr. Francisco Teixeira da Mota, in Jornal Público.

 

 

«Para qualquer cidadão do nosso país, a "guerra" que estalou entre magistraturas e a oposição e o governo à volta da nova lei sobre vínculos, carreiras e remunerações "na função pública"  ou "dos trabalhadores que exercem funções públicas",  pode não ser de fácil entendimento, mas  é seguramente  preocupante.

Estamos a falar de um conflito  a nível da superestrutura do Estado no mundo da Justiça, numa altura em que o acordo parlamentar em vigor nestas matérias faria prever um período de calmaria.  Está o governo a pôr em causa a independência dos juízes ? A querer convertê-los em funcionários públicos ?

Sob pena de nos acontecer como no conto do Pedro e o Lobo, temos de dizer que esta lei não consagra a funcionalização dos magistrados. Mas nem por isso deixam de ter razão aqueles que se preocupam com ela e a combatem.

Na verdade, o mesmo se passa  quanto às liberdades de imprensa e de expressão em que os cidadãos não devem só reagir quando um governo instaura a censura ou há jornalistas presos, mas logo que tais liberdades são cerceadas, adaptadas ou moduladas mesmo que  tais condicionamentos sejam aprovados por  via parlamentar. Também a preservação da independência dos juízes e da autonomia dos magistrados do M.ºP.º exigem que nos preocupemos com elas sempre que se legisla nestas matérias.

Ora, independentemente da exacta dimensão da "funcionarização" dos magistrados que resultaria ou não desta lei, a verdade é que não se pode facilitar que uma lógica de gestão da  administração pública concebida, segundo parece pelo ministério das finanças, crie um espaço ambíguo quanto à exacta caracterização legal das magistraturas

E é preciso lembrar que o governo e o parlamento no âmbito das reformas e iniciativas legislativas diversas que vão produzindo na Justiça, já criaram com as magistraturas em geral, um clima senão de confronto, seguramente de não completa cooperação, como seria desejável entre órgãos de soberania . Pelo que esta iniciativa legislativa que está sob o escrutínio presidencial, tem de ser objecto de uma apreciação muito cuidadosa por parte do Presidente da República. Apesar da alteração da lei do Orçamento que, entretanto, foi aprovada no Parlamento pelo PS, e que vem excluir expressamente a progressão na carreira dos magistrados judiciais e do Ministério Público das regras aplicadas à função pública.

Parece que a análise sobre a constitucionalidade ou não lei pelo Presidente da República, em que os partidos da oposição declaram confiar ou procuram pressionar, não será fácil, tendo em conta os contornos da situação.

Pelo lado, do governo já surgiu o inefável ministro dos Assuntos Parlamentares a explicar-nos a facilidade da análise: o governo e o parlamento não aprovam inconstitucionalidades ! Na verdade, poderíamos até prescindir do Presidente da República e do Tribunal Constitucional. E já agora, também do provedor de Justiça. Bastava-nos termos um governo justo e recto, a trabalhar para o bem do país e dos portugueses. De preferência: este.

Ora, apesar de o governo e a maioria absoluta parlamentar terem aprovado numerosas medidas positivas em diversas áreas, a verdade é que o furor legislativo que vivemos, já traz consigo a marca do amor ao poder que insidiosamente vai tomando conta dos reformistas. A certeza de ter razão e a  inequívoca necessidade de fazer reformas e de melhorar a gestão da Administração Pública fazem o governo actuar de uma forma autista e fundamentalista.

Veja-se, no mundo da Justiça,  o caso das férias judiciais. O governo decidiu reduzir as férias judiciais apresentando essa medida logo no discurso da tomada de posse. Por mim, entendo que não havia - nem há - nada que obrigasse - ou obrigue - a haver dois meses de férias judiciais. Mas havia e há inúmeras razões para não se estabelecer o regime de trinta dias de férias em Agosto, tal como foi legislado.

Provavelmente, entendeu o governo  que iria deparar com enorme resistência por parte dos operadores judiciários, resistência que já tinha feito soçobrar anteriores tentativas de redução das férias judiciais e, por isso mesmo, decidiu entrar "disparando primeiro e perguntando a seguir".

Não deixa de ser verdade que o diálogo, muitas vezes, é uma forma de paralisar a acção - e a anterior gestão governativa de António Gutterres ficou com essa fama - mas o monólogo, também, pode gerar ... uma acção paralisante. Os fins não podem justificar os meios e a metodologia que o governo utiliza vai contaminando a substância do que alegadamente está a pretender fazer.

As declarações do Procurador-Geral da República levantando dúvidas sobre a bondade das disposições desta lei e os posteriores esclarecimentos são um sinal evidente que os magistrados, em geral, não estão descansados. E as declarações do ministro da Justiça, embora não se conheça o seu contexto, no sentido de as declarações do Procurador-Geral serem devidas a "equívoco" ou até a "atrevimento" (!), no mínimo, não ajudam  a serenar os ânimos.

Esta vontade de confronto  do governo resulta também de uma hipersensibilidade à crítica que caracteriza os seus elementos, correndo o risco  de ficar como uma  "marca de água"  deste governo.

Veja-se o fantástico caso do secretário de Estado Ascenso Simões a ameaçar com processos judiciais os dirigentes da Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados que o criticam pelo exercício das suas funções governativas. Como pode um secretário de Estado esquecer-se que é um poder público e se tem de sujeitar ao escrutínio e à critica pública, mesmo que, por vezes, seja injusta ? Não sabe que o facto de o entender ter razão e até de a ter, não lhe dá razão para tentar calar quem tem outra opinião ou entendimento da realidade, de si discorda e o critica ? De certeza que, quando estava na oposição, sabia».

FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA  | ADVOGADO
Público, 24.11.2007

Comentarios (0)add
Escreva o seu Comentario

Este post foi bloqueado. Impossivel adicionar comentarios.


busy
 
< Item anterior   Item seguinte >
Sondagem