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O antigo bastonário da Ordem dos Advogados rompe o silêncio da
classe para criticar duramente as alterações às leis penais e os políticos que
permitiram que as mesmas fossem publicadas 15 dias antes de entrarem em vigor.
António Pires de Lima considera que a atitude dos advogados é de um "carneirismo
terrível" e receia que, a separação dos poderes possa estar em causa com a Lei
de Política Criminal.
Correio da Manhã – Disse recentemente que com a nova Lei de
Política Criminal “há-de dominar um Ministério Público instrumentalizado ao
serviço do Parlamento”.
António Pires de Lima – Quando a política criminal é
definida periodicamente pelo Parlamento, de dois em dois anos, dando orientação
ao MP daquilo que tem prevalência sobre outras coisas, obviamente que está a
torná-lo um mero instrumento dessa política, quando este deve ser uma entidade
isenta para a descoberta da verdade naquilo que entende que deve descobrir a
verdade, regendo-se pelo princípio da legalidade.
– Receia que esta Lei acabe por levar à violação do princípio
da separação de poderes?
– Vai, de certeza absoluta. Amanhã, quando houver um
problema de viagens falsas, em vez de se caminhar para a prescrição – como da
outra vez, com o senhor procurador-geral da República (PGR) de então a pedir
desculpa ao senhor presidente da Assembleia da República por um seu colaborador
ter tido a ousadia de ir lá fazer as notificações – basta que a Assembleia da
República diga que um acto não pode ser investigado porque não é oportuno.
– Acha então que esta Lei pode permitir restrições nas
investigações que envolvam políticos?
– Se amanhã acontecer isso, não me
admiro. Vejo o Parlamento, pela sua maioria, a querer dominar situações do
próprio MP.
– Disse que o Governo utilizou “mentiras” para fundamentar a
reforma na Justiça.
– Repare só na desconsideração que revela o legislador,
não só pelo público mas fundamentalmente por aqueles que trabalham com as leis,
como o Código Penal e de Processo Penal: essas disposições legais foram
publicadas há dez dias no Diário da República para entrarem em vigor no dia 15.
É uma desconsideração por todos nós, praticada por indivíduos que são ignorantes
por natureza, como o senhor Presidente da República (PR), que não faz a mínima
ideia do que está a fazer. Uma pessoa que assina uma Lei destas, permitindo que
entre em vigor 15 dias depois, não faz a mínima ideia. É uma desconsideração do
PR, por ignorância, e do primeiro-ministro, por má-fé. O senhor
primeiro-ministro tem dado um espectáculo de mentiras e falsidades. Só um
indivíduo inábil para o exercício da actividade governativa faz uma coisa
destas.
– Mas a situação é prejudicial também para os advogados, que
têm estado em silêncio...
– Isso para mim é uma surpresa extraordinária. Como
é que é possível não ouvir dos colegas que estão na Ordem uma expressão de
desagrado? É impressionante... é de um carneirismo terrível e é uma
desconsideração. É por isso que os advogados se têm afastado da Ordem.
– Esperava outra atitude de Cavaco Silva?
– Esperava que o
senhor Presidente da República, que tanto quis ser, tivesse uma posição
sensata.
– Que apreciação faz do trabalho do dr. Rui Pereira como
coordenador da reforma penal?
– Sobre o dr. Rui Pereira não falo porque uma
pessoa que considera honroso ir para o Tribunal Constitucional (TC) e que, três
semanas depois, aceita ser ministro, não tem consciência do que é um tribunal e
o respeito que deveria ter pelo tribunal. Transformou o TC numa comissão
política constitucional. Não discuto a sua capacidade e competência. Agora
gaba-se de que houve poucos incêndios, mas realmente com o tempo que nós temos
tido até me admiro que qualquer coisa arda.
"Isto é o caminho para uma ditadura"
CM – Qual é a sua opinião sobre as alterações às leis
penais?
A.P.L. – Há três coisas que já se nota nos novos códigos: o disparate
de pôr em vigor coisas importantes com um curto prazo; o problema do regime
prisional – daqui a um ano vamos ver como está o País em termos criminais e
veremos se não foi só uma medida economicista que agrada ao senhor
primeiro-ministro. Mas ainda há uma terceira coisa que é a mais grave: a
desigualdade criada entre determinadas entidades. Se houver um problema de
segurança no trabalho que provoque uma situação grave para um trabalhador, a
pessoa colectiva pode sofrer uma penalidade. Pelo contrário, se for uma entidade
pública nem sequer uma injunção. Admitia que não fosse possível dissolver uma
câmara municipal por esse motivo, mas era com certeza possível penalizá-la
exemplarmente do ponto de vista material. Isto é um sinal evidente daquilo que
tenho vindo a defender, embora as pessoas não acreditem: isto é o caminho para
uma ditadura.
"Não há ministro da justiça"
CM – Que balanço faz do trabalho do ministro da Justiça,
Alberto Costa?
A.P.L. – Não há ministro da Justiça. Há um senhor que está
sentado no lugar que é do ministro da Justiça, o que é completamente diferente.
A coisa é de tal maneira... Este ano foram alterados o Código Penal, Código de
Processo Penal, Código de Processo Civil, Sociedades Comerciais, Notariado, Lei
do Arrendamento. Há alguma coisa que justifique uma mudança de princípios, uma
alteração desta natureza?! Em Agosto, entre o dia 17 e o dia 24, foi alterado
duas vezes o artigo 158 do Código Civil. Alteraram duas vezes o mesmo preceito
sobre a constituição de fundações. Porquê? Numa das vezes porque o senhor
primeiro-ministro quis ficar com o poder de concessão de personalidade às
fundações, que é mais uma coisa que está na mãos dele... As cabeças destes
senhores é de tal maneira que nem sequer têm o cuidado de verificar o que é que
um fez para que o outro não faça.
Perfil
António Pires de Lima, de 70 anos, foi bastonário da Ordem dos
Advogados entre 1999 e 2001, e nas próximas eleições apoia a candidatura de
Magalhães e Silva, sendo mandatário do candidato a presidente do conselho
distrital de Lisboa, Carlos Pinto de Abreu. Nascido a 30 de Outubro de 1936 na
freguesia de Santa Maria Maior, concelho de Barcelos, Pires de Lima licenciou-se
em Direito, em 1958, pela Universidade de Lisboa. Casado e pai de quatro filhos,
um dos quais também chamado António Pires de Lima, militante do CDS e
ex-deputado, o advogado ainda exerce, sendo consultor de diversas entidades e
sociedades.
CORREIO DA MANHÃ | 14.09.2007
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