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A arte de mentir
27-Jan-2008

Recompensam, com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricam. São os assessores.
Têm várias designações. Assessores. Conselheiros. Encarregados de relações com a imprensa. Agentes de comunicação. Ou, depois do choque tecnológico, press officers e media consultants. Sem falar nos conselheiros de imagem.

Povoam os gabinetes dos ministros, dos secretários de Estado, dos directores-gerais, dos presidentes e dos gestores.

Vivem agarrados aos telemóveis, aos BlackBerries, aos Palms e aos computadores.

Falam todos os dias com os administradores, directores e jornalistas das televisões, das rádios e dos jornais.

Dão, escolhem, programam e escondem notícias. Mostram aos políticos e aos gestores o que é do interesse deles. Planificam a informação. Calculam os efeitos e contam as referências feitas na imprensa. Tratam da imagem, compram camisas para os seus mestres, estudam-lhes as gravatas, preparam momentos espontâneos, formulam desabafos, encenam incidentes e organizam acasos. Revelam a intimidade que se pode ou deve revelar.

Calculam os efeitos negativos de uma decisão sobre os impostos, que articulam com as consequências positivas de um aumento de pensões. A fim de contrabalançar, colocam o anúncio de Alcochete logo a seguir ao do referendo europeu. Fazem uma planificação minuciosa das inaugurações.

Escrevem notícias com todos os requisitos profissionais, de modo a facilitar a vida aos jornalistas. Mentem de vez em quando. Exageram quase sempre. Organizam fugas de imprensa quando convém. Protestam contra as fugas de imprensa quando fica bem. Recompensam, com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricaram. São as fontes. Que inundam ou secam.

Os jornais parecem-se uns com os outros. As notícias são quase iguais. As agendas das redacções são gémeas. Salva-se, desta uniformidade, aqui e ali, quem assina o que escreve. Os noticiários das televisões têm agendas iguais. E alinhamentos de notícias também. Os directos, grande vício da televisão portuguesa, são iguais em todos os canais.

Cada vez mais, a informação está previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com as conveniências. Há informação reservada para melhores momentos, informação programada para dramatizar, informação inventada para divertir e informação acelerada para consolar. Isto acontece há anos. Em Portugal e no mundo inteiro.

Todos os anos, a situação piora. Com Sócrates, refinou. O poderio das organizações de comunicação é avassalador. A opinião pública não tem meios para escolher e resistir. Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na informação são cada vez mais precários.

A recente polémica sobre as agências de comunicação, novo episódio numa longa série, mostrou esta actividade no seu pior. As mesmas agências comunicam a favor dos adversários, da política e da economia, da polícia e do ladrão, do Governo e da imprensa. Do atirador e do alvo, como disse Pacheco Pereira.

Até a Entidade Reguladora para a Comunicação, sem ver os efeitos nefastos, achou por bem ter uma agência a tratar da sua informação. O Governo tem a sua. Luís Filipe Menezes também: em vez de denunciar a prática do Governo, quis imitá-lo. Foi preciso Santana Lopes, em momento inspirado, opor-se a este despotismo: "O modo e o conteúdo da comunicação fazem parte do domínio da liberdade absolutamente inalienável de cada deputado."

Luís Marques, jornalista há várias décadas e com experiência da redacção, da direcção e da gestão da informação, em jornais e na televisão, fez há poucos anos um pequeno estudo sobre as "agendas" de informação. Chegou a resultados surpreendentes. Contando apenas os grandes órgãos de informação generalistas e nacionais, com exclusão das secções mundanas e outras, havia em Portugal cerca de 1500 profissionais.

Para os alimentar de informações, os assessores, as agências de comunicação e outros somavam quase 3000. Quer dizer, por cada jornalista em actividade na informação política e económica, dois profissionais preparavam as agendas e as notícias. É esta gente que inunda as redacções com "factos", "eventos", "oportunidades" e "situações". Qualquer redacção tem dificuldade em resistir-lhe. Se, às 20h00, o primeiro-ministro sai de um lar de idosos, entra numa creche ou produz uma declaração espontânea, como pode uma redacção decidir não estar presente? É este exército o responsável por grande parte das "entradas" que, durante a manhã, enchem as agendas das redacções.Num grande canal de televisão, essas entradas podem hoje chegar às 1000 por dia, enquanto eram cerca de 100 há quinze ou vinte anos. Na agenda diária da redacção de um canal de televisão, perto de um terço das entradas (mais de trezentas...) é feito directamente pelas agências de comunicação e pelos assessores dos gabinetes e das instituições. Mais ainda, é aquela brigada que, muitas vezes, sobretudo na informação económica, redige as notícias.

Nas redacções, povoadas hoje por jovens estagiários e inexperientes, mas também por seniores preguiçosos, publicar directamente as notícias assim preparadas, ainda por cima por jornalistas e antigos jornalistas treinados, é a solução mais simples. Por isso, é frequente vermos, sem menção de publicidade, notícias económicas absolutamente iguais em vários jornais.

Há quem pense que é isto a modernidade. A informação racional da época contemporânea. O sinal da eficácia. O instrumento da transparência. Mas desenganem-se os crédulos. O objectivo dos assessores e das agências de comunicação é sempre o de defender os interesses do autor da informação, nunca do destinatário, do cidadão. A única preocupação do agente é a de vender o mais possível, nas melhores condições, bens ou ideias, mercadorias ou decisões. Os agentes de comunicação não defendem os interesses dos compradores, dos consumidores ou dos espectadores, mas tão-só dos vendedores, dos produtores e dos autores. Apesar de pagos pelos eleitores, servem para defender os eleitos. Este é o mundo em que vivemos: a mentira é uma arte. Esta é a nossa sociedade: o cenário substitui a realidade. Esta é a cultura em vigor: o engano tem mais valor do que a verdade.

ANTÓNIO BARRETO | PÚBLICO | 27.01.2008 

Comentarios (9)add
... : BD
Não gosto particularmente de A. Barreto porque acho que com as oportunidades políticas que teve devia ter feito muito mais pelo País do que efectivamente fez. Mas o seu texto é bom e a sua voz incómoda, porque não há muitas assim, continua a fazer falta. Agora, se a cultura - dominante - em vigor for a arte de mentir, a encenação, o engano ( e eu acredito piamente que sim), e se há vantagem ou enriquecimento ilegítimo por detrás (e há - a curto, médio e a longo prazo nesta "cultura dominante em vigor"), isso para mim só tem um nome: Crime de (gigantesca) Burla!Mas quem é que se mexe, se se trata da cultura em vigor irrevogável e imprescritível?
28.Janeiro.2008
... : Socrália
O escrito de António Barreto é lúcido, penetrante e verdadeiro. Mas quem se importa com a verdade se as massas, previamente, foram anestesiadas ?
Existe outra reflexão sobre esta temática de Eduardo Lourenço (in O Esplendor do Caos) de enorme relevo.
Mas, quem a lê ? Quem ouve as elites ?
Quando tudo é subdeterminado pelo económico, já se vive em pleno totalitarismo, sem o ver.
A propósito do artigo de António Barreto quem mandou silenciar as noticias do 1º Congresso dos Juízes Portugueses e Espanhóis ? É que os silenciados já são conhecidos.
28.Janeiro.2008
... : cgf
Houve um filósofo no sec XX, salvo erro Karl Popper, que previu a queda das democracias em consquência da actividade dos media.
Já estive mais longe de discordar com ele.
28.Janeiro.2008
... : ATeixeira
Análise brilhante do "estado" da comunicação social actual.
28.Janeiro.2008
... : Aberto Ruço
Dá que pensar:
Transcrevo do livro de Ignácio Ramonet, intitulado «A Tirania da Comunicação», Campo das Letras ? Editores,S.A./1999.

A censura democrática.
«A maioria dos organismos públicos ou privados(...) rodeou-se fortemente de assessores de imprensa e de responsáveis da comunicação social, cuja função não é senão exercer a versão moderna, ?democrática?, da censura».
Esta, por oposição à censura autocrática, já não assenta na supressão ou no corte, na amputação ou na proibição de dados, mas na acumulação, as saturação, no excesso e na super-abundância de informações» - pág. 29.


«...só o que se vê merece ser objecto de informação; aquilo que não é visível e que não tem imagem não é televisivo, portanto não existe do ponto de vista mediático» - pág. 27.


«Assim, logo que um acontecimento irrompe em qualquer parte, os media(...) ganharam o hábito de estabelecer contacto com uma pessoa qualquer que se encontra no local - a quem se exige apenas que saiba falar francês ? que conta o que sabe. Mesmo que seja pouco, que seja falso, mesmo que seja um boato» - pág. 34.

«Ora, o único meio de que os cidadãos dispõem para confirmar se uma informação é verídica é confrontar os discursos dos diferentes media. Então, se todos afirmam a mesma coisa, não nos resta senão aceitar esse discurso único...» - pág. 45.

«... quanto mais os media falam de determinado assunto, tanto mais eles se convencem, colectivamente, de que esse assunto é indispensável, central, capital, e que é necessário dar-lhe ainda mais cobertura, dedicando-lhe mais tempo, mais meios, mais jornalistas» - pág. 20.

«Hoje um facto é verdadeiro não porque obedece a critérios objectivos e rigorosos e comprovados na fonte, mas simplesmente porque outros media repetem as mesmas afirmações e ?confirmam?...A repetição substitui-se à verificação» - pág. 135.

O que mais me dói é saber que pagamos para ler notícias falsas, sem detectarmos , muitas vezes, que são falsas.
Sinto que nos faltaram ao respeito e, como se já não fosse pouco, ainda nos humilham levando-nos a pagar para isso e a contribuí para alimentar esse Mostro.

29.Janeiro.2008
... : Garcia
Alguém que me dê razão ! É que, por saber que " a informação está previamente organizada", deixei de ler jornais e muito menos de ver os telejornais e passei a ser olhado como alguém fora da realidade.
Já agora: não estão os jornalistas, que se querem expressão da opinião pública, defensores da liberdade, maxime da liberdade de expressão, a ser cumplices do estado de coisas ? " Terceiro poder" ???
Vou continuar a deixar de ler jornais.

30.Janeiro.2008
... : Aestanislau
Canal de direito, muito bom gosto, direito do hoem direito dos animais, direito a resposta, direito privado, direito público e tantos.......
Existirá porém, algum direito à boa educação, à saúde, ao respeito, ao bom senso e a tantos outros.......
mal se sai de casa e é ouvir eu tenho direito a... não há direito a...
Contudo, deixo um alerta, para toda a humanidade e se enterrassemos os direitos e passassemos antes às obrigações, não teriamos um melhor planeta um melhor país uma melhor convivência e não andariamos tão preocupados com o terrorismo..
Começavamos pela obrigação da saúde, da educação, da justiça, da alimentação e de certeza que não existia deficite, nem terrorismo, nem tão mal jornalismo que em vez de cultivar e educar, atropela a mente humana ao sabor do engrandecimento e riqueza de mentes atrofiadas.
31.Janeiro.2008
... : Alexandre Lara
Pois! Por mim, vou continuar a ler a Time, a L'Express e a Der Spiegel. Um pé cá dentro e três lá fora (ah!...estamos a comerar a república centenária!). Já agora recuem um bocadinho e leiam a Revolução Liberal, 1834-1836. Do Vasco Barreto ou do António Pulido Valente? Ai, que não consigo discernir!

31.Janeiro.2008
... : armando
A arte de mentir não é de agora, é desde os tempos remotos dos princvipios do século, pelo menos, senão antes, mas os historiadores serão capazes de identificar a época a que remonta as mentiras. Não é de admirar que agora a mentira tenha sido mais refinada, pois com as novas tecnologias as mentiras sucedem-se em espiral. Necessário se torna é que nada se faça por isso, tudo serve de argumento, o mas, se, quer dizer, não bem isso, até porque, ... etc.
05.Fevereiro.2008
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