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Recompensam,
com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricam.
São os
assessores.
Têm
várias designações. Assessores. Conselheiros. Encarregados de relações com a
imprensa. Agentes de comunicação. Ou, depois do choque tecnológico, press
officers e media consultants. Sem falar nos conselheiros de imagem.
Povoam os gabinetes dos ministros, dos secretários de Estado, dos
directores-gerais, dos presidentes e dos gestores.
Vivem agarrados aos
telemóveis, aos BlackBerries, aos Palms e aos computadores.
Falam todos os dias
com os administradores, directores e jornalistas das televisões, das rádios e
dos jornais.
Dão, escolhem, programam e escondem notícias. Mostram aos políticos
e aos gestores o que é do interesse deles. Planificam a informação. Calculam os
efeitos e contam as referências feitas na imprensa. Tratam da imagem, compram
camisas para os seus mestres, estudam-lhes as gravatas, preparam momentos
espontâneos, formulam desabafos, encenam incidentes e organizam acasos. Revelam
a intimidade que se pode ou deve revelar.
Calculam os efeitos negativos de
uma decisão sobre os impostos, que articulam com as consequências positivas de
um aumento de pensões. A fim de contrabalançar, colocam o anúncio de Alcochete
logo a seguir ao do referendo europeu. Fazem uma planificação minuciosa das
inaugurações.
Escrevem notícias com todos os requisitos profissionais, de
modo a facilitar a vida aos jornalistas. Mentem de vez em quando. Exageram quase
sempre. Organizam fugas de imprensa quando convém. Protestam contra as fugas de
imprensa quando fica bem. Recompensam, com informação, os que se conformam.
Castigam, com silêncio, os que prevaricaram. São as fontes. Que inundam ou
secam.
Os jornais parecem-se uns com os outros. As notícias são quase iguais.
As agendas das redacções são gémeas. Salva-se, desta uniformidade, aqui e ali,
quem assina o que escreve. Os noticiários das televisões têm agendas iguais. E
alinhamentos de notícias também. Os directos, grande vício da televisão
portuguesa, são iguais em todos os canais.
Cada vez mais, a informação está
previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos
agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve
e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com
as conveniências. Há informação reservada para melhores momentos, informação
programada para dramatizar, informação inventada para divertir e informação
acelerada para consolar. Isto acontece há anos. Em Portugal e no mundo inteiro.
Todos os anos, a situação piora. Com Sócrates, refinou. O poderio das
organizações de comunicação é avassalador. A opinião pública não tem meios para
escolher e resistir. Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a
este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na
informação são cada vez mais precários.
A recente polémica sobre as agências
de comunicação, novo episódio numa longa série, mostrou esta actividade no seu
pior. As mesmas agências comunicam a favor dos adversários, da política e da
economia, da polícia e do ladrão, do Governo e da imprensa. Do atirador e do
alvo, como disse Pacheco Pereira.
Até a Entidade Reguladora para a
Comunicação, sem ver os efeitos nefastos, achou por bem ter uma agência a tratar
da sua informação. O Governo tem a sua. Luís Filipe Menezes também: em vez de
denunciar a prática do Governo, quis imitá-lo. Foi preciso Santana Lopes, em
momento inspirado, opor-se a este despotismo: "O modo e o conteúdo da
comunicação fazem parte do domínio da liberdade absolutamente inalienável de
cada deputado."
Luís Marques, jornalista há várias décadas e com
experiência da redacção, da direcção e da gestão da informação, em jornais e na
televisão, fez há poucos anos um pequeno estudo sobre as "agendas" de
informação. Chegou a resultados surpreendentes. Contando apenas os grandes
órgãos de informação generalistas e nacionais, com exclusão das secções mundanas
e outras, havia em Portugal cerca de 1500 profissionais.
Para os alimentar de
informações, os assessores, as agências de comunicação e outros somavam quase
3000. Quer dizer, por cada jornalista em actividade na informação política e
económica, dois profissionais preparavam as agendas e as notícias. É esta gente
que inunda as redacções com "factos", "eventos", "oportunidades" e "situações".
Qualquer redacção tem dificuldade em resistir-lhe. Se, às 20h00, o
primeiro-ministro sai de um lar de idosos, entra numa creche ou produz uma
declaração espontânea, como pode uma redacção decidir não estar presente? É este
exército o responsável por grande parte das "entradas" que, durante a manhã,
enchem as agendas das redacções.Num grande canal de televisão, essas
entradas podem hoje chegar às 1000 por dia, enquanto eram cerca de 100 há quinze
ou vinte anos. Na agenda diária da redacção de um canal de televisão, perto de
um terço das entradas (mais de trezentas...) é feito directamente pelas
agências de comunicação e pelos assessores dos gabinetes e das instituições.
Mais ainda, é aquela brigada que, muitas vezes, sobretudo na informação
económica, redige as notícias.
Nas redacções, povoadas hoje por jovens
estagiários e inexperientes, mas também por seniores preguiçosos, publicar
directamente as notícias assim preparadas, ainda por cima por jornalistas e
antigos jornalistas treinados, é a solução mais simples. Por isso, é frequente
vermos, sem menção de publicidade, notícias económicas absolutamente iguais em
vários jornais.
Há quem pense que é isto a modernidade. A informação
racional da época contemporânea. O sinal da eficácia. O instrumento da
transparência. Mas desenganem-se os crédulos. O objectivo dos assessores e das
agências de comunicação é sempre o de defender os interesses do autor da
informação, nunca do destinatário, do cidadão. A única preocupação do agente é a
de vender o mais possível, nas melhores condições, bens ou ideias, mercadorias
ou decisões. Os agentes de comunicação não defendem os interesses dos
compradores, dos consumidores ou dos espectadores, mas tão-só dos vendedores,
dos produtores e dos autores. Apesar de pagos pelos eleitores, servem para
defender os eleitos. Este é o mundo em que vivemos: a mentira é uma arte. Esta é
a nossa sociedade: o cenário substitui a realidade. Esta é a cultura em vigor: o
engano tem mais valor do que a verdade.
ANTÓNIO BARRETO | PÚBLICO | 27.01.2008
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