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ANTÓNIO VILAR - A questão essencial é do domínio da política e é aí que terá de encontrar soluções globais e concretas.
O tempo em que vivemos está minado por dificuldades várias, mas,
simultaneamente, é um tempo pleno de desafios e em que novos
horizontes, e melhores que os presentes, são possíveis. E, como
escreveu recentemente Vitorino Magalhães Godinho (”Os problemas de
Portugal, Colibri, 2009″), “Nestas circunstâncias adversas, será bom
que ressurjam as inquietações, e não se desista de reflectir na
pergunta inevitável: que rumo para Portugal?”.
A propósito da abertura do novo ano judicial, que recentemente ocorreu,
justificar-se-ão, talvez, algumas reflexões ou inquietações enquanto aí
se renovou o debate sobre certas questões do nosso sistema jurídico e
judiciário atulhado de entorses, muitas delas derivadas de pressões dos
poderes económicos e corporativos insaciáveis que nos rodeiam por todo
o lado.
Aqui, como noutros espaços da vida pública, mais do que maldizer, ou
dizer sempre os mesmos estereótipos, é preciso focar toda a nossa
energia na busca de soluções para os reais problemas da justiça. E,
decerto, tentar perceber onde radicam os conflitos de interesses que
potenciam o mal-estar.
Que rumo para a justiça?
Enquanto servidor do direito, nomeadamente como advogado há mais de 30
anos, de algum modo me será permitido, certamente, testemunhar
inquietações diversas no desejo de ver superadas as dificuldades do
tempo presente. Em geral - adianto-o desde já - não condeno aos
infernos o nosso sistema de justiça, mas critico-o severamente na
convicção, que é a minha, de que pode e deve ser melhorado. Sofre,
afinal, de esclerose múltipla, mas pode sobreviver com o mínimo de
dignidade se dele se cuidar.
O pior mal a assacar ao nosso sistema de justiça é, hoje, o de que
tarda excessivamente a dar resposta às angústias dos cidadãos e das
empresas. Tal corrói valores essenciais do Direito, nomeadamente a
segurança através do Direito, a segurança do Direito e a estabilidade
das situações jurídicas. Ora a segurança, como um fim do Direito,
quando falha, deixa os homens e os seus bens desprotegidos e, logo, à
mão dos mais poderosos, dos mais fortes ou dos mais “espertos”.
Precisamos, todos, de saber na verdade quais os efeitos de determinados
comportamentos futuros para planear a vida, tanto quanto de sentir que
o Estado não deixa na impunidade a violação das leis e num tempo justo
e razoável.
É claro que, a montante, fica o problema da feitura das leis, tantas
vezes marcadas pela imperfeição e ignorância dos legisladores se não,
mesmo, por maliciosos interesses de classe ou corporativos e
ideológicos indiferentes à nossa situação real e aos nossos verdadeiros
interesses colectivos. E a jusante, um outro, também relevante, que é o
de habilitar, no âmbito do Estado de direito, o poder judicial com os
meios necessários ao exercício das suas competências em tempo e com
eficácia.
Pelo meio caberá referenciar a necessidade de simplificar as leis,
sistematizá-las, e evitar a disseminação de normas jurídicas em caudais
de sobreposição e incoerência sucessivos. E, também, a urgência de
melhor formar todos os agentes da justiça numa sociedade de risco
acrescido, volátil e cada vez mais complexa.
O Direito é, de certo modo, o reflexo da nossa sociedade e, mudando
esta, aquele não poderá deixar de se adaptar aos nossos contextos
sociais. Mas o Direito tem, também, a missão de guiar, organizar, reger
a sociedade numa perspectiva de reforma social.
Afinal é a organização da vida em sociedade que também aqui está em
causa. E as patologias sociais não deixam de ter repercussão na
realização histórica e normativa do Direito.
O que vale por dizer que a questão essencial é do domínio da política e é aí que terá de encontrar soluções globais e concretas.
ANTÓNIO VILAR - ADVOGADO | DIÁRIO ECONÓMICO | 05.02.2010
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