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Foi há
um ano o segundo referendo sobre o aborto em Portugal. O Governo tinha maioria
no Parlamento para fazer passar uma nova lei do aborto. Mas, tendo o "não" ganho
o referendo de 1998 (com uma abstenção de quase 70 por cento, tornando não
vinculativos os resultados), o PS entendeu, e bem, que politicamente não poderia
dispensar um novo referendo. Embora a participação não tenha ultrapassado os
50 por cento necessários para tornar vinculativo o referendo, há um ano venceu
claramente o "sim". O que deu legitimidade política à mudança na lei.
Reconheço-o sem dificuldade, tendo votado "não". As críticas que faço ao que se
passou não são uma manifestação de mau perder.
Apenas protesto contra o logro a
que muita gente foi levada. O grande argumento dos defensores do "sim" era a
alegada necessidade de despenalizar a prática do aborto até às dez semanas de
gravidez. Isto para evitar prisões (que aliás não existiam) de mulheres e a sua
humilhação nos tribunais (que geralmente as absolviam). E também para reduzir o
aborto clandestino, com todos os seus riscos.A pergunta do referendo,
idêntica à de 1998, era ambígua: "Concorda com a despenalização da interrupção
voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez
semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Esta formulação
abria a porta, não à proclamada despenalização, mas à liberalização do aborto,
feito a pedido, sem qualquer condicionante e pago pelos impostos de todos
nós.
Após o apuramento dos resultados do referendo e festejando a vitória do
"sim", o primeiro-ministro teve palavras que pareciam afastar esse risco,
prometendo uma regulamentação sensata do aborto, seguindo as melhores práticas
europeias. Infelizmente, o que se passou entretanto desmentiu tal ideia e
confirmou os piores receios: o Estado passou a promover activamente o aborto até
às dez semanas.
A lei alemã, por exemplo, prevê um aconselhamento prévio à
mulher que pretenda abortar, onde se encoraja a continuação da gravidez. Por cá,
tal aconselhamento foi considerado uma intolerável violação da liberdade da
mulher (fraca ideia têm do que é liberdade). Esta nem sequer é obrigatoriamente
informada sobre o que se passa com o feto, através de ecografias, por exemplo.
Mostrar que está ali um ser vivo poderia levar a mulher a não abortar...
Os
médicos objectores de consciência estão proibidos de participar na consulta
prévia e no acompanhamento. E é facultativo o acompanhamento por técnicos do
serviço social e psicólogos, que poderiam evitar o aborto encontrando outras
soluções para a mulher.
O que se pretende é incentivar o aborto, gratuito
até às dez semanas, não sendo precisa qualquer justificação: pode ser realizado
apenas porque não apetece à mulher ter a maçada de uma gravidez. E o aborto a
pedido não paga qualquer taxa moderadora, ao contrário de tantas intervenções
médicas indispensáveis à saúde das pessoas. O aborto a pedido beneficia, ainda,
do apoio da Segurança Social, idêntico ao do aborto espontâneo (salário na
íntegra, sem impostos, entre 14 e 30 dias). Em Novembro afirmou o bastonário da
Ordem dos Médicos que "hoje é mais fácil fazer uma IVG no Estado do que obter
uma pílula contraceptiva gratuita".
Politicamente, é compreensível este
empenho governamental na promoção do aborto no Serviço Nacional de Saúde.
Criticado à esquerda pelas suas políticas económicas e financeiras "ortodoxas",
restam as "questões fracturantes" para o Governo e o PS tentarem demarcar-se da
direita.
Se o PS ganhar de novo as eleições, provavelmente virão o casamento
homossexual, a adopção de crianças por gays e lésbicas, etc.
Será bom que,
antes da votação, o PS diga claramente o que pretende fazer nestas áreas. É que,
para logro, já basta o aborto, em que enganaram os portugueses com uma alegada
despenalização, quando afinal veio não só uma liberalização, como uma empenhada
promoção do aborto.
Mas os esforços governamentais parecem não estar a
atingir os seus objectivos: o número de abortos voluntários nos hospitais
públicos encontra-se a pouco mais de metade das previsões oficiais. Uma das mais
baixas taxas do mundo, um caso excepcional, segundo o coordenador do Programa
Nacional de Saúde Reprodutiva (Diário de Notícias, 29.11.07). Ironias
da história
FRANCISCO SARSFIELD CABRAL | PÚBLICO | 11.02.008
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