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Quando
o telefone toca das duas, uma:
Ou, estamos
em casa e é alguém que tem um prémio para nos entregar, num hotel qualquer;
Ou, estamos
no tribunal e é a Direcção-Geral da Política de Justiça para nos fazer um inquérito
e insistir nas maravilhosas virtualidades da formação e aplicação da assinatura digital.
Na
primeira situação, digo logo que não vale a pena, que não estou interessada
porque (e com esta frase penso que arrumo a questão): «Hoje em dia ninguém dá
nada a ninguém».
No
segundo caso, confesso que ainda estou confusa.
Por
mais que me esforce, não consigo perceber qual a importância, (nesta altura),
que terá o facto de não escrever Elisabete Valente - e antes clicar em algumas
teclas - para a celeridade da justiça.
Com
tanto apelo para acções de formação, deslocações de formandos a Lisboa para o
efeito (com todas as implicações para o serviço que isso representa),
deslocações de formadores à província, inquéritos pelo telefone, insistências
para que use o sistema, fiz um esforço para perceber como é que esses «Cliques»
em vez do meu nome podiam ser úteis para a justiça.
Da
consulta do respectivo site, verifiquei que de todas as vantagens referidas no
projecto, por ora só tem aplicação a descrita como:
«Assinar
sentenças, despachos e decisões judiciais com assinaturas electrónicas, através
de um cartão do tipo smartcard associado a um código PIN, sem necessidade de
assinar esses actos no processo em papel.»
A maior
parte das vantagens para o trabalho do Magistrado já existem com a utilização
do Word ou de uma agenda pessoal electrónica.
Todas
as demais (de natureza processual) implicam a introdução de dados e diligências
de digitalização ainda não efectuadas.
Explica
o site que o CTIUS (nome dado à nossa desmaterialização) «permite aos
magistrados praticarem os seus actos e gerirem os seus trabalhos num processo desmaterializado».
Muito
bem.
Alguém
já viu um processo desmaterializado?
Eu
não.
Pergunto-me
a mim própria: porquê tanta pressa na minha desmaterialização se nada mais está
desmaterializado?
Não se
terão enganado e começado pelo fim?
Estão
pessoas a materializar telefonemas, respostas e deslocações quando podiam estar
a desmaterializar processos.
Esta
insistência é tanto mais surreal quando na maioria dos tribunais onde trabalho
é necessário que o funcionário saía da sala de audiências, no decurso do
julgamento, para fazer uma ligação telefónica para a vídeo-conferência, só existindo
linha para o efeito na secção que pode ficar no lado oposto do tribunal ou
mesmo noutro andar (perdendo-se sempre pelo menos 15 minutos, com um espaço de
julgamento em que os intervenientes olham uns para os outros e no mínimo «suspiram»,
tentando manter o princípio da continuidade da audiência (por acaso ainda não
confirmei se se mantêm no novíssimo CPP), bem como o tesourinho deprimente da
mudança da cassete (talvez pirata) que deixa qualquer interveniente processual
suspenso na leveza do seu depoimento (espere, espere, espere, é preciso mudar a
disquete), tudo contribuindo para a imagem de palhaçada a que o julgamento e a
justiça jamais poderiam/deveriam ter chegado.
Chega
a ser necessário marcar 2 ou 3 datas para efectuar uma vídeo-conferência por
impossibilidade de ligação e, quando a mesma (finalmente) se realiza, a pixelização
e a intermitência da imagem, bem como a qualidade (?) do som retiram toda a
possibilidade de avaliação séria do testemunho e tornam o princípio da
imediação uma mera quimera formal - bem melhor seria realizar inquirições de
testemunhas pelo telefone...
O
carro do Círculo Judicial que partilho - eu e os colegas do Círculo - com as
"penhoras", um Nissam Almera de 1997 (20/30,
40 km/h
já é muito) para além de não ter qualquer tipo de seguro, não tem um mero identificador
da Via Verde para utilização da auto-estrada, sendo indiferente ao sistema que
um Juiz de Círculo possa perder (ainda) mais tempo do que perderia se
utilizasse tal meio (e, neste caso, mais tempo de atraso é menos tempo para julgamentos
e para decisões escritas).
Cada
vez que corrijo uma disquete que supostamente contém digitalizada uma peça
processual que vou utilizar, pergunto-me a mim mesma se não teria perdido menos
tempo se tivesse escrito eu própria todo o texto à mão, dada a má qualidade das
digitalizações por força da má qualidade dos scanners que utilizam os funcionários.
Etc,etc...
Por
tudo isto e muito mais, fiquei perplexa com a insistência na minha
desmaterialização que assim à partida só me traz a enorme desvantagem de ter
que perder muitas horas ou dias a interiorizá-la.
Pergunto-me
a mim mesma porquê tanta pressa na minha desmaterialização com tanta falta de materialização
à minha volta.
Ainda por cima neste mundo onde que ninguém
dá nada a ninguém ?
ELISABETE VALENTE, Juiz de Círculo - Círculo Judicial de Évora
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