Polícia Judiciária tem uns serviços secretos dotados de meios
tecnológicos altamente sofisticados, com sede num armazém na zona de
Cascais. Esta força realiza escutas e vigilância à margem da lei. Há
pessoas escutadas nos seus próprios gabinetes, sem serem suspeitas de
crime.
A Polícia Judiciária (PJ) realiza operações de
vigilância e de espionagem à margem da lei. As missões são feitas por
agentes do Departamento Central de Prevenção e Apoio Tecnológico
(DCPAT), nome que serve para designar a ‘secreta’ daquele órgão de
polícia criminal. Este departamento está sediado num armazém
completamente disfarçado na linha de Cascais. Recentemente, a PSP
esteve lá a fazer buscas, e levou dados que estão agora sob
investigação do Ministério Público. As tensões que este caso levantou
estão a chegar ao Governo: há políticos que foram alvo de escutas
ilegais nos seus próprios gabinetes, soube o DN de uma fonte policial.
Os meios tecnológicos em poder desta ‘secreta’ são muitos e
sofisticados: malas que registam todos o números de telemóvel num raio
de 50 a 100 metros, podendo escutar as conversas em tempo real, até
“alfinetes” de gravata que gravam imagem e som sem que ninguém dê por
isso.
Até agora falava-se do assunto mas ninguém queria assumir. As dúvidas
acabaram quando a PSP entrou no coração da `secreta’ da PJ - através de
uma denúncia de um caso de espionagem feito por detectives privados que
tinham elementos das duas polícias como colaboradores. Quem passa pelo
armazém não se apercebe do que é. Mas no interior há meios tecnológicos
que julgamos possíveis apenas nos filmes de ficção. Meios que
oficialmente não existem nos inventários, mas que são usados na
investigação.
Todos podem ser alvo
O alvo do DCPAT pode ser qualquer pessoa: cidadão anónimo ou político,
ou uma organização criminosa. Não há registo dos trabalhos realizados.
As missões podem ser pedidas por fonte oficial, nomeadamente pelas
directorias ou pelos departamentos da PJ, no âmbito de uma investigação
em curso, mas também podem partir da iniciativa dos dirigentes -
nacionais, do director do departamento, ou dos coordenadores da
brigadas, à margem de qualquer investigação. “Às vezes, em troca de
favores”, garante a mesma fonte policial ao DN.
Os agentes quando partem para o terreno sabem que o que fazem, regra
geral, é à margem da lei - por isso têm de realizar o trabalho no maior
secretismo - mas nem sempre sabem para quê ou para quem. Quando nos
meandros da PJ se fala em “saquinho de veneno”, todos sabem que se está
a fazer referência ao DCPAT, e a quem o dirige. Entre as altas esferas
da Judiciária, dizem as fontes, há quem considere que aquele
departamento da PJ esteja a funcionar “em roda livre”.
Depois da visita da PSP, a 26 de Junho - que constituiu uma humilhação
para a instituição - o Director Nacional da PJ, Almeida Rodrigues,
mandou que o responsável do departamento, João Carreira, passasse mais
tempo no armazém da linha, onde o - homem forte é Sá Teixeira,
coordenador das brigadas mais secretas da ‘secreta’. Debaixo das suas
ordens estão os agentes infiltrados e os que realizam escutas
ambientais. João Carreira passava a maior parte do tempo na Gomes
Freire, sede da Judiciária.
Este é o mais sensível departamento da PJ. A informação que os agentes
recolhem, nomeadamente no crime organizado, é fundamental na maior
parte dos casos para o êxito das investigações. São informações que nem
sempre é possível obter pelas vias legais, mas ajudam os processos.
Mas, segundo as fontes policiais, as críticas contra o DCPAT dentro da
PJ, centram-se nas acções à margem das investigações, sem que se saiba
qual é o objectivo policial.
O DN enviou à direcção nacional da PJ um pedido de esclarecimento e
tentou contactar o Director Nacional, mas até à hora do fecho da edição
não obteve resposta.
Junção de serviços
Cada departamento da Polícia Judiciária tinha os seus próprios serviços secretos
O Departamento Central de Prevenção e Apoio
Tecnológico (DCPAT) -a “secreta” da Polícia Judiciária (PJ) - surgiu no
seguimento da extinção das secções especializadas em vigilâncias que
existiam em cada departamento e directoria da instituição. Todos
estavam apetrechados com pessoal especializado em trabalhos secretos,
inclusive, capazes de se infiltrarem nas organizações criminosas. Com a
alteração da lei orgânica da PJ, em 2000, estes serviços secretos foram
reunidos no DCPAT. Mas, segundo as fontes do DN, exceptuando a
directoria de Lisboa, todas as demais directorias e departamentos
mantêm uma reserva de “secretas” que respondem apenas perante o
responsável máximo. A informação é poder e, neste caso, ninguém quer
ficar para trás.
Conversa debaixo de uma TV para não ser escutada
À entrada do restaurante a fonte do DN olhou em
volta e escolheu a mesa mais próxima da televisão. Pensamos nas
notícias que lhe pudessem interessar. Porém, explicou tratar-se do
lugar mais seguro para evitar que a conversa fosse escutada.
Entretanto, percebemos que a nossa volta em redor do edifício, antes de
entrarmos, servira para verificar se por ali estaria estacionada alguma
viatura suspeita. Todos os cuidados são poucos. Aconteceu ali a
conversa com alguém conhecedor dos fantasmas que, por vezes, provocam
“barulhinhos” nos telemóveis. Os tais “barulhinhos” denunciados pelo
Procurador-Geral da República, mas que acabaram em águas de bacalhau.
Mas que existem…
Segundo a nossa fonte, os meios de espionagem do Departamento Central
de Prevenção e Apoio Tecnológico (DCPAT), a “secreta” da Policia
Judiciária (PJ), são muitos e sofisticados.
A “mala”, com capacidade para interceptar comunicações, consegue, por
exemplo, registar os números e IMEI (número de série) dos telemóveis
que se encontrem ligados num raio demais ou menos 100 metros. Aquele
sistema encontra-se colocado numa viatura estrategicamente estacionada
e, desde aí, os agentes podem, depois, escutar as conversas em tempo
real. Tudo isto sem que as operadoras de telemóvel tomem conhecimento,
e sem mandado judicial.
Como apoio de uma viatura no exterior, o DCPAT tem também a capacidade
de acompanhar em directo, por áudio e vídeo, a conversa entre um agente
e um suspeito. A micro câmara é colocada, por exemplo, na gravata. Está
igualmente apetrechado para anular a rede de telemóvel num determinado
local. Isto impede, por exemplo, o accionamento de uma bomba por
telefone.
Estes meios, e muitos outros são usados, por vezes, à margem da lei. Os
agentes nunca aparecem, para não terem de ser mudados. Mesmo se a
missão é legal, no âmbito de uma investigação, os relatórios são
assinados pelos inspectores encarregues do caso, assumindo-os perante o
tribunal, como se tivessem sido eles a realizar as diligências. Ou
seja, testemunham falso. Toda a gente sabe.
Meios e tecnologias da secreta da PJ
• Aparelhos para acompanhar em directo, por áudio e
vídeo, a conversa de um agente junto de um suspeito. É necessário a
viatura de apoio que, nas proximidades, receba o sinal.
• A rede de telemóvel pode ser bloqueada numa área.
A PJ tem meios para isso quando necessita de impedir que os suspeitos
façam contactos telefónicos ou que accionem uma bomba por telefone.
• Há também os tradicionais microfones para serem
colocados num escritório, viatura, ou residência. A escuta é feita numa
viatura de apoio. Existem dois sistema: Eagel e Hawk.
• As “balizas” são aparelhos que se colocam nas
viaturas, incluindo barcos, para estarem localizáveis. Ou por via
satélite ou por viaturas de apoio.
• Existem ainda as brigadas de agentes infiltrados. Temíveis por, por vezes, deambularem entre a infiltração e a provocação.
Funcionário da Vodafone é suspeito de colaborar com detectives privados
Os agentes da investigação criminal da PSP de
Lisboa fizeram buscas na Vodafone, no âmbito da investigação ao caso
dos detectives privados, em que, segundo informou aquela força de
segurança, sete pessoas já estão constituídas arguidas, incluindo um
agente da PSP e um inspector da Polícia Judiciária (PJ). A diligência
incidiu sobre a secretária e o computador de um funcionário daquela
operadora de telemóveis que, alegadamente, realizava uns trabalhos para
os detectives.
Esta operação de busca foi desencadeada a 26 de Junho, no mesmo dia em
que quase uma dezena de diligências semelhantes se registaram em
escritórios de detectives privados, na residência dos agentes policiais
envolvidos, no Departamento Central de Prevenção e Apoio Tecnológico
(DCPAT) da Polícia Judiciária (PJ), e ainda noutras casas de amigos e
familiares dos detectives privados, e num bar da namorada de um destes.
Esta acção localizou-se nas zonas de Lisboa, Palmela, Carnaxide e Évora.
Segundo a PSP, estão em causa crimes de ameaça, coacção, difamação,
injúria, publicidade e calúnia, devassa da vida privada, devassa por
meio informático, violação de segredo, gravações e fotografias
ilícitas, dano, instrumentos de escutas telefónicas e peculato de uso.
Polícias e funcionários das operadoras de telemóveis são os
colaboradores predilectos dos detectives privados, cuja actividade
continua sem suporte legal. Os primeiros, porque é importante
aproveitar a sua experiência de investigação. Os segundos, porque têm
acesso aos registos das chamadas telefónicas que podem ser vitais para
uma investigação privada. A maior parte dos casos tratados pelos
detectives diz respeito a infidelidades conjugais e acções de divórcio,
sendo os advogados os seus melhores clientes.
Trata-se de um negócio que interessa a todos. Um agente da PSP, em
média, pode ganhar 800 euros. Um serviço de dois dias realizado para um
detective privado pode render-lhe 400 euros. Na Judiciária não se pagam
horas extraordinárias, embora esta seja a luta do sindicato da classe
há já alguns anos. Qualquer serviço para um detective privado compensa
o que a Policia não quer pagar. Um serviço que é também bastante
rentável para os funcionários das operadoras de telefones.
De acordo com as fontes do DN, a realização destes biscates nas
polícias não são segredo para ninguém. “Faz, desde que não se saiba”, é
o lema.
Este caso soube-se e, claro, quem manda vai querer demonstrar o seu
poder e indignação. O inspector da PJ alegadamente envolvido, foi
imediatamente suspenso de funções e desfeita a brigada a que pertencia.
Uma medida considerada exagerada, segundo fontes do DN, já que a
investigação da PSP decorria há bastante tempo, com conhecimento da PJ.
Buscas da PSP no coração da espionagem
A “secreta” da Policia Judiciária (PJ) está sediada
num armazém anónimo em Cascais. Naquele sacrossanto meandro de
informação penetrou a PSP a 26 de Junho, no âmbito de uma investigação
que envolvia detectives privados para os quais, alegadamente, um
inspector daquele departamento fazia alguns serviços, tal como outros
agentes de forças de segurança. O segredo foi desvelado.
Oficialmente denomina-se Departamento Central de Prevenção e Apoio
Tecnológico (DCPAT). A sede é um grande armazém onde são guardados os
materiais de investigação, viaturas e meia dúzia de computadores, para
um total de cerca de 50 elementos. Os investigadores passam por lá,
usam um computador livre para aceder a qualquer informação e vão
embora. Ninguém tem local de trabalho próprio, excepto os chefes.
Dotados de telemóvel e viatura, aguardam ordens em casa.
Podem estar uma semana à espera de uma missão. O stress a que
constantemente são submetidos é reconhecido. Por isso, o DCPAT tem um
psicólogo sempre disponível. Alguns, entretanto, vão aproveitando o
tempo livre para fazer algum biscates, nomeadamente vigilâncias,
solicitados por detectives privados. Os casos são, regra geral,
infidelidades conjugais.
Alegadamente, terá sido um biscate destes que levou a PSP a fazer
buscas no DCPAT. Ao investigara acção de um detective privado, depois
de receber uma queixa de alguém que se disse importunado na sua vida
privada, a PSP suspeitou, com recurso a escutas telefónicas, que um
inspector daquele departamento estivesse envolvido. Há sete pessoas
constituídas arguidas.
Segundo as fontes do DN, os indícios dos crimes em causa - devassa da
vida privada, ameaças, entre outros - serão insuficientes para
justificar as intercepções telefónicas. A investigação pode estar em
causa.
As buscas realizaram-se a 26 de Junho. Os agentes da PSP deslocaram-se
primeiramente ao DCPAT onde, com a ajuda do pessoal da PJ,
inspeccionaram a conta informática do inspector. Uma magistrada do
Ministério Público presidiu às diligências, mas apenas presenciou a
revista feita ao agente. A arma e os telemóveis foram-lhe retirados.
Arma cujo paradeiro, segundo as fontes do DN, desconhece e o mantém
preocupado por poder ser mal usada. A viatura foi também vasculhada,
sendo apreendidos os cartões da máquina fotográfica e toda a informação
neles contida. As buscas estenderam-se à residência do inspector,
sendo, em seguida, obrigado a deslocar-se às instalações da PSP, em
Alcântara. Só aqui o auto de busca foi elaborado.
O caso mais mediático de espionagem foi em 1994
quando foram descobertos microfones no gabinete do então
Procurador-geral da República. Mas houve mais casos
BRAGA GONÇALVES
Em 1997 José Braga Gonçalves contratou José Esteves para garantir a
segurança da Universidade Moderna depois de terem sido descobertos sete
microfones no gabinete do seu pai, José Júlio Braga Gonçalves, o reitor
da instituição.
CUNHA RODRIGUES
Entre 1991 e 1994 Cunha Rodrigues, então Procurador-Geral da República,
teve o seu gabinete espiado através de microfones colocados no seu
gabinete. Este caso foi investigado mas nunca chegou a ser julgado em
tribunal
SOUTO MOURA
O ex-Procurador-Geral da República, Souto Moura, viu a lista de
chamadas telefónicas feitas e recebidas desde a sua casa serem anexadas
ao processo Casa Pia, juntamente com outras individualidades, sem que
nenhum tribunal o tivesse solicitado.
PINTO MONTEIRO
O actual Procurador-Geral da República alertou em Outubro para os
“barulhinhos” que por vezes se ouvem nos telemóveis. Ainda foi ouvido
na Assembleia da República sobre o assunto, mas o assunto não teve
qualquer seguimento.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 09.07.2008