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A revolta das fardas criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
15-Mai-2008
A contestação de polícias e militares atingiu níveis nunca antes vistos. A política de contenção do Governo deixa os ministros da Justiça, Administração Interna e Defesa a braços com um clima de insatisfação.


Largas dezenas de investigadores da PJ amontoam-se num longo corredor do Ministério da Justiça, tão apinhado que está o Salão Nobre onde, na tarde da passada sexta-feira, 9, Almeida Rodrigues toma posse como novo director da Judiciária. No momento em que o ministro Alberto Costa anuncia, durante a cerimónia, a contratação de 150 novos inspectores e um reforço de 4 milhões de euros para inovar a tecnologia da instituição, cá fora, naquele corredor, são vários os sorrisos trocistas e as cotoveladas jocosas. Gestos de homens que, a avaliar pelos muitos relatos feitos à VISÃO, nunca acreditaram tão pouco nas promessas de quem os governa. E a culpa «de um desânimo como nunca se viu», no dizer de várias fontes da PJ, está longe de ser apenas do titular da pasta. É toda a estratégia orçamental do Governo que está em causa e que abrange todas as forças de segurança, igualmente queixosas de carreiras bloqueadas e direitos subtraídos. Também na PSP e na GNR, o ministro da Administração Interna (MAI) prometeu, há dois meses, mais mil efectivos para cada uma destas polícias, mas tal não chegou para conter a insatisfação dos agentes. E a situação promete desenvolver-se em novos capítulos, quando entrarem em vigor as leis de segurança interna e investigação criminal, que subordinarão toda uma série de competências das polícias a um secretário-geral, sob a alçada do primeiro-ministro.

Mas não é só com as convulsões da PJ, PSP e GNR que José Sócrates se deve preocupar. À mesma hora em que a nova chefia da Judiciária era empossada, quatro associações socioprofissionais dos militares davam uma conferência de imprensa. Praças, sargentos e oficiais, no activo e na reforma, juntaram-se para anunciar novas medidas de contestação do rumo tomado pelas reformas das Forças Armadas.

O Governo parece, aliás, já ter acusado o toque. Em dois meses, o Executivo colocou homens da ‘casa’ à frente da PSP e da PJ, um facto interpretado como uma tentativa de insuflar o ego das corporações e de conseguir alguma pacificação interna. Mas, olhando-se para as reacções colhidas pela VISÃO à nomeação de Almeida Rodrigues (o primeiro investigador a ocupar o «trono» da Gomes Freire), dir-se-ia que o estado de graça terá pavio curto. Apesar do consenso quanto às qualidades do antigo n° 2 da directoria de Coimbra, «ou o ministro lhe dá meios para nos engordar o recibo ao fim do mês, ou o descontentamento continuará», afiança um inspector.

O não pagamento das horas extraordinárias foi o que mais corroeu a liderança de Alípio Ribeiro. O voto de censura da associação sindical às declarações do magistrado, publicadas no Diário Económico, em que este defendeu a passagem da Judiciária para a esfera do MAI - e que ditaram a sua saída do cargo -, não foram mais do que o destapar da panela. Para muitos, o ex-chefe da PJ cultivou a imagem de alguém «demasiado brando» e que se «contentou em fazer uma gestão de mercearia quando se via que o Governo prometia mas não resolvia os problemas», destaca um alto quadro da instituição. Além de não ter conseguido que as horas extra fossem pagas, não satisfez outra reclamação-chave: o aumento do subsídio de risco para os inspectores, «que é igual ao dos quadros dos recursos humanos, que têm um horário decente e não estão expostos a riscos».

Um exemplo referido é o do departamento de combate ao crime económico e corrupção: outrora um dos mais pujantes da PJ, à conta de investigações sonantes como a Operação Furacão e o caso Portucale, vive hoje, no dizer de vários inspectores, «num clima de grande desânimo e sem rasgo».

Em 2005, enquanto Alberto Costa escolhia Alípio Ribeiro para dirigir a PJ, o então MAI, António Costa chamava o seu velho conhecido - e também magistrado - Orlando Romano para chefiar a PSP. Este último - recém-substituído pelo polícia de carreira, Oliveira Pereira - também não escapou às alusões de muitos oficiais de que pouco ou nada terá feito para contrariar os efeitos das restrições orçamentais na corporação. Segundo Paulo Rodrigues, da Associação Sócio-Profissional da Polícia (ASPP), «foi uma pena ele não ter conseguido ir mais longe na elaboração da Lei Orgânica da PSP, que é omissa em relação a categorias profissionais e reforma». Assim, prossegue, «qualquer alteração a esta lei passou a ser feita por portaria e em sede de Conselho de Ministros e não com audição prévia da Assembleia da República, como era até aqui». O mesmo argumento levou o Presidente da República, Cavaco Silva, a enviar a Lei Orgânica da PJ para apreciação do Tribunal Constitucional.

Os agentes da PSP perderam o serviço médico gratuito e passaram a ter regras de aposentação mais restritivas. E o ordenado, esse, continua baseado na subsidiação e não no valor-base, «o que, mesmo assim, em muitos casos, não permite ir além dos 740 euros por mês». José Manageiro, da Associação de Profissionais da Guarda (APG), sublinha: «O primeiro-ministro prometeu-nos um horário de referência, mas o certo é que a carga horária tem aumentado brutalmente», uma vez que, em vez das 35 horas estipuladas, «há muita gente a trabalhar mais do dobro desse tempo por semana».

O dirigente da APG acusa o Governo de, «como nunca se viu», usar o estatuto militar a que os guardas estão sujeitos «para abusar das pessoas e obter mão-de-obra barata, das escalas de serviço permanentes, em instalações deploráveis». Também nas cúpulas da GNR - dirigidas, desde há algumas semanas, pelo general Nélson dos Santos - há um certo franzir de sobrolho, nomeadamente perante a nova Lei Orgânica da GNR, ainda em fase de regulamentação, que dita o fim da Brigada de Trânsito e a extinção de várias unidades territoriais. «Há nesse diploma aspectos que não nos agradam muito», confidenciou à VISÃO um alto responsável da Guarda.

Fracturante no Parlamento, inquietante para as polícias. Assim são classificadas as novas leis de segurança interna e investigação criminal e a figura do secretário-geral de Segurança Interna (SSI), com poderes de direcção, controlo e coordenação de todas as forças policiais, e que será ainda o gestor do futuro Sistema Integrado de Informação (SII), uma base na qual as polícias depositarão e cruzarão dados criminais. Este é, para várias fontes da PJ, o ponto mais polémico do diploma - não obstante a garantia do Governo de que o propalado «super polícia» não acederá ao conteúdo de inquéritos. «Mesmo que tal venha a ser verdade», diz um coordenador da Judiciária, «vai saber, por exemplo, que determinado ministro ou deputado está a ser alvo de uma investigação, mesmo que não conheça o seu teor. E isso é preocupante.» O antigo director, Santos Cabral, não tem dúvidas de que, com o SSI, se assistirá a «uma subalternização da investigação criminal em relação à segurança interna». Ressalvando que não conhece «a fundo» o novo diploma, a directora do DIAP de Lisboa, Maria José Morgado, admite que o SII «poderia perfeitamente ser gerido e coordenado pela Procuradoria-Geral da República, uma vez que o Ministério Público continua a ser o titular da acção penal». Entendendo que «não deve haver misturas entre a informação de segurança interna e a de investigação criminal», a magistrada defende restrições «graves» ao acesso e que todas as consultas fiquem registadas. «Só deste modo se previne abusos.» Ainda assim, Morgado diz-se agradada com a criação de uma base que permita uma maior cooperação entre as polícias. «Como as coisas estão, com a informação espalhada por todo o lado, é que não pode ser.»

REVOLTA NA CASERNA
Nas Forças Armadas, até já a farda é objecto de conversas. O facto de ser paga pelos próprios militares sempre foi encarado com naturalidade. Agora, é motivo de queixa. «Trata-se», desabafa um oficial superior do Exército, «de uma fatia significativa do orçamento familiar.»
E é, em parte, na erosão orçamental que se traduzem as tão contestadas medidas governamentais. Em causa estão as mexidas na assistência na doença aos militares e nas pensões, tendo o Governo cortado nesses itens, em 2008, respectivamente, 21,6% e 17,4 por cento. Depois, há queixas quanto ao facto de a despesa consolidada prevista para este ano (2114,7 milhões de euros) representar apenas 1,2% do PIB, quase metade da verba que o Conceito Estratégico de Defesa diz ser necessário gastar. Têm sido vários os antigos chefes de Estado-Maior, como Loureiro dos Santos, Espírito Santo ou Martins Barrento, a criticar o Executivo pela violação de compromissos para com os militares.
Para já, não se sabe o que vai sair da reforma da estrutura superior das Forças Armadas (comando operacional conjunto dos três ramos), a qual fomenta a discórdia entre os chefes de Estado-Maior dos três ramos e o Chefe de Estado-Maior-General, Valença Pinto. Ao certo, sabe-se que consagra menos lugares de chefia. E isso já está a entupir as carreiras.
Entre as razões que levaram ontem, quarta-feira, 14, as associações de sargentos, oficiais, praças da Armada e reformados a integrar-se no «desfile das cadeirinhas», promovido, em Lisboa, pelos deficientes das Forças Armadas, estão 4o diplomas legais que, dizem, não são cumpridos. As perdas financeiras para os militares ascendem, segundo as associações, a mil milhões de euros. «A condição militar está a degradar-se», adverte Vasco Lourenço, capitão de Abril, agora coronel na reforma. «O militar enviado para missão no exterior, já não sente a retaguarda protegida.»
No Exército, faltam 1800 militares para as necessidades e, na Marinha, os fuzileiros tiveram de cancelar a incorporação de Março, por falta de voluntários. «O recrutamento tem de ter aspectos competitivos», comenta o vice-almirante reformado Reis Rodrigues, «para que a profissionalização em curso seja bem sucedida - financeiros, mas também de prestígio.» O cenário é preocupante: «Parece haver a intenção de desvalorizar as Forças Armadas», acrescenta o coronel reformado Tasso de Figueiredo, da Associação dos Oficiais (AOFA). Vasco Lourenço está preocupado com a coesão e a camaradagem: «Hoje, há um espírito muito mais mercenário do que no meu tempo.»

VISÃO | 15.05.2008 

Comentarios (4)add
... : Gajo atento a mandar "bitaites"
Eu explico "os sorrisos trocistas e as cotoveladas jocosas" de outra maneira. A explicação é muito simples. Aparentemente, o que o nosso ministro da justiça mais gosta de fazer em cerimónias oficiais (nomeadamente em tomadas de posse de Directores Nacionais da PJ) é anunciar os tais 150 inspectores (que são sempre os mesmos e vão este mês iniciar o curso para daqui a uns anos irem para o terreno).
A título meramente exemplificativo, passo a citar uma notícia do Diário de Notícias de 12 de Abril de 2006 entitulada "Novos inspectores anunciados três vezes", da autoria de Carlos Rodrigues Lima:"O reforço de meios da PJ, com a entrada de 150 novos inspectores, já foi anunciado pelo menos três vezes por Alberto Costa.
O anúncio da admissão de 150 inspectores para a Polícia Judiciária foi a grande novidade que o ministro da Justiça levou à cerimónia de tomada de posse do novo director nacional, Alípio Ribeiro. Porém, o que foi lido como uma "prenda" do ministro está a ser anunciado pelo menos desde Janeiro.
No discurso proferido, anteontem, no salão Nobre do Ministério da Justiça, Alberto Costa afirmou: "Quero já referir que está já aprovada a admissão de 190 novos elementos [para a PJ] - 150 para a investigação e 40 para o apoio à investigação", acrescentando estar "planeado que uma parte significativa dos novos elementos se destine à investigação da criminalidade económica".
Ora, já a 27 de Janeiro, após uma reunião de trabalho com a PJ e a Direcção-Geral dos Impostos, o ministro anunciou aos jornalistas a admissão de 200 funcionários para reforçar o combate à criminalidade fiscal. Segundo a Lusa, Costa disse que no actual período de restrições orçamentais, as contratações provavam a "grande compreensão" do Governo sobre a importância da PJ no combate à criminalidade fiscal.
Passaram dois meses e o secretário de Estado-adjunto, Conde Rodrigues, abriu o Congresso de Investigação Criminal, organizado pela Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal e que decorreu a 16 e 17 de Março no Porto, anunciando o reforço da PJ com mais 150 inspectores, mas agora para "responder a desafios que se colocam hoje, na área da criminalidade organizada, combate ao terrorismo e mais áreas onde impera a tecnologia".
A última intervenção do ministro (além de anteontem) recolhida pelo DN foi a 22 de Março. Em declarações aos jornalistas, após a sessão de abertura da reunião preparatória da Conferência das Partes na Convenção da ONU contra a Corrupção, que decorreu em Lisboa, Alberto Costa retomou o ingresso de 150 novos inspectores na PJ: "Temos que ter maior eficiência no combate à corrupção e estão a ser desenvolvidos esforços no sentido de a assegurar, nomeadamente através da admissão de mais 150 inspectores".
Enfim, mais palavras para quê??
15.Maio.2008
... : educador infantil
Mas quem é que esses bébes pensam que são ?!!! Crianças !!!?????
Oopssss...!!! Desculpe, enganei-me... pensei ter lido «A REVOLTA DAS FRALDAS !».
Vou já à Optivisão......

15.Maio.2008
... : a querer-me jubilar
Eu gostava de ver era a "revolta das becas". mas não somos capazes .....
16.Maio.2008
... : Pedro Galvão
Cidadãos

Os pilares de um Estado assentam nas polícias e não no restante, com beca ou sem beca o que é certo é que sem polícia mais nada funciona num Estado pois o caos que geraria é impossibilitador de qualquer outra forma de organização administrativa...
Senhor (a) "educador infantil" eu no seu lugar pensaria melhor naquilo que escreveu...imagine se os elementos policiais acordam de uma vez por todas para a realidade do poder que detêm...tente imaginar uma sociedade sem polícias, acha que sairia à rua?!!!
08.Junho.2008
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