|
Segundo fontes policiais, o aumento da criminalidade violenta registado
na última semana pode "resultar da impunidade de que gozam actualmente
os criminosos, porque, mesmo que sejam apanhados pelas autoridades,
ficam em liberdade à espera de julgamento", afirmam fontes
policiais. Consideram que para isso contribuem as alterações no Código
do Processo Penal e "a facilidade com que se vendem e compram armas de
fogo".
Hoje, a Polícia Judiciária reúne-se para preparar a nova Lei Orgânica e
abordar a criminalidade violenta, numa reunião que já estava marcada,
mas que parece vir mesmo a propósito da recente onda de criminalidade.
Junto de fonte da Polícia Judiciária, o DN soube que esta reunião
"junta responsáveis das várias investigações em curso e terá em conta a
nova orgânica para o combate ao crime violento".
Para o presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP),
António Ramos, esta impunidade resulta das alterações no Código do
Processo Penal, que entraram em vigor no final do ano passado. "Os
marginais perceberam que passaram a viver num sistema de impunidade
total. Antes, quando se faziam detenções, as pessoas iam para a cadeia
e ficavam em prisão preventiva a aguardar a realização do julgamento.
Agora não. Em Crimes com molduras penais até aos cinco anos de prisão,
ficam em liberdade a aguardar julgamento", salientou o sindicalista.
Esta sensação é muito frequente entre as forças de segurança. Outro
elemento das forças de segurança sublinha ao DN que "nesses longos
períodos em que ficam cá fora à espera de julgamento, continuam a
praticar crimes". Segundo António Ramos, "há pessoas que viram crimes
serem cometidos e recusam ser testemunhas, porque têm medo, pois os
suspeitos ficam em liberdade e podem-lhes fazer mal".
Com o novo código, "também mandaram para fora das cadeias muita gente
que estava a aguardar julgamento em prisão preventiva. Tudo para não
terem as prisões tão cheias. Isto acaba por fazer aumentar a
criminalidade".
António Ramos lembra que "antigamente, quase ninguém matava ninguém. E
a violência dos crimes está a aumentar. Até 2003, quando havia um
assalto a um banco, isso era uma situação fora do normal. Agora, todos
os dias são assaltados bancos".
"E também aumenta a agressividade contra as forças de segurança. Cada
vez há mais casos em que tentam atropelar agentes. Em média, são
agredidos três polícias por dia", diz o sindicalista.
Além disso, "é cada vez mais fácil adquirir armas de fogo. Há redes
organizadas para as venderem, nos bairros problemáticos, como na Cova
da Moura (Amadora), e em Lisboa, junto da Praça do Comércio, na
Mouraria e até na Rua Augusta. As armas vêm de outros países, até de
ex-militares do Leste europeu que ficaram com armas e as vendem",
explica o presidente do SPP.
Recorde-se, a propósito, que, no final de Fevereiro, Rui Sá Gomes,
secretário de Estado da Administração Interna, considerou o total de
6500 armas recolhidas em dois anos como «um sucesso muito importante»,
mas reconheceu não ser suficiente. Calcula-se que haverá 770 mil armas
ilegais, número igual ao das legalizadas.
Por seu turno, o presidente do Observatório da Segurança, Criminalidade
Organizada e Terrorismo considerou ontem que os casos de criminalidade
em Portugal são "pontuais", mas admitiu começarem a ser "repetitivos" e
"mais violentos". O general Garcia Leandro disse à Lusa que a situação
"não é de alarme", mas a população deve estar "atenta". Reconhece "um
aumento da criminalidade nas áreas urbanas de Lisboa e Porto",
apontando como causas a globalização, o tráfico de armas, máfias
organizadas, problemas financeiros e sociais e as dificuldades de
inclusão dos imigrantes.
Também o director do Gabinete Coordenador de Segurança, Leonel de
Carvalho, reconheceu serem anormais estes crimes, mas disse à Lusa que
a criminalidade em Portugal tem vindo a estabilizar desde 2003.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 03.03.2008
Comentarios () |
|
|
|
|
|