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O Governo recusa comentar as declarações
do director-nacional da Polícia Judiciária (PJ), Alípio Ribeiro, que em
entrevista hoje publicada pelo “Diário Económico” defendeu a mudança de
tutela daquela polícia para a Administração Interna ou para um novo
Ministério do Interior.
Já os funcionários de investigação
criminal estão "radicalmente contra" esta mudança, contestando ainda
que a ideia surja num momento em que se devia estar a debater a
problemática da criminalidade.
"Vamos mudar para quê? Não há
estudos que mostrem que é melhor para a justiça em Portugal ou para a
investigação criminal. Nem está provado que haja melhor coordenação
entre polícias. A PSP e a GNR estão no mesmo Ministério e existe
descoordenação entre elas", disse Carlos Anjos, presidente da
Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC),
à Agência Lusa.
Este responsável encara a entrevista do
director nacional da PJ como uma "manobra de diversão" relativamente
aos problemas da criminalidade e em relação à "falta de meios" desta
polícia.
Carlos Anjos admitiu que na origem desta posição
assumida por Alípio Ribeiro esteja o reconhecimento da "incapacidade"
do Ministério da Justiça em resolver os problemas da PJ, enquanto tem
havido uma aposta nas forças policiais tuteladas pelo Ministério da
Administração Interna.
O director nacional da PJ adianta ainda
como hipótese a criação de um Ministério do Interior, à semelhança de
Espanha, e rejeitou a ideia de que a saída da PJ do Ministério da
Justiça prejudique a relação desta com o Ministério Público,
considerando que a PJ tem uma vertente de investigação criminal
estritamente policial, como todas as polícias.
"É uma hipótese
de trabalho", disse, considerando que as competências da figura do
secretário-geral do Sistema Integrado de Segurança Interna, criada no
âmbito da Lei de Investigação e Organização Criminal, ficaram "um pouco
aquém". Alípio Ribeiro defende que o secretário-geral deve ter mais
competências de coordenação funcional "e não ser apenas o gestor dos
meios, mas também o gestor dos fins".
JORNAL DE NOTÍCIAS | 05.05.2008
Director nacional diz que a Polícia Judiciária
sofre de exposição. E que as pessoas que trabalham na PJ precisam de
ser mais contidas.
Alípio Ribeiro, director nacional da Polícia Judiciária, defende a
criação de um ministério que reuna todas as polícias, uma medida que,
defende, traria eficácia ao seu trabalho. em pena que a lei que regula a Polícia Judiciária tenha estado mais de um ano parada no Parlamento? Naturalmente
que gostava que ela tivesse sido aprovada há uns meses. Na visão mais
pessimista que tive, acreditei que isso fosse possível em Outubro.
Atrasou, de facto, bastante.
Tem tido consequências no seu trabalho, esse atraso?
Pessoalmente
gostava que não se tivesse verificado, até porque, para mim, cria uma
situação de impasse, porque é preciso estruturar, dividir. Agora que
foi aprovada, pelo menos teve algum consenso. Mas estamos à espera das
Lei de Segurança Interna e da Lei de Organização da Investigação
Criminal, que também são importantes. A Polícia Judiciária vai passar a
ter dois níveis de competências, uma absoluta, que não pode ser
afectada pelos outros órgãos de polícia, e um outro conjunto de
competências que pode ser afectada, por despacho do Sr.
Procurador-Geral da República, a outras polícias.
Gostaria que houvesse um fio condutor entre as diversas alterações legislativas?
A
segurança, hoje, é uma área abrangente em que não há estruturas
estanques. Nós temos a ameaça, as informações, a prevenção, a
repressão, a gestão das grandes catástrofes, que também entram neste
leque de preocupações e tudo isto é um todo que tem de interagir. A
investigação criminal não pode estar de costas voltadas para a
informação, tem de conviver com ela. Hoje, tão importante como saber
gerir a informação, é importante saber como partilhar a informação.
Isto hoje é fundamental. Os grandes êxitos de investigação criminal,
por esse mundo fora, resultam, muitas vezes, de um método em que todos
sabem um bocadinho de tudo.
A passagem da Polícia Judiciária para o Ministério da Administração Interna poderia contribuir para uma maior eficácia?
O
Ministério da Administração Interna sofreu alterações profundas, deixou
de ter a modernização administrativa, as autarquias. Hoje é, de facto,
o ministério da segurança. É uma questão que não deve ser afastada,
deve ser pensada, acho que vale a pena.
Outra hipótese é criar um ministério do interior, como existe em Espanha...
Exactamente.
É uma hipótese de trabalho. O problema da tutela política bicéfala em
matéria de segurança reflecte algumas questões, mas temos encontrado
boas soluções. Por exemplo, na Lei de Organização da Investigação
Criminal, (à espera de aprovação na Assembleia da República) é criada a
figura do secretário-geral, mas do meu ponto de vista acho que as suas
competências ficaram um pouco aquém.
Devia ter mais?
Sim,
mais competências de coordenação funcional, e não ser apenas o gestor
dos meios, mas também o gestor dos fins. Por conseguinte, a tutela que
exerce sobre estes diversos actores, (com funções policiais) do meu
ponto de vista fica aquém do que seria desejável.
Mas a saída do Ministério da Justiça não prejudica a relação da Polícia Judiciária com o Ministério Público?
Não.
A Polícia Judiciária tem uma vertente de investigação criminal, mas é
uma vertente estritamente policial, como todas as polícias, e todas as
polícias têm uma relação com a Procuradoria-Geral da República. O
problema aqui é se entendermos a segurança tal como a referia aqui.
Porque há uns anos, tínhamos uma noção muito separada, tínhamos de
compreender que a Judiciária estava na Justiça, mas tinha o exclusivo
da investigação criminal. Hoje, já não tem, nem creio que esse modelo
volte a vingar, pelo menos nos próximos anos. Há elementos novos, sobre
os quais é preciso pensar. As novas ameaças criminais são cada vez mais
difusas, densas, sem fronteiras, e há uma criminalidade que circula de
um modo pouco visível, como a criminalidade económica, ou o terrorismo.
É preciso começar a fazer abordagens mais profundas, em que o elemento
de informações tem de se articular.
É preciso gerir essa informação?
Sim.
A Polícia Judiciária, hoje, vive do caso, no sentido de ser uma
polícia reactiva, mas tem de ser também a polícia do fenómeno, que
antecipa e ensina a prevenir. Num esquema de terrorismo, a polícia tem
de evitar, e antecipar é muitas vezes detectar o crime que é
instrumental. É evidente que vai cair o Carmo e a Trindade, mas nós
precisamos de reflectir muito sobre isto.
Mas a saída do Ministério da Justiça não é consensual. António Costa defendeu-a, Alberto Costa é contra...
Mas hoje há esta ideia da segurança. Depois de 2001, muitas coisas foram-se modificando.
Qual é o nosso grau de ameaça terrorista?
Creio
que não há ninguém no mundo que possa dizer: estamos imunes. É evidente
que é muito baixo, mas isso é uma luta que não é só nossa, resulta da
solidariedade internacional, é preciso dizer isto. Não porque temos
riscos altíssimos, mas de facto, temos um dever para com todos. O
combate a este fenómeno exige uma solidariedade internacional.
"O ‘carjacking' não é uma moda"
"O
‘carjacking' não é uma moda. É um roubo", diz Alípio Ribeiro, "que
surge, porque a qualidade dos carros melhorou muito e hoje já não há
ligação directa". "Se antigamente os bandidos pegavam num Fiat Punto,
faziam a ligação e fugiam, hoje já nem com o Renault Clio conseguem
isso e, por isso, se precisam de utilizar uma arma e dizer às pessoas
dê cá o carro, levam um Audi", descreve o responsável. Mas o director
nacional da Polícia Judiciária não nega o elevado perigo associado a
este fenómeno em que "um número muito significativo é feito com recurso
a armas de fogo e se há uma hesitação, ou uma reacção, pode haver um
tiro. É a situação mais preocupante". Por se tratar de um delito
relativamente novo, o responsável da polícia alerta para "algum cuidado
que se deve ter na análise deste crime" e diz que algumas soluções que
se estão a desenhar podem "ser perigosas". Na maioria dos casos, os
carros são utilizados para fazer assaltos e depois aparecem. Alípio
Ribeiro rejeita a necessidade de aumentar as penas previstas para este
tipo de crime, que podem chegar aos 15 anos de prisão.
Há ou não falta de meios?
Se
fossem dados mais meios à Polícia Judiciária, o Director Nacional não
rejeitaria, mas para já, Alípio Ribeiro está preocupado em "fazer mais
e melhor" como os meios disponíveis. "Entendo que é possível utilizar
mais racionalmente os meios humanos e técnicos disponíveis". No
imediato está prevista a entrada de 150 novos inspectores, que vão
começar este mês o curso de acesso à Judiciária. Um número muito
significativo que representa um aumento de cerca de 10% face ao total
de inspectores que hoje estão no activo. "Este grupo tem uma
particularidade, é que sendo todos licenciados, não são todos
licenciados em Direito, mas também Psicologia, Economia, Antropologia",
revela o responsável, esclarecendo que esta entrada "em massa", resulta
do facto de durante muitos anos não ter havido novas admissões. O
número de inspectores sofreu uma ligeira redução desde o ano passado.
"Em Março de 2007 estavam 1.130 inspectores no activo e em Março de
2008, 1.102. Mas essa redução será largamente ultrapassada pela entrada dos 150 novos inspectores”, esclarece Alípio Ribeiro.
Susana Represas e Francisco Teixeira | Diário Económico
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