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Carlos Anjos, presidente da
Associação Sindical dos funcionários de Investigação Criminal, diz que
as declarações do director da PJ sobre o caso Maddie foram um erro.
Culpa-o por falta de meios e não pagamento de horas: há investigações
nos serviços mínimos
Correio da Manhã - Qual é a posição da ASFIC em relação às declarações de Alípio Ribeiro sobre o caso Maddie?
Carlos Anjos -
Para nós, as declarações do director nacional da PJ foram um erro. Não
tinha que se ter referido a um processo que está em investigação, por
uma questão até de autodefesa. Mas já que falou em precipitação, tinha
sido conveniente ter dito o que é que entendia por precipitação. A
polémica não tinha existido da forma que existiu.
- A PJ foi afectada ?
-
É lógico que as declarações do director tiveram custos. Mas houve uma
coisa que confortou a ASFIC: eu não senti a PJ a ser atacada. A
Judiciária foi deixada de lado e foi criticado essencialmente o autor
das declarações.
- O director também foi criticado por ter vestido a pele de magistrado.
-
Durante a maior parte do tempo o dr. Alípio Ribeiro referiu-se à
polícia como "nós polícias", e naquele momento disse "eu como
magistrado penso..." Nós, sinceramente, não gostamos que o director
nacional da polícia vista a pele de magistrado, seja ele quem for. Não
lhe pedimos que renegue o seu passado, mas que enquanto estiver na
polícia seja polícia.
- Acha que Alípio Ribeiro é independente de quem o nomeou, o ministro da Justiça e amigo Alberto Costa?
-
Todos os directores da PJ entram com o rótulo de governamentalizados e
saem com o rótulo de politicamente independentes. Aliás, há algum cargo
em Portugal que não seja nomeado pelo Governo? Até o PGR é escolhido
pelo Governo e nomeado pelo Presidente da República... Não sei se o
director é ou não amigo do ministro da Justiça. Enquanto estiver cá
logicamente que será o nosso director.
- Os graves problemas económicos da PJ mantêm-se?
-
Esta direcção trouxe novas práticas de gestão para a polícia com as
quais não concordamos. Antes, a PJ não tinha meios nem dinheiro, agora
tem dinheiro e continua sem meios. Foram compradas 200 viaturas que não
vieram somar-se àquelas que a PJ já tinha, uma vez que foram abatidas
cerca de 300. A PJ ficou com menos meios e nós somos uma polícia móvel.
Temos situações dramáticas do ponto de vista operacional.
- A PJ está paralisada?
-
A PJ está paralisada. Vai fazendo os serviços mínimos garantidos. Temos
um problema com as horas extraordinárias, os quadros da polícia estão a
sair. Quando divulgarmos os resultados de 2007 vamos ver o preço da
factura em termos operacionais por se querer poupar meia dúzia de
euros. A PJ perdeu operacionalidade, produtividade e está mais
burocrática.
- Que repercussões tem tido o adiamento da lei orgânica?
-
Para a PJ é uma situação dramática. Hoje, ao ser distribuído um
processo a um inspector, ele não sabe se o vai acabar porque se a lei
sair amanhã pode ser transferido. É impossível, numa organização onde
os funcionários arriscam a vida diariamente, deixá-los em lume brando a
fritar dois anos. As pessoas estão desmotivadas e desorientadas. Já
dizemos que não interessa aprovar uma boa lei orgânica. Aprovem uma
coisa qualquer, mas resolvam o problema.
CM - Tem sido elogiado pelas intervenções públicas em casos delicados. Gostaria de ser porta-voz da PJ?
C.A. -
Não equaciono essa questão enquanto for presidente da ASFIC. A ASFIC
representa os funcionários da Polícia Judiciária, e a PJ tem de
resolver esse problema de outra forma. Mas um departamento de
comunicação é imprescindível e urgente.
- Defende que a direcção da PJ seja integrada por polícias?
-
Defendemos que seja criado o cargo de director operacional, com uma
visão clara da investigação criminal, cargo esse ocupado por um polícia.
- Como tem sido investigar com as novas leis penais?
-
As dificuldades aumentaram. Não houve reforço de meios e o código é
extraordinariamente mais exigente. As novas leis trouxeram coisas novas
e coisas boas, só que as novas não são boas e as boas não são novas.
CORREIO DA MANHÃ | 18.02.2008
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