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António Clemente Lima inspector-geral da Administração Interna: “Há incompetência a mais na polícia”
"A autoridade não se defende a tiro" e "o resultado
de uma infracção de trânsito não pode ser a pena de morte". A afirmação
é do juiz-desembargador que nos últimos dois anos tem observado e
fiscalizado as polícias. Em entrevista, a primeira desde que dirige a
Inspecção-Geral da Administração Interna, António Clemente Lima
denuncia que "há muita impertinência, muita intolerância e muita
impaciência por parte da polícia". Perante estes casos, Clemente Lima
considera "intolerável" a complacência das chefias. A formação militar
da GNR merece-lhe críticas, considerando-a responsável pelos excessos
de força utilizada em perseguições policiais. A propósito da
reestruturação das forças de segurança defende que em vez da GNR e da
PSP deve existir um único corpo policial: "A polícia única não é uma
questão de ‘se’ mas de ‘quando’. Critica o despesismo nas cerimónias
das forças de segurança, aceitando "mal o dinheiro que se gasta",
quando "há investimentos prioritários".
‘A GNR vê o cidadão como inimigo’
Dois anos de funções, mais de 200 esquadras e postos
da GNR e da PSP inspeccionados e um estudo sobre as mortes em
perseguições policiais, deram ao juiz-desembargador Clemente Lima
conteúdo para vir, na sua primeira entrevista, dizer o que pensa da GNR
e da PSP. As conclusões são implacáveis.
Onde chegou o ‘braço’ da IGAI nestes dois anos?
O
meu ponto de referência tem sido uma intervenção pedagogicamente
activa. Tenho tentado introduzir boas práticas. Por exemplo, no
atendimento ao cidadão. Há por aí muita impertinência, muita
intolerância, muita impaciência da parte da polícia. O que significa
incompetência. E ainda mais intolerável é a atitude das chefias, de
alguma tolerância face a estes comportamentos.
Mas há problemas mais graves...
Temos tido alguns
problemas na GNR, com perseguições iniciadas por motivos que me parecem
inadequados, como por exemplo, por passar um sinal vermelho ou
desobedecer a uma ordem de paragem numa operação stop. Uma coisa é
perseguir um indivíduo que se sabe que acabou de cometer um homicídio,
outra é perseguir alguém que cometeu uma infracção de trânsito ou uma
desobediência. A autoridade não se defende a tiro, como aconteceu no
ano passado no Porto. Tem que se fazer a avaliação das situações. Não
podemos ter como resultado de uma infracção de trânsito a pena de
morte. Não se trata de uma endemia. São casos isolados. Mas a repetição
de casos isolados preocupa-me.
E porque é que a GNR tem mais tendência para esses comportamentos?
Terá
a ver com um padrão militarizado de actuação. Tenho algumas
preocupações relativamente à formação dos oficiais na Academia Militar.
Há uma sobrevalorização dos conceitos militares relativamente aos
policiais. Tem havido situações no território, de jovens oficiais da
GNR oriundos da AM como uma formação padronizada no inimigo. Encaram o
cidadão como o inimigo. Talvez consigam fazer a comutação para
‘adversário’ mas isto cria deturpações na relação com o cidadão. E não
chega.
Deu alguma recomendação específica para a GNR?
O
Fizemos um estudo sobre as perseguições policiais no qual analisámos
caso a caso as 10 mortes de 2005 e 2006, das quais sete foram nas áreas
da GNR. Foi remetido ao sr. ministro da Administração Interna. No
despacho que enviei, sublinhei que o número e as sequelas dos casos
analisados evidenciam e justificam a necessidade de um investimento
urgente: na adopção, pelas forças de segurança, de procedimentos
uniformes em matéria de recurso a meios coercivos; na análise, no
interior de cada uma das forças de segurança, do impacto (também
económico) das perseguições policiais; na formação inicial e contínua,
neste particular, dos agentes das forças de segurança.
As polícias
têm formação suficiente em matérias de direitos fundamentais dos
cidadãos? O Acho que não. Nem na GNR nem na PSP. Nesta última, há
poucos dias, um dos inspectores da IGAI que andava no terreno,
constatou em duas ou três ocasiões que agentes recém-formados não
faziam a menor ideia do que era a IGAI nem a razão da sua existência.
Confundiam a IGAI com a ASAE. Isto é preocupante e intolerável. A IGAI
é um referencial na defesa de direitos humanos relativamente às
polícias e na relação das polícias com o cidadão.
Tem tido sempre um discurso anti-securitário... como se previne o crime violento, o terrorismo ou a criminalidade transnacional?
A
melhor resposta é a de Espanha, no julgamento do atentado do 11 de
Março. É um julgamento feito «by the book», segundo as regras comuns.
Não houve um tribunal especial. Foi condenado quem tinha de ser e
absolvido quem tinha de ser, segundo as regras aplicáveis a qualquer
cidadão. A violação dos direitos ou a supressão de garantias é geradora
de ressentimento, com efeitos negativos, no futuro, para as
comunidades. Este tipo de crime previne-se com apuramento de técnicas.
Com informação policial e controlo da legitimidade dessa informação. As
pessoas têm que compreender porque são sancionadas. O medo dos cidadãos
e o desejo de perfeccionismo, de alcançar um resultado, o cumprimento
da missão a qualquer preço, por parte dos agentes da autoridade podem
agravar o sentimento de insegurança. Há por aí muita «cowboyada» de
filme americano na mentalidade de alguns polícias. Muito gosto na
exibição da pistola. Muito gosto por andar à paisana. Por exemplo, acho
que as zonas de investigação criminal precisam de ser mais controladas
pelas chefias intermédias. É preciso muito cuidado com estes agentes
policiais que andam à paisana, muitas vezes armados em agentes da
Polícia Judiciária, fazendo um trabalho descontrolado.
Em 2006 a IGAI deixou de fazer várias inspecções por causa da falta de recursos humanos e verbas. Não tem meios para trabalhar?
O
plano de actividades de 2006 era muito ambicioso. O de 2007 foi menos
extenso e mais centrado em acções de formação. A IGAI tem um quadro de
22 inspectores e neste momento temos 15 ao serviço. É pouco. Mas também
só acorremos às situações mais graves. Há alguma dificuldade em
recrutamentos. Cada vez mais são precisos quadros especializados. Por
exemplo na área financeira.
É verdade que não vai a festas da PSP e da GNR?
O
Isso foi uma coisa que me surpreendeu negativamente. A multiplicação de
rituais e de liturgias caríssimas. As festas das unidades, dos
comandos, etc., etc. Vou ao dia da polícia e ao dia da guarda nos
Jerónimos. Vou às escolas. Percebo mal o dinheiro que se gasta na
multiplicação destas comemorações. Cometem-se excessos. E, ao mesmo
tempo, custa-me ver que há por aí postos, principalmente da GNR, que
estão rapados e há aqui zonas de investimento prioritárias. Aceito mal
isso.
Este é um cargo de confiança política. Sente-se condicionado politicamente no exercício destas funções?
Este
é um cargo que, por força da lei, deve ser ocupado por um magistrado.
Como tal, tem de se ser independente até à medula dos ossos. E, na
magistratura, sempre cultivei o dito do meu conterrâneo Aquilino
Ribeiro: "livre me considero e livre me prezo".
Mas foi convidado
pelo número 2 socialista António Costa... O Não o conhecia. Quando me
convidou ainda lhe disse que não tinha gravatas para o cargo (uma
referência ao anterior inspector-geral, Rodrigues Maximiano, que
coleccionava gravatas). O dr. António Costa só me disse que eu tinha
bom nome na praça... e penso que se estaria a referir à magistratura.
Outros assuntos
Sobre a reforma do Sistema de Segurança Interna
‘A policia única não é uma questão de ‘se’ mas de quando’. É inevitável que aconteça no futuro"
Sobre as escutas
"Nunca ouvi barulhinhos nos meus telefones"
Sobre a manifestação da Covilhã
"É inadmissível um policia ir a um sindicato pedir informações sobre uma manifestação"
Sobre a utilização de armas
"Ter uma pistola é
sempre a melhor maneira de levar um tiro. É preciso ter uma preparação
permanente. Sei que os comandos têm feito algum investimento nesse
campo"
Sobre a IGAI
"A IGAI tem um quadro de 22 inspectores. Temos 15 neste momento; o que e manifestamente pouco"
Sobre as prioridades para 2008
"Vamos dar prioridade às condições de trabalho. Ninguém consegue em condições execráveis ter uma relação fluida com o cidadão"
EXPRESSO | 24.11.2007
COMANDO DA GNR RESPONDE AO INSPECTOR-GERAL DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA
Novecentos mil serviços requisitados e “um milhão e duzentas mil
patrulhas por ano” são os números com que um alto responsável da GNR
responde a Clemente Lima pelo ataque que o inspector-geral da
Administração Interna lançou ontem à polícia, em entrevista ao
‘Expresso’. “Acusa-nos de termos provocado sete mortes [entre 2005 e
2006] em perseguições, mas esquece-se que, em média, fazemos uma
detenção em cada 15 minutos. Com tentativas de agressões,
atropelamentos e até com pistolas apontadas. Temos formação.”, diz ao
CM um oficial.
O inspector-geral acusa a GNR e PSP de falta de
formação e recorda que a autoridade policial “não se defende a tiro”.
Diz ainda que “há jovens oficiais [da GNR] que encaram o cidadão como
inimigo” – quando um alto responsável contactado pelo nosso jornal diz
que “não é verdade”. “Qualquer oficial da GNR tem formação em direitos
fundamentais igual àquela que é administrada na faculdade de Direito”.
De
qualquer forma, uma declaração oficial do ministro da Administração
Interna, emitida ontem, vem contradizer parte das declarações de
Clemente Lima. “O senhor inspector-geral garantiu-me que a avaliação
que faz das forças de segurança é genericamente positiva”, diz Rui
Pereira. E o inspector terá afinal concluído que “o conjunto de factos
ilícitos e violação de direitos na acção da polícia tem diminuído. São
a excepção, nunca a regra”.
Clemente Lima disse em entrevista que há
intolerância nas polícias, defendendo a criação de uma polícia única.
“O Governo e Assembleia da República consideram que o actual modelo,
com uma força de segurança de natureza civil [PSP] e outra militarizada
[GNR], deve continuar. Para o nosso País, é a melhor situação
possível”, diz Rui Pereira.
Para Paulo Rodrigues, presidente da
Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), a forma como o
IGAI coloca a questão da alegada desorganização nas forças de segurança
“é exagerada”. “A PSP evoluiu e consideramos que o IGAI está mesmo a
querer enviar uma mensagem ao Governo”, referiu o presidente da ASPP.
Na
realidade, acrescenta Paulo Rodrigues, “o IGAI quis afirmar
publicamente que as dificuldades de actuação da PSP têm a ver com as
más condições de trabalho”.
Já a Associação Sindical Independente de
Agentes da PSP (ASG) aplaudiu a coragem de Clemente Lima. “Os defeitos
apontados prendem-se com a actuação das chefias da PSP e o efeito
negativo no terreno”, referiu Peixoto Rodrigues, secretário-geral da
ASG.
Por sua vez, a Associação dos Profissionais da Guarda (APG)
considera que “as principais vítimas dos problemas apontados pelo IGAI
são os operacionais”. “O Estado não fez aquilo que devia para nos dar
condições”, salientou José Manageiro, presidente da APG.
Entretanto,
o presidente do PSD defendeu que o ministro da Administração Interna
deveria tirar “consequências” das declarações do IGAI sobre as forças
de segurança, referindo que José Sócrates terá de reorganizar o Governo.
CORREIO DA MANHÃ | 25.11.2007
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