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É fácil fazer escutas e sem barulhos esquisitos. O Procurador-geral levantou suspeitas de que teria o
telemóvel sob escuta -e a verdade é que pode ter mesmo. Mas Fernando Pinto Monteiro pode estar descansado. Os
"barulhos esquisitos" que o Procurador-geral da República (PGR) diz
ouvir no seu telemóvel não devem ser mais do que meras interferências
na ligação, provocadas pelos milhares de sinais que circulam pela
atmosfera. "Hoje em dia os sistemas de escuta são totalmente
silenciosos", garantiu à SÁBADO um detective especialista na matéria.
Ou seja, se as suas chamadas estiverem a ser interceptadas, Pinto Monteiro não conseguirá aperceber-se de nada."Acho
que em Portugal as escutas telefónicas são feitas exageradamente. (...)
Penso que tenho um telemóvel sob escuta. Às vezes faz uns barulhos
esquisitos", disse Pinto Monteiro ao Sol. Não será pelos ruídos que o
telemóvel estará sob escuta. Mas se o aparelho tiver sido oferecido por
alguém, Pinto Monteiro deverá ter cuidado com o que diz. O seu telefone
pode ter incorporado um software indetectável que permite a quem o
instalou ouvir em tempo real todas as chamadas, aceder às mensagens
escritas e multimédia e receber a facturação detalhada. Mais: o
telefone pode estar a funcionar como microfone.
Uma pesquisa na Internet permite encontrar várias
empresas que se dedicam a vender este tipo de programas. "Há muitos
sítios americanos, russos e romenos", garante um especialista. Basta
fornecer à firma o número universal do equipamento - o International
Mobile Equipment Identity (IMEI) - para o software só funcionar nesse
telemóvel específico. A maioria destes programas são desenvolvidos para
os telefones
Nokia por serem os mais comercializados. Mas também já
é possível encontrar software para a Motorola, Samsung e Panasonic. O
preço varia consoante o modelo do telemóvel e a amplitude do programa -
se é para interceptar conversas, mensagens, para servir de microfone ou
para todas estas funções. A SÁBADO encontrou na Internet produtos que
variam entre os 150 e os 2 mil euros. Algumas empresas vendem pacotes
destes programas que podem custar 4 mil euros para 10 aparelhos. A
partir do momento em que o telemóvel chega ao destino, será possível
ouvir as conversas em tempo real. Sempre que faz ou recebe uma chamada
o telefone entra automaticamente em conferência com um número
predefinido. Para aceder às mensagens e à facturação detalhada basta
enviar um SMS com um código - indetectável para quem recebe - que envia
todos os dados via Internet. Se este for o caso de Pinto Monteiro, há
uma forma de saber se o telefone foi alterado. Basta ver se na
facturação há chamadas de Internet. Se não fez nenhuma ligação deste
tipo e elas estão debitadas então algo está errado. Ou seja, pode estar
a ser escutado e ainda paga por isso.
Este sistema tem um problema. É preciso que quem
vai ser escutado aceite um telemóvel oferecido e o use. Mas já existem
no mercado outros aparelhos que permitem interceptar conversas à
distância. Um dos encontrados pela SÁBADO na Internet - o A51
Interceptor GSM A51 - permite ouvir uma conversa telefónica até cinco
quilómetros de distância, para além de aceder a mensagens escritas e
ligações pela Internet. Os preços deste género de aparelhos podem
chegar aos 300 mil euros.O PGR deverá expressaras suas preocupações
na Assembleia da República nos próximos dias. A presença de Pinto
Monteiro no Parlamento foi pedida pelo CDSPP, juntamente com a do
ministro da justiça, Alberto Costa - que se mostrou disponível para
todos os esclarecimentos - e do presidente do Conselho Superior da
Magistratura, Noronha do Nascimento.
As declarações do procurador
geraram mal-estar na Polícia judiciária. A ponto de, na terça-feira, o
director nacional da PJ, Alípio Ribeiro, garantir que "não há escutas
ilegais" e que a judiciária "não carrega num botãozinho para fazer
escutas telefónicas". Alípio Ribeiro afirmou ainda que a PJ é apenas
"intermediária" no processo de escutas.
Legalmente, as conversas
telefónicas só podem ser interceptadas com a autorização de um juiz de
instrução criminal e quando o aparelho pertencer a um suspeito de um
crime grave.
Para isso, uma força policial ou o Ministério Público
tem de identificar o IMEI e fundamentar em despacho a necessidade do
pedido. Quando a escuta é autorizada, é enviado um despacho à operadora
de telecomunicações onde é indicado o telefone ou o IMEI. A PJ é depois
informada de que o sinal será enviado a partir de uma determinada data
para a gravação que é feita através do sistema Paragon.
A sala onde
está instalado o equipamento de escuta fica no último andar da sede da
PJ na Rua Gomes Freire. Cada Cunha Rodrigues teve um microfone no
gabinete quase três anos escuta tem um código secreto associado que
permite ao agente - que tem de estar identificado e credenciado para
entrar no edifício, primeiro, e na sala, a seguir - consultar as
escutas no servidor. Se o computador da sala estiver livre, e se o
processo assim o exigir, o agente pode sentar-se e ficar a ouvir ali
mesmo em tempo real. Se não for preciso, acede ao servidor, grava a
escuta para um DVD e ouve-a mais tarde. Ou seja, é praticamente
impossível realizar uma escuta ilegal através dos meios normalmente
utilizados pela PJ.
O controlo de acessos ao equipamento é de tal modo
rigoroso que toda a gente que passa pelo computador ou que entra no
servidor fica registada. É também impossível alguém ouvir a escuta de
um processo que não é seu. De resto, a Comissão Parlamentar de
Direitos, Liberdades e Garantias já chegou a fazer uma visita formal às
instalações a PJ, para verificar a segurança do sistema, e saiu
satisfeita com o que encontrou. Mas isto é na PJ e seguindo os meios
legais.
Cá fora, e sem legalidade, os telefones mais fáceis de escutar são os fixos.
E
já nem é preciso desmontar o aparelho para instalar um microfone. Há
dispositivos relativamente baratos à venda em lojas e na Internet que
permitem escutar com nitidez o que é dito a cerca de 50 metros de
distância. Trata-se de miniparabólicas dirigíveis que podem ser
apontadas a uma determinada sala. E tudo sem causar barulhinhos
estranhos.
SÁBADO | 25.10.2007
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