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Quando chegou a número dois da PJ, circulavam cartas anónimas a
criticar a sua subida meteórica. Demitiu-se em guerra com o director.
Agora regressa para esse lugar.
No fim de 2005, estava definitivamente deterioradas
as relações, antes amistosas e de confiança pessoal, entre o juiz
Santos Cabral, tão director nacional da Polícia judiciária (PI), e o
seu nº 2, José de Almeida Rodrigues. Santos Cabral deixara de confiar
em Rodrigues e pensava até que o director nacional adjunto queria o seu
lugar. Uma violenta discussão, no 4º andar da sede da PJ, em Lisboa,
levou Almeida Rodrigues a abandonara direcção, invocando razões
pessoais - nomeadamente o agravamento da saúde da sua única filha, que
vivia em Coimbra.
Antes de sair, o “jovem turco”, como era apelidado em numerosas cartas
anónimas que na PJ contestavam a sua subida meteórica, fez questão de
se deslocar pessoalmente ao gabinete do ministro da justiça para lhe
dar uma justificação. Alberto Costa recebeu-o, ouviu-o e ficou com boa
impressão. Almeida Rodrigues regressou à Directoria de Coimbra (onde
fizera boa parte da carreira) e por lá se manteve como nº 2 do
procurador Pedro do Carmo. É da gestão dos dois que surgem processos
mediáticos como os do cabo Costa, o homicida de Santa Comba Dão, ou a
maior apreensão mundial de dólares falsos (7,8 milhões).
Na segunda-feira passada, já com a demissão de Alípio Ribeiro em cima
da mesa do ministro, Almeida Rodrigues recebeu uma chamada telefónica.
No fim do dia, já estava em Lisboa para dizer a Alberto Costa que
estava disponível para liderar a PJ. Mas o processo de escolha não era
assim tão simples. O ministro tinha outro seleccionável e convocou-o
para uma entrevista como não há memória na PJ. Na manhã do dia
seguinte, Luís Neves, director do Combate ao Banditismo, foi também ao
gabinete do ministro da justiça. Ao fim da manhã, o eleito era José
Maria de Almeida Rodrigues, de 49 anos, licenciado em Direito e casado
com uma professora.
O novo líder da PJ é um estratega nato - no terreno, onde gosta de
estar envolvido nas investigações, ou a liderar nos gabinetes. Era ele
que aconselhava Santos Cabral sobre investigações em concreto, reforços
de meios e até o tipo de exposição mediática do director, a quem sempre
aconselhou a não dar entrevistas, como aconteceu no caso Joana, a
criança algarvia desaparecida, cuja mãe acabou por ser condenada por
homicídio.
Fontes da SÁBADO garantem que foi ele que sugeriu a Santos Cabral o
nome do futuro chefe de gabinete - Manuel Carvalho Rodrigues, actual
líder da equipa especial que investiga os crimes do Porto e que então
tinha deixado há menos de um ano a liderança da ASFIC, a poderosa
associação sindical da classe, que esta semana exigiu a demissão de
Alípio Ribeiro.
A escolha de Almeida Rodrigues causou surpresa dentro da própria PJ.
Primeiro, porque foi nomeado, pela primeira vez na história da
judiciária, um polícia de carreira para dirigir uma instituição
habituada a ser liderada por juízes ou magistrados do Ministério
Público. Em segundo, porque há o risco real, segundo confidenciaram à
SÁBADO várias fontes da magistratura, de os conselhos superiores do
Ministério Público e da Magistratura virem a não autorizar que um
magistrado fique subordinado a um polícia de carreira, obrigando à
saída dos juízes e procuradores da instituição.
Por último, porque o ministro deixou para trás - e isso representa
muito em termos de atritos internos numa instituição como a PJ uma
geração de coordenadores com mais história na instituição, nomeadamente
Ferreira Leite, director da PJ de Lisboa e ex-homem forte de Alípio
Ribeiro (Leite foi demitido da DCCB, na altura da liderança de Santos
Cabral e Almeida Rodrigues, por causa de uma entrevista autorizada pela
Direcção Nacional), José Brás, ex-homem forte do combate à droga, Paulo
Rebelo (caso Maddie) e Artur Pereira (ex-n ° 2 da Directoria do Porto).
PARA QUE ALMEIDA RODRIGUES pudesse entrar, Alípio
Ribeiro teve de abrir caminho. Na segunda-feira, 5, o seu telemóvel
tocou. Era do gabinete do ministro da justiça, Alberto Costa. A
conversa foi curta. O ministro queria falar sobre a entrevista
publicada nesse dia no Diário Económico, na qual Alípio admitia que uma
passagem da PJ para a tutela do Ministério da Administração Interna
poderia dar-lhe maior eficácia.
O encontro dos dois ficou marcado para
o fim da tarde. Alípio não estava em Lisboa. Ficara em casa, em Vila
Nova de Gaia, à espera que o motorista da PJ o apanhasse para o levar à
Guarda, onde era o convidado de honra dos 25 anos da judiciária local.
Quem esteve com ele durante essas horas viu-o bem-disposto, animado e
conversador. E sem nunca tocar (nem nas conversas que manteve com
Almeida Rodrigues e três directores nacionais adjuntos que o
acompanhavam) na entrevista que incendiou a PJ e deixou estupefacto o
ministro.
Por volta das 18h45, já em Lisboa, Alípio foi ao gabinete de Alberto
Costa entregar o pedido de demissão. Este foi imediatamente aceite, mas
o ministro precisava de espaço de manobra para procurar, pela segunda
vez no seu mandato, uma solução para dirigir a PJ.
Depois da gestão do
juiz Santos Cabral, classificado até por colaboradores directos como
“autoritário”, Costa escolhera o enigmático Alípio Ribeiro, um
anunciado “amigo” que acabou por ficar rotulado na PJ como “amável” e
“bom conversador”, mas pouco adepto de reuniões colectivas. Nos dois
anos em que geriu a PI, ninguém se lembra de uma única reunião que
tenha juntado a Direcção Nacional. Um dirigente da judiciária é bem
mais contundente quando se trata de avaliar o agora ex-director: “A
liderança de Alípio Ribeiro foi caricata, diletante, asfixiante para a
PJ e para o próprio.”
SÁBADO | 08.05.2008
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