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Os conflitos do novo líder da Judiciária criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
08-Mai-2008
Quando chegou a número dois da PJ, circulavam cartas anónimas a criticar a sua subida meteórica. Demitiu-se em guerra com o director. Agora regressa para esse lugar.


No fim de 2005, estava definitivamente deterioradas as relações, antes amistosas e de confiança pessoal, entre o juiz Santos Cabral, tão director nacional da Polícia judiciária (PI), e o seu nº 2, José de Almeida Rodrigues. Santos Cabral deixara de confiar em Rodrigues e pensava até que o director nacional adjunto queria o seu lugar. Uma violenta discussão, no 4º andar da sede da PJ, em Lisboa, levou Almeida Rodrigues a abandonara direcção, invocando razões pessoais - nomeadamente o agravamento da saúde da sua única filha, que vivia em Coimbra.

Antes de sair, o “jovem turco”, como era apelidado em numerosas cartas anónimas que na PJ contestavam a sua subida meteórica, fez questão de se deslocar pessoalmente ao gabinete do ministro da justiça para lhe dar uma justificação. Alberto Costa recebeu-o, ouviu-o e ficou com boa impressão. Almeida Rodrigues regressou à Directoria de Coimbra (onde fizera boa parte da carreira) e por lá se manteve como nº 2 do procurador Pedro do Carmo. É da gestão dos dois que surgem processos mediáticos como os do cabo Costa, o homicida de Santa Comba Dão, ou a maior apreensão mundial de dólares falsos (7,8 milhões).

Na segunda-feira passada, já com a demissão de Alípio Ribeiro em cima da mesa do ministro, Almeida Rodrigues recebeu uma chamada telefónica. No fim do dia, já estava em Lisboa para dizer a Alberto Costa que estava disponível para liderar a PJ. Mas o processo de escolha não era assim tão simples. O ministro tinha outro seleccionável e convocou-o para uma entrevista como não há memória na PJ. Na manhã do dia seguinte, Luís Neves, director do Combate ao Banditismo, foi também ao gabinete do ministro da justiça. Ao fim da manhã, o eleito era José Maria de Almeida Rodrigues, de 49 anos, licenciado em Direito e casado com uma professora.

O novo líder da PJ é um estratega nato - no terreno, onde gosta de estar envolvido nas investigações, ou a liderar nos gabinetes. Era ele que aconselhava Santos Cabral sobre investigações em concreto, reforços de meios e até o tipo de exposição mediática do director, a quem sempre aconselhou a não dar entrevistas, como aconteceu no caso Joana, a criança algarvia desaparecida, cuja mãe acabou por ser condenada por homicídio.

Fontes da SÁBADO garantem que foi ele que sugeriu a Santos Cabral o nome do futuro chefe de gabinete - Manuel Carvalho Rodrigues, actual líder da equipa especial que investiga os crimes do Porto e que então tinha deixado há menos de um ano a liderança da ASFIC, a poderosa associação sindical da classe, que esta semana exigiu a demissão de Alípio Ribeiro.

A escolha de Almeida Rodrigues causou surpresa dentro da própria PJ. Primeiro, porque foi nomeado, pela primeira vez na história da judiciária, um polícia de carreira para dirigir uma instituição habituada a ser liderada por juízes ou magistrados do Ministério Público. Em segundo, porque há o risco real, segundo confidenciaram à SÁBADO várias fontes da magistratura, de os conselhos superiores do Ministério Público e da Magistratura virem a não autorizar que um magistrado fique subordinado a um polícia de carreira, obrigando à saída dos juízes e procuradores da instituição.

Por último, porque o ministro deixou para trás - e isso representa muito em termos de atritos internos numa instituição como a PJ uma geração de coordenadores com mais história na instituição, nomeadamente Ferreira Leite, director da PJ de Lisboa e ex-homem forte de Alípio Ribeiro (Leite foi demitido da DCCB, na altura da liderança de Santos Cabral e Almeida Rodrigues, por causa de uma entrevista autorizada pela Direcção Nacional), José Brás, ex-homem forte do combate à droga, Paulo Rebelo (caso Maddie) e Artur Pereira (ex-n ° 2 da Directoria do Porto).

PARA QUE ALMEIDA RODRIGUES pudesse entrar, Alípio Ribeiro teve de abrir caminho. Na segunda-feira, 5, o seu telemóvel tocou. Era do gabinete do ministro da justiça, Alberto Costa. A conversa foi curta. O ministro queria falar sobre a entrevista publicada nesse dia no Diário Económico, na qual Alípio admitia que uma passagem da PJ para a tutela do Ministério da Administração Interna poderia dar-lhe maior eficácia.

O encontro dos dois ficou marcado para o fim da tarde. Alípio não estava em Lisboa. Ficara em casa, em Vila Nova de Gaia, à espera que o motorista da PJ o apanhasse para o levar à Guarda, onde era o convidado de honra dos 25 anos da judiciária local. Quem esteve com ele durante essas horas viu-o bem-disposto, animado e conversador. E sem nunca tocar (nem nas conversas que manteve com Almeida Rodrigues e três directores nacionais adjuntos que o acompanhavam) na entrevista que incendiou a PJ e deixou estupefacto o ministro. Por volta das 18h45, já em Lisboa, Alípio foi ao gabinete de Alberto Costa entregar o pedido de demissão. Este foi imediatamente aceite, mas o ministro precisava de espaço de manobra para procurar, pela segunda vez no seu mandato, uma solução para dirigir a PJ.

Depois da gestão do juiz Santos Cabral, classificado até por colaboradores directos como “autoritário”, Costa escolhera o enigmático Alípio Ribeiro, um anunciado “amigo” que acabou por ficar rotulado na PJ como “amável” e “bom conversador”, mas pouco adepto de reuniões colectivas. Nos dois anos em que geriu a PI, ninguém se lembra de uma única reunião que tenha juntado a Direcção Nacional. Um dirigente da judiciária é bem mais contundente quando se trata de avaliar o agora ex-director: “A liderança de Alípio Ribeiro foi caricata, diletante, asfixiante para a PJ e para o próprio.”

SÁBADO |  08.05.2008

Comentarios (1)add
... : Um Juiz desiludido
?A liderança de Alípio Ribeiro foi caricata, diletante, asfixiante para a PJ e para o próprio. Só não acredita qeum não viu o homem actuar na TV....
12.Maio.2008
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