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Tentar fazer humor nos tribunais é uma actividade de risco. Ainda por cima numa comunicação oficial. Foi o que aconteceu a um funcionário judicial que terminou um e-mail para a Direcção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) com a expressão "Daaa", que caiu no goto dos portugueses através de uma campanha publicitária de uma operadora de telemóveis. Foi alvo de um processo disciplinar.
O caso começou em 2005: O Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) decretou um dia de greve para o dia 26 de Outubro, e a DGAJ, na véspera, enviou um e-mail para os tribunais a pedir informações sobre os números totais de funcionários, quantos vão aderir à greve e se os serviços mínimos estariam assegurados.
Na resposta, o funcionário escreveu: "Encontram-se assegurados da mesma forma e com o mesmo empenho e dedicação com que irão ser assegurados no próximo feriado dia 1/11/2005 ou em todos os feriados posteriores e domingos do calendário, em que o período de encerramento do tribunal é, em horas e minutos, pelo menos que eu saiba e pelo relógio, no que toca aos funcionários judiciais o mesmo e nunca se levantou problema nenhum. Daaa..."
Instaurado o processo disciplinar pelo Conselho de Oficiais de Justiça (COJ), o funcionário foi condenado com uma repreensão, suspensa por dois anos, por ter violado os deveres de correcção. O homem recorreu e o caso chegou ao Conselho Superior da Magistratura (órgão de recurso das decisões do COJ quando os funcionários em causa estão afectos à magistratura).
No processo disciplinar, o funcionário ainda argumentou que o desabafo final foi apenas "uma manifestação de desagrado por uma situação perfeitamente igual à de um vulgar feriado, domingo ou dia santo ter sido tratada pela tutela da forma que é do domínio público". Acrescentando ainda que é visto pelos colegas como "uma pessoa de excelente trato social e humano" e que sempre foi "um profissional zeloso, diligente e dedicado à sua função".
Mas, se o primeiro "Daaa" já não tinha corrido bem, no recurso o funcionário ainda "esticou a corda", como salientou o relator do processo, o juiz Edgar Lopes: "Agora, numa correspondência oficial demonstrar esse seu desconforto e revolta escrevendo para a sra. directora-geral da Administração da Justiça em tom irónico e sarcástico, culminando o texto com um Daaa, e depois ainda vir dizer que se estava a referir às iniciais de Dificuldade, Admiração, Angústia e Arrependimento, realmente passa das marcas".
O juiz, membro do Conselho Superior da Magistratura, recorreu à literatura sobre o humor e o riso para fundamentar a sua decisão em manter a pena aplicada: "Como assinala Anton Chejov, 'o melhor uso que pode fazer-se da palavra em muitas ocasiões é ficar calado".
"No âmbito do seu serviço, o recorrente [o funcionário judicial] não poderia actuar como se estivesse à mesa de um café com pessoas da sua confiança: trabalho é trabalho", acrescentou ainda o juiz Edgar Lopes, cujo acórdão deste processo disciplinar foi publicado no último Boletim Informativo do Conselho Superior da Magistratura (www.csm.org.pt).
CARLOS RODRIGUES LIMA | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 25.10.2009
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