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Está à vista mais uma polémica entre o Governo e os notários: o
Ministério da justiça vai proceder, durante o primeiro semestre de 2008, à
liberalização de preços no sector do notariado.
A medida foi confirmada pelo secretário de Estado da justiça, Tiago Silveira, que explicou que o
principal objectivo é "estimular a concorrência [como já defendeu a Autoridade
da Concorrência] para garantir um melhor serviço ao consumidor". A Ordem dos
Notários - que não foi chamada a pronunciar-se nem avisada - considera que o
Governo, já acusado de "perseguição irracional", está a ir longe de mais (ver
caixa)."Nos serviços de notariado os preços precisam de ser mais
transparentes", considera Tiago Silveira, explicando: "O serviço do notário é
composto por vários actos e cada acto tem um preço. É muito difícil para o
consumidor perceber, antes de o praticar, quanto é que vai pagar pelo serviço no
final".
Prevista descida de custos
Questionado sobre se a
liberalização, à semelhança do que tem acontecido noutros sectores, não
encarecerá os custos para o consumidor, o secretário de Estado da justiça
acredita que não e dá como exemplo a liberalização levada a cabo, em Dezembro
passado, dos preços referentes aos reconhecimentos e termos de autenticação,
que, garante, desceram.
"A concorrência leva a que haja um melhor serviço
para o consumidor. Vai poder escolher o notário que pratica os melhores preços
ou o melhor serviço", assegura o governante, lembrando ainda que a fiscalização
da actividade notarial cabe à Ordem dos Notários e à Inspecção-Geral dos
Serviços de justiça e Instituto dos Registos e Notariado.
A liberalização não
será porém feita da mesma maneira para todos os actos: serão liberalizados
totalmente os preços de actos que podem ser realizados por notários e outros
profissionais, como solicitadores e advogados - escrituras - bem como os que
apenas podem ser praticados por notários - como por exemplo os testamentos mas
estes com fixação de um tecto máximo. Neste caso, o custo não poderá ser
superior a 75 euros, valor vigente actualmente, passando a ser livre a fixação
do preço abaixo deste valor. O Governo garante que "não se trata de uma política
nova" e que "o mesmo esforço de simplificação e transparência" de preços
cobrados também "já foi realizado nas conservatórias".
O Executivo socialista
defende ainda que à fixação de preços livres "estará associada à obrigação de
divulgar o preço a pagar pelo serviço completo no cartório notarial", o que
torna os custos "mais transparentes e acessíveis aos consumidores".
"Ultrapassa todos os limites"
Joaquim Barata Lopes, bastonário da Ordem dos Notários, recusa
para já pronunciar-se sobre a liberalização dos preços, uma vez que foi
"apanhado de surpresa", mas rejeita o argumento do Governo de falta de
transparência: "É completamente falso. Os notários têm actualmente os preços
fixados por uma tabela aprovada pelo Ministério da Justiça. É ridículo que se
diga que é em nome de maior transparência." Para Barata Lopes o Governo está a
"ultrapassar todos os limites" na ofensiva contra os notários. "Estamos a falar
dos nossos honorários, do nosso ganha-pão e nada foi dito, aos notários. Mandam
as regras democráticas que sejam ouvidos os interessados", diz o bastonário,
fazendo questão de demonstrar a sua "indignação": "É lamentável."
Nova petição na assembleia
Depois de ter entregue uma petição ao Presidente da Assembleia
da República a queixar-se do Governo, a Ordem dos Notários prepara-se para
entregar outra que visa levar o Parlamento a discutir e reflectir sobre as
"medidas contra os notários". Os profissionais estão prestes a reunir as quatro
mil assinaturas necessárias para que a Assembleia da República seja obrigada a
apreciar as medidas do Governo - designadamente a política de desburocratização
do Estado através do programa Simplex, que inclui as medidas Empresa na Hora e
Casa Pronta. Recorde-se que a Ordem pediu pareceres aos constitucionalistas
Jorge Miranda e Gomes Canotilho, que arrasaram o Simplex, muito contestado pelos
notários. Estes profissionais alegam que têm vindo a perder grande parte das
suas competências - por eliminação de certos actos notariais ou por
transferência para outras entidades.
Apontamentos
Liberalização total
Actos como escrituras referentes à
constituição de sociedades de capital mínimo, compra e venda de prédios urbanos,
hipotecas e partilha de patrimónios hereditários, que podem ser praticados por
notários e outros profissionais, vão ter os preços totalmente liberalizados.
Valor máximo fixo
Nos casos dos actos que apenas podem ser
praticados por notários, como os testamentos, a liberalização não é total e está
sujeita à fixação de um tecto máximo. Abaixo desse valor estabelecido o preço
será livre.
Descida dos custos
Com a liberalização de preços no sector
do notariado o Governo acredita que os preços vão descer. O principal objectivo
é estimular a concorrência entre entidades para garantir um melhor
serviço.
CORREIO DA MANHÃ | 19.11.2007
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