«Executivo PS está a intimidar os funcionários das conservatórias». Fim das escrituras aumenta litígios em Portugal. Assim o diz Barata Lopes, bastonário da Ordem dos Notários, ao jornal "O Diabo". Em nome da desburocratização o Governo quer acabar
com as escrituras públicas no País. Joaquim Barata Lopes, bastonário da
Ordem dos Notários, diz que tal medida vai entupir (ainda mais) os
tribunais, acusa os socialistas de «quererem extinguir a profissão» e
garante que há «intimidações» sobre os funcionários das conservatórias
para apressar resultados. Barata Lopes afirma que o Estado português «não é tão digno de confiança como era suposto ser e como determina a Constituição».«Alterou as regras do jogo e julgo que o desfecho será a extinção desta profissão enquanto profissão jurídica autónoma», acusa.
A sequência das medidas levadas a cabo pelo Governo de José Sócrates de
desburocratização, está o fim da obrigatoriedade de realização de
escritura pública de um imóvel, aprovado em conselho de ministros e que
prevê a criação de 10 medidas para simplificar o registo predial e
actos notariais no sector do imobiliário, entre as quais a criação de
uma rede de balcões únicos e o fim da obrigação da escritura pública de
um imóvel.
Contudo, os notários não dão tréguas ao Executivo
socialista e prometem guerra dura naquilo que dizem ser uma política
que visa acabar com a classe em Portugal.
Joaquim Barata Lopes,
bastonário da Ordem dos Notários, faz a «O DIABO» duras criticas ao
Governo de Sócrates e diz que o fim das escrituras públicas vai entupir
os tribunais.
«Tribunais não estão preparados»
Joaquim Barata
Lopes, bastonário da Ordem dos Notários, considera que «a primeira
consequência da eliminação da escritura pública é a quebra de alguma
segurança que a escritura confere». Sublinha que «o que distingue estes
ordenamentos jurídicos, como o nosso, de outros, onde não há documento
autêntico, que são poucos, é exactamente isto: caracterizam-se por um
sistema de Justiça preventiva e que aquando da celebração do contrato
que o Estado, através do notário, verifica e confere toda a legalidade
do documento e do negócio que está a ser titulado».
Ou seja, «nestes
sistemas, através dos notários, o Estado dá garantias de verdade e de
legalidade dos actos em que intervêm os notários» e garante que «no dia
em que deixar de haver escritura pública deixa de haver o tal sistema
de justiça preventiva».
Nestes casos, explica, «os actos são
titulados por documento particular e depois qualquer dúvida que venha a
suscitar sobre a legalidade do contrato há-de ser resolvida pelos
tribunais».
Barata Lopes refere, por isso, que «os tribunais
portugueses não estão preparados para este tipo de litígios, já que
nesta altura os tribunais têm grandes dificuldades em fazer face a este
problema e há alguma lentidão da Justiça, decorrente do número de
processos e de uma menor eficiência considerada de instalações».
E
adianta que «o que fazia sentido, num sistema como o nosso, era que se
criassem as condições para não haver entupimento e não como está a
acontecer, criar condições para haver o maior número de litígios».
E
dá um exemplo significativo: «os países anglo-saxónicos, por exemplo,
não têm notários. Nesses países a percentagem de casos que dá entrada
nos tribunais é substancialmente superior à daqueles países onde existe
notariado e que confere a legalidade».
Reitera que a escritura
pública dá igualmente uma «garantia absoluta da data em que foi
celebrada, não há forma de viciar a data» ao passo que «num documento
particular isso não é possível, porque se perde e não fica arquivado
como uma escritura pública».
«Estado não é digno de confiança»
Mesmo
considerando que a simplificação «é bem-vinda», garante que «é um erro
do Estado português, representado pelo Governo PS, avançar para um
sistema que não encaixa no nosso sistema e cultura».
Ajuntar a estas
críticas, há agora a suspeita de «intimidação» por parte do Instituto
dos Registos e do Notariado que, alegadamente terá enviado um e-mail
para as diversas conservatórias, a solicitar aos conservadores,
adjuntos e aos próprios funcionários que denunciassem situações em que
a lei não esteja a ser cumprida.
«Ou seja, entenderam os
funcionários que há aqui um claro convite à delação e à denúncia. Não
me admira isto porque sabemos que tem havido uma tentativa no sentido
de, quem não for zeloso para cumprir e executar de imediato as novas
tarefas que resultaram desta nova atribuição de competências, está
sujeito a processo disciplinar», diz Barata Lopes. De resto, frisa,
«isso foi dito por alguns inspectores que andaram pelo País a espalhar
essa mensagem». «Estamos perante um clima de medo instalado no sentido
de impor que as pessoas façam o mais possível - e fazer avançar os
diversos programas de simplificação burocrática e administrativa
contidos no Simplex, como o «Casa Pronta», o «Balcão das Heranças e
Partilhas» e o «Cartão do Cidadão» -para que o Governo possa apresentar
resultados. É disto que se trata», explica.
O presidente do IRN,
António Figueiredo, garantiu entretanto que o e-mail visa identificar
apenas «casos de constrangimento ou entropias» nos serviços e que «não
está, nem nunca esteve, em causa a intenção de denúncia de colegas ou
serviços».
Por fim, Barata Lopes afirma que o Estado português «não
é tão digno de confiança como era suposto ser e como determina a
Constituição». «Alterou as regras do jogo e julgo que o desfecho será a
extinção desta profissão enquanto profissão jurídica autónoma», acusa,
acrescentando que «tudo se reconduz na opinião do Governo a meros
prestadores de serviços e profissionais liberais».
Notários não aceitam ser sector de risco
Entretanto, a Ordem dos Notários considerou um
«insulto» o Governo considerar os notários como um sector de risco em
termos de fuga ao fisco. Também as associações empresariais e os bancos
vão ser alvo de maiores inspecções em 2008.
Barata Lopes frisa que é
um «insulto» e «um disparate» o facto de o Ministério das Finanças
colocar os notários privados nos sectores de actividade de risco de
incumprimento, fraude e evasão fiscais. Tudo porque quer os notários,
quer as associações empresariais merecerão uma atenção especial por
parte da Inspecção-geral de Finanças em 2008. Joaquim Barata Lopes
refere que a ser verdade esta intenção do Ministério das Finanças
«trata-se de mais um disparate do Governo e mais uma daquelas medidas
de propaganda contra os notários, para fazer equivaler a actividade
notarial a uma qualquer outra profissão liberal». O bastonário lembrou
que o notário «tem importantes funções de verificação do cumprimento
das verificações fiscais» e que por isso não faz sentido considerá-lo
como uma «profissão de risco, no sentido de que é um potencial
prevaricador». Por estas razões, Barata Lopes adianta que os notários
não aceitam «ser tratados desta forma» pelo Ministério de Teixeira dos
Santos. Sublinha ainda que esta decisão do Governo é «altamente
insultuosa» para o sector, tornando «impossível a coexistência num
estado de direito entre estes oficiais públicos e um Executivo que os
trata desta forma». Salienta ainda que os notários tem vindo a ser alvo
de fiscalizações e, como tal, esta decisão do Governo não faz sentido.
«O DIABO» | 11.03.2008
Comentarios () |
|
|
|
|
|