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O representante dos notários critica, neste artigo de opinião, a
atitude do Governo para com a sua classe. Diz Barata Lopes que o
Portugal está a sucumbir à influência dos países anglo-saxónicos,
afastando-se das nações com que mais se identifica.
Vão-se sucedendo, na Europa, os eventos e as manifestações de carácter
científico em que se discute e aperfeiçoa a função dos notários e a sua
importância na sociedade e na economia. Foi o XXV Congresso da União
Internacional de Notariado, com a participação de notários de mais de
70 Estados de todos os continentes, em Madrid, em Outubro, cuja sessão
solene de abertura foi presidida pelos príncipes das Astúrias e na qual
participaram também o ministro da Justiça de Espanha e a presidente da
Comunidade de Madrid. Todos eles sublinharam e agradeceram o importante
contributo dos notários para o desenvolvimento do seu país. Nos dias 24
a 26 de Abril, decorreram em Salzburgo as 19.ªs Jornadas Europeias do
Notariado, onde se discutiram assuntos como a livre circulação do
documento autêntico europeu, a rede notarial europeia e o registo
europeu de testamentos. Entretanto, a Comissão Europeia solicitou ao
CNUE - Conselho dos Notariados da União Europeia (organização
representativa dos notários da UE) a nomeação de notários para
integrarem o grupo de trabalho de especialistas, a criar no seio da
Comissão, para o estudo dos efeitos matrimoniais do casamento e outras
formas de união.
Enquanto, numa saudável e estreita colaboração entre os notários e os
respectivos Governos, o notariado da UE vai prosseguindo o seu caminho
com a habitual pujança, ao serviço dos Estados e dos cidadãos que os
compõem, mais ou menos imune às tentativas de “aculturação jurídica”
por parte dos anglo-saxónicos, Portugal vai sucumbindo à influência
destes e está prestes a sair do grupo dos 21 Estados membros com os
quais mais se identifica histórica e culturalmente, para o grupo dos
seis mais distantes (Irlanda, Reino Unido, Suécia, Noruega, Finlândia e
Chipre).
As opções do Governo português fundam-se, em grande medida, em razões
muito pouco abonatórias para quem decide. É cada vez mais indisfarçável
a inveja de alguns, que tudo fazem para acabar, o mais depressa
possível, com os alegadamente elevados rendimentos dos notários. E
também revelador de uma certa pequenez a maior dificuldade em
reconhecer o sucesso dos que lhes estão mais próximos do que o dos que
estão mais distantes. Como se justifica, de outra forma, que se queiram
adoptar sistemas muito mais próximos dos britânicos, finlandeses ou
suecos, em vez de aproveitar o sistema existente, que tão boa conta de
si tem dado, desde logo em Espanha e em países como França, Itália,
Alemanha, ou Holanda? Daqueles, não é só o nível de vida que nos separa
grandemente. São também a forma de ser e estar, a cultura, a educação,
as tradições, a história e os costumes.
Em relação a Espanha, por exemplo, se é certo que a diferença de nível
de vida é cada vez maior a favor dos nossos vizinhos, não é tanto assim
o que nos separa. A França vai assumir a presidência da UE no próximo
semestre e, nesse âmbito, estão previstas várias iniciativas conjuntas
do Ministério da Justiça francês e do notariado europeu, onde será
posto o enfoque no importante papel do notariado ao serviço do espaço
europeu de liberdade, justiça e segurança, para o que conta já com a
participação de outros responsáveis da justiça de diversos
Estados-membros, no Fórum Justiça a ter lugar em Paris, no princípio de
Outubro. Não será o caso do Ministério da Justiça Português, que, por
certo, voltará a destacar-se pelo afastamento relativamente a tudo o
que tenha que ver com notários.
Lamento o fim do documento autêntico e das suas vantagens, o fim da
função notarial, enquanto instrumento privilegiado dos Estados para
garantir a confiança, a segurança jurídica, a paz social, a prevenção
de conflitos, por decisão de um Governo que sempre se recusou a admitir
aquilo que todos os Estados da Europa continental reconhecem e
enaltecem: o importante papel do notário na sociedade, ao serviço do
Estado e dos cidadãos.
BARATA LOPES | 24HORAS | 22.05.2008
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