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Reformas na Justiça são um falhanço criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
11-Mar-2008
ImageAntónio Cluny, Presidente do sindicato dos magistrados do MP, em entrevista ao Jornal «Sol», faz um balanço negro das reformas no sector da Justiça. Refere que houve sempre uma perspectiva muito jacobina dentro do PS em relação às magistraturas, não lidando bem com a independência do Poder Judicial, tendo uma visão quase alucinada da coexistência entre poder político e poder judicial. O SMMP vai convocar para Abril um fórum, onde iremos analisar a actual situação e demonstrar o descontentamento pela acintosa falta de respeito para com as magistraturas.


Que balanço faz da política do Governo na Justiça?
Não creio que se tenham alcançado os objectivos que o Governo pretendia, isto é, aumentar a produtividade dos tribunais. Aumentar a produtividade não é fazer leis para que certos casos deixem de ir a tribunal, mas sim aumentar o número de processos findos pelos serviços, com o mesmo número de magistrados e de funcionários. E o exemplo mais patente do falhanço da política deste Governo é a acção executiva, que está um verdadeiro caos nas grandes cidades.

Não encontra um aspecto positivo?
Sinceramente, não. Nas reformas dos códigos, há pequenos ganhos, tanto no Código Penal (CP), como no de Processo Penal (CPP), mas as questões importantes não foram tocadas, designadamente as que dizem respeito ao julgamento, continuando a ser possível arrolar 600 testemunhas para o tornar inviável. Foi isto que se quis?

Acabam de abrir uma nova 'guerra’ com o Governo, devido às carreiras.
Não fomos nós. Tivemos as carreiras congeladas durante dois anos. Findas essas leis temporárias, as pessoas pensaram que voltariam a receber segundo o seu lugar na carreira. As Finanças disseram que aquele tempo foi eliminado, definitivamente, para efeitos remuneratórios. Portanto, temos uma situação de desigualdade: para quem entra, para quem (como eu) já tinha tingido toda a antiguidade e, portanto, não foi afectado, e para todos aqueles a quem o Governo esbulhou dois anos. Os magistrados sempre tiveram um sistema com inspecções e classificações: há muito que progredimos em função das inspecções e não da antiguidade.

O que pretendem fazer?
Para já, vamos intentar mais uma acção judicial (já temos acções por causa da extinção dos serviços sociais). E vamos convocar para Abril um fórum, onde iremos analisar a actual situação e demonstrar o descontentamento pela acintosa falta de respeito para com as magistraturas. Não há nada que tenha a ver com o estatuto socioprofissional dos magistrados que este Governo não queira destruir. Há cerca de 10 anos, os nossos vencimentos eram relativamente parecidos com os dos italianos, espanhóis e franceses. Hoje, o meu vencimento de Procurador-geral adjunto (topo da carreira), está ao nível do de um magistrado de ingresso em Espanha. Acresce que neste como noutros países os magistrados podem dar aulas e conferências remuneradas. Isso não me parece bem - acho que os magistrados, ao contrário de outros, devem continuar a não poder receber mais nada - mas isso tem de ter compensações. Outro exemplo: as grandes sociedades de advoga dos já pagam aos estagiários um salário liquido maior do que o Centro de Estudos Judiciários no início de carreira. E aí está outra reforma, a do CEJ, absurda e retrógrada: os candidatos passam a escolher logo de início se querem seguir a carreira do Ministério Público (MP) ou a de juízes.

Receia que seja o primeiro passo para a funcionalização do MP?
Há uma certa lógica assumida por pessoas dentro do Ministério da Justiça de que o MP é uma espécie de super-polícia, que se deve bater ao transe pelas acusações. Parece-me extraordinariamente perigosa a ideia de um MP mais identificado com a lógica policial do que com a judicial.

Este Governo encara o poder judicial de uma forma diferente dos governos de direita?
Se calhar é pior.

Porquê?
A nossa actual direita tem, apesar de tudo, alguma visão liberal e isso evita alguns desmandos. É verdade que a direita, derrotada pelo 25 Abril, tinha uma visão dirigista da magistratura. Mas também é verdade que foram elementos da ala liberal que mais se bateram pela autonomia do MP (como Sá Carneiro), juntamente com outros da ala liberal do PS (como Almeida Santos). Mas houve sempre uma perspectiva muito jacobina dentro do PS em relação às magistraturas, que a direita saída da revolução democrática, até por ser liderada quase sempre por advogados de barra, não tinha.

A que 'desmandos’ se referia?
Tenho assistido a certas declarações públicas ministeriais, que não quero agora concretizar, acerca do valor ou não valor das sentenças judiciais, absolutamente inacreditáveis. É uma visão quase alucinada da coexistência entre poder político e poder judicial, que não existiu noutros momentos. Isto não foi sempre assim com o PS: quer com Vera Jardim, quer com Almeida Santos, havia uma cultura de independência e autonomia das magistraturas muito importante. Temos de reconhecer que, fora esses, foram os ministros do PSD quem lidou melhor com a independência do poder judicial.

Como encara os alertas do bastonário sobre a corrupção?
A verdade é que o senhor bastonário faz declarações públicas de efeito fácil, mas ao mesmo tempo apoia todas as medidas do CPP que de facto protegem os interesses poderosos que diz combater. Temos de interpretar as declarações de acordo com o objectivo que se pretendeu retirar delas. Depois do barulho que fez, o senhor bastonário já conseguiu que pagassem mais aos advogados na assistência judiciária e conseguiu este protocolo com o MAI, para continuar a ajudar os advogados pobres a sobreviver, mas reduzindo-os a meros tarefeiros.

O caso Bexiga e as demissões/nomeações na PJ do Porto fazem lembrar a célebre frase do Procurador-geral da República: o MP está cheio de duques e marquesas.
Curiosamente, não havia memória deste tipo de situações. Acho que tem de haver uma reforma urgente do estatuto do ME Pode ser útil nalguns momentos apostar em equipas especiais, muito personalizadas, mas naturalmente, e isso é humano, provocam-se protagonismos e maus entendimentos. As pessoas têm brio profissional e no MP isso sempre foi muito cultivado e é bom. É preciso rapidamente formalizar a especialização, torná-la num instrumento regular de funcionamento do ME Por outro lado, é importante a responsabilização, a prestação de contas a todos os níveis. Mas para isso temos de ter estruturas regionais ou centrais, com lideranças claras e a quem se possam pedir resultados. Num ou noutro caso pode ser compreensível a utilização de equipas excepcionais, mas se esse modelo se tornar muito regular, pode começar a dizer-se que estão a ser escolhidas pessoas específicas para determinado tipo de processo e isto pode reverter em desfavor da imagem de isenção e de objectividade do MP

Como é hoje o relacionamento do MP com a PJ?
Penso que não mudou muito. Estes episódios mais recentes são o resultado de uma menor contenção e uma maior inépcia de alguns elementos da PJ (mais a nível de topo). A questão continua a ser a mesma: saber se a PJ, como as outras polícias, aceita ou não a direcção do inquérito pelo MP

É uma polícia em roda livre?
É uma polícia sem inspecção, sem controlo externo.

Faz sentido magistrados integrarem a direcção da PJ?
Para manter este ambiente, penso que não. Quer se queira, quer não, a PJ está na dependência orgânica do Ministério da Justiça e o poder político, quando quer dar uma imagem de independência de certos lugares, vai buscar magistrados. Mas é apenas imagem: esses magistrados ficam subordinados ao poder político como quaisquer outros.

'PS é pior que PSD a lidar com a Justiça’

«HOUVE sempre uma perspectiva muito jacobina dentro do PS em relação às magistraturas. Temos de reconhecer que, fora Almeida Santos e Vera Jardim, foram os ministros do PSD quem lidou melhor com a independência do poder judicial», afirma António Cluny, em entrevista ao SOL. O presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público (MP) salienta ainda que o Governo de José Sócrates denota uma «acintosa falta de respeito pelas magistraturas», destruindo tudo o que tenha a ver com o respectivo estatuto sócio-profissional.Sobre as recentes 'guerrilhas’ no MP e na Polícia Judiciária, Cluny diz que é o custo a pagar pela nomeação sistemática de equipas especiais, defendendo antes uma alteração do estatuto do MP.

SOL | 08.03.2008 

Comentarios (12)add
... : LOT
Não concordo que o Presidente "vitalicio" do SMMP fale para "defender" a magistratura dos Tribunais.
O SMMP serve para defender os interessses socio-profissionais dos funcionários magistrados do MP, e não os juizes.
Mas é um belo truque...
11.Março.2008
... : atv
Quem me dera a mim que os sindicatos de todos os trabalhadores defendessem o poder judicial... Não entendo a repugnância de pessoas como o LOT que escrevem coisas do género que escreveu acima, insurgindo-se contra o sindicato do mp que, goste-se ou não do tal "presidente vitalício", tem tido intervenção activa no sentido de isto não estar ainda pior do que já está.
E quanto a ser um truque, como refere o mesmo LOT, qual é ele? Defender os interesses dos seus associados? Pensava que era para isso que serviam os sindicatos... pelos vistos, o LOT entende que o sindicato do MP não tem esse dever...

11.Março.2008
... : Mário Rama da Silva
Não concordo com LOT quanto à intervenção do Dr. Cluny.
É óbvio que o SMMP tem por objecto a defesa dos interesses profissionais dos seus associados mas parece cada vez mais claro que as associações profissionais não devem restringir-se ao seu escopo corporativo quando estão em causa interesses muito mais abrangentes, sob pena de serem, como é hábito, acusadas de mero corporativismo que, diga-se de passagem, considero legítimo.
É bom sinal que as associações, sempre que possível, defendam os interesses dos que, pertencendo embora a outra classe profissional, têm objectivos finais comuns: o funcionamento da justiça e dos Tribunais.
Mau é guerrearem-se preocupadas apenas com o seu quintal.
11.Março.2008
Apesar de não se inserir o conteúdo informativo que coloco, no tema presente, somente a título de contributo e ajuda para o Ex.mo Administrador da revista, pareceu-me uma notícia relevante, que demonstra de forma evidente e ridícula, o estado em que se encontra as condições de trabalho nos tribunais portugueses e por isso meu entendimento ser digna, de se divulgar neste fórum a noticia de hoje no jornal o Público.
Certamente será um bom motivo, para mais uma discussão aberta e livre neste ilustre fórum.
Bem-haja
11.Março.2008
... : Buffalo Springfield
Quer se goste ou não, António Cluny domina, como poucos, todas as questões da justiça, produz intervenções inteligentes e põe a nu a mediocridade e / ou as motivações relativas à política deste governo para a justiça.
Quanto à longevidade do seu mandato, parece-me que se deverá mais à falta de alternativas do que a uma vontade do próprio.

Quanto ao LOT, aconselho-o a desinfectar as mãos com álcool sempre que cumprimentar um não juiz, não vá ficar contaminado.

11.Março.2008
... : jesuah
Lamenta-se que o senhor Cluny
viva em terra nostra,pois
se vivesse nos states e
com estes afloramentos políticos ao "sol"
estava a um dedo da política e
quem sabe ...
no partido republicano ( não que seja diferente do democrata )
parece que são filhos da mesma mãe , mas, não do mesmo pai.

qt ao afloramento do senhor cluny aos tarefeiros e advogados pobres...
talvez o senhor cluny tenha algum norte...
podemos aceitar que possa haver advogados pobres,mas
já não se aceita que haja pobres advogados.

O senhor cluny até sabe
k os melhores k acabam direito não vão para o cej

..... a grande parte ingressa na advocacia



11.Março.2008
... : antónio
"Cada macaco no seu galho", em qualquer circunstância!
Nada tem a ver com classes ou corporativismo. É o país que ganhará!

12.Março.2008
... : ddd
A justiça não dá votos.
Os empresários ainda não perceberam que o MJ gasta pouco com os Tribunais e o MP.
A justiça está pior e assim vai continuar.
12.Março.2008
... : Buffalo Springfield
Os macacos que falem por si...
12.Março.2008
... : PRodrigues
Jesuha:

Não sei de onde é que tirou essa verdade sociológica dos melhores irem para a advocacia... só se for nestes últimos anos, pelo impedimento de ingressar no CEJ sem que decorram dois anos após a conclusão da licenciatura - e, mesmo nesse caso, tenho muitas dúvidas.

Do que me lembro, do meu curso, os "melhores" escolheram conforme lhes apeteceu (pelas mais variadas razões imagináveis): uns ficaram na faculdade; outros dedicaram-se à advocacia; outros foram para os registos e notariado; e, concederá, alguns terão ido para o CEJ...

Até acho que os "melhores", quando saem das faculdades, se não continuarem a aprender ao longo da carreira - seja na advocacia, seja na judicatura - serão sempre piores que os tais "piores" que ingressam(?) no CEJ.
12.Março.2008
... : v
Buffalo

Macaco era entre aspas.

Ai o português destes ps...
12.Março.2008
... : dre
jesuha

a qualidade da maioria dos advogados vê-se nos tribunais...

a credibilidade ouve-se no povo...

a fiabilidade vê-se nas declarações de IRS...
13.Março.2008
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