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Pinto Monteiro arrasa a lei que reduz os magistrados a funcionários públicos. Se a lei que equipara os magistrados a funcionários públicos avançar, Pinto Monteiro ameaça bater com a porta.
(...)
De tudo que tem dito, pode concluir-se que vai assumir o papel de garante da legalidade...
O MP é o garante da legalidade.
No passado não era esse o entendimento reinante...
Não falarei do passado. Há um hábito português de deitar as culpas para a pesada herança.
O encurtamento dos prazos de prisão preventiva originou a libertação de muitos arguidos, alguns deles sentenciados...
Vai
fazer alguma recomendação sobre esta matéria? Não sou adepto da prisão
preventiva exagerada. Não vou, agora, como procurador, defender aquilo
que nunca defendi na vida. Não vou dar nenhuma indicação sobre isso.
Nem com o alarme social que estas libertações causaram?
O
burburinho à volta desta questão foi excessivo. Não vou falar de casos
concretos, mas houve dois casos, que eu conheço, em que os presos não
deviam ter sido soltos. Foi uma má interpretação, feita por quem actuou
nesses processos.
Os magistrados reclamam que não têm meios para cumprir os prazos.
Essa
queixa é antiquíssima e eu não gosto de me queixar. Temos de fazer o
que podemos, com os meios que temos. Há um artigo que obriga a que seja
comunicado ao superior hierárquico, e ao PGR, que se excederam os
prazos. Eu dei instruções para isso se cumprir de forma faseada. Se
levássemos o artigo à risca, o DIAP tinha de fazer 30 mil ofícios,
porque tem 10 mil processos! Parava. O que não pode acontecer é um
senhor magistrado dizer, como disse, que não tem meios e, por isso, não
faz nada...
Qual foi a sua resposta a esse caso?
Respondi que devia ter um processo disciplinar...
Há magistrados que se queixam de usarem caixas de correio electrónico que demoram meia hora só para abrir...
Penso
que o Governo está a fazer um esforço sério, nessa matéria. A VISÃO, os
jornais todos, telefonam para aqui a pedir informações e eu nem sempre
as posso dar. Como é que posso saber quantos processos por
branqueamento há, se não tenho uma central de dados? Isso foi-me
prometido e acredito que será cumprido.
A dra. Cândida Almeida, directora do DCIAP, é das pessoas mais alarmadas com a entrada em vigor dos novos códigos.
Somos
amigos há 30 anos. O DCIAP tem os crimes maiores. É evidente que a
Operação Furacão, que envolve 400 sociedades, 2 milhões de documentos,
25 computadores para investigar... Isso leva tempo. Precisa de auxílio,
de informações do estrangeiro. Esse tipo de processos, como o Furacão,
vão ao ar... Não há dúvida.
O senhor pode dar alguma garantia de que esses processos terão um desfecho?
Vou
propor ao Governo que haja uma alteração de prazos, como vos disse. Sem
isso não garanto. A partir do momento em que se tenha acesso público ao
processo, todos os arguidos sabem o que fizeram os outros, e nunca mais
ninguém investiga coisa nenhuma.
Acredita que essa norma vai avançar?
Vai
prevalecer o bom senso. Para a criminalidade complexa, não há outra
solução. Ou se altera, ou pára tudo. Outro aspecto que a lei prevê é a
manutenção dos suportes técnicos, escutas, no caso dos processos em
aberto. Mas não diz nada quanto aos arquivados. Havia duas hipóteses:
ou seriam destruídas ou, como vai vingar, porque vou fazer uma
directiva, seriam conservadas. Por uma razão muito simples: o processo
pode ser reaberto. Com as garantias todas, entendemos que são de manter.
Nesse caso, voltando ao exemplo que deu da Operação
Furacão, as escutas que digam respeito a matéria arquivada serão
conservadas?
Até ao fim do inquérito, à cautela, porque há uma
jurisprudência das cautelas, serão mantidas. Sou um feroz defensor da
garantia de privacidade dos cidadãos, e não vou deixar de o ser.
Façam-se as escutas necessárias e indispensáveis, mas não se ande a
escutar por escutar. Se eu tiver a suspeita de que o senhor jornalista
cometeu um crime, eu posso escutar, mas não devo ouvir as conversas da
sua empregada a namorar, ou a pedir pizzas...
E isso aconteceu, no passado?
Os senhores leram
isso nos jornais, certamente... Curiosamente, vi com muito agrado que a
maioria da imprensa tratou bem o assunto das escutas.
Em algum momento se arrependeu de ter dito que suspeitava de que poderia ser escutado?
Não
vou falar mais sobre escutas, a não ser quando for aprovada a lei que
me foi «prometida». Mas não fujo à sua pergunta: não estou nada
arrependido. Disse exactamente aquilo que queria dizer. Houve três ou
quatro comentadores que não gostaram, que queriam que o procurador
falasse em latim. Também sei falar em latim, mas como defendo uma
justiça que o cidadão comum entenda, resolvi falar em português.
Se tem a suspeita de que pode estar a ser escutado, porque não mandou instaurar um inquérito?
Em
Portugal, há o hábito de se abrirem rigorosos inquéritos de que,
depois, nunca mais ninguém ouve falar. Eu sou contra inquéritos inócuos.
Levantou a possibilidade de o MP inspeccionar a acção da PJ...
O
procurador precisa de saber, em tempo real, quantas escutas são feitas
e a quem são feitas. Imagine que lhe dão três números para o senhor
escutar, o senhor não sabe a que processos se referem. Porventura,
nesses três números pode haver um que não diga respeito ao processo. É
possível viciar escutas.
Tem alguma indicação de que é isso que se passa?
Não tenho indicação nenhuma, pelo contrário. As pessoas que estão agora
na PJ, que eu saiba, estão acima de qualquer suspeita. Mas as leis têm
de prevenir de forma abstracta a hipótese de haver qualquer desvio da
legalidade.
Porque dá tanto enfoque à PJ, na questão das escutas, e não defende uma inspecção às operadoras telefónicas?
Sem
entrar em pormenores, no dia em que o procurador tiver poderes de
inspeccionar as polícias e quem ordena as escutas, automaticamente
controla as operadoras.
Na reunião com a cúpula do MP, que posição foi tomada sobre a proibição de os media publicarem escutas?
Ainda não tomámos posição. É uma questão muito duvidosa, que merece um estudo aprofundado.
E sobre o crime continuado?
Se o Governo alterar
a lei, não proporei nada. Quando recebemos a proposta de Lei, ainda no
tempo do dr. Souto Moura, o artigo 30.º já tinha a actual redacção...
Isso é estranho...
Não me pergunte como, mas já
tinha esta redacção. Vou fazer uma recomendação para que seja feita uma
análise factual cuidadosa do crime continuado. Há uma tendência
simplista para considerar sempre o crime continuado. É mais fácil,
porque não se tem de efectuar o cúmulo jurídico de 30 crimes. O que
peço ao MP é que faça essa análise rigorosa, sem juízos simplistas, mas
a última palavra é do juiz. A regra deve ser não se considerar sem mais
que o crime é continuado.
Essa é uma das garantias que pode dar de empenho no combate aos crimes de abuso sexual de menores?
O
crime continuado não se aplica só nesses casos. O que posso garantir
aos cidadãos é um empenho do MP no apuramento dos factos. O resto é
especulação jornalística...
Não é especulação que se reuniu com o ministro da
Solidariedade Social, na véspera de este mandar suspender o educador de
um lar da Casa Pia...
O senhor ministro manifestou interesse em falar comigo.
Sobre este assunto?
Não, embora tenha sido uma
conversa para abordar situações de crianças e jovens. Nunca comento o
teor de audiências, mas abro uma ligeira excepção, para dizer que o
Ministério pôs à minha disposição todos os meios e elementos
estatísticos e de pessoas de que eu precisasse e a que vou, de facto,
recorrer, na altura própria. Acho isto óptimo. Quando é para aplaudir o
Governo eu aplaudo, mas quando é para o censurar, também censuro.
Refere-se a quê?
Em todas as declarações que fiz,
até hoje, tenho dito que não está em causa a autonomia do MP. Mas,
neste momento, posso afirmar uma coisa diferente: começa a haver alguns
sinais de que pode estar em perigo a autonomia do MP. É a primeira vez
que faço esta afirmação.
O que é que o leva a sentir isso?
Para já, há uma
lei relativa ao Centro de Estudos Judiciários que não consigo perceber.
Muitos dos senhores deputados, individualmente, concordam. Mas a
verdade é que a proposta de lei não é alterada. O Governo pretende que
os candidatos às magistraturas façam a escolha desde logo, sem que
exista um período de aprendizagem comum, ou seja, o candidato escolhe,
sem saber o que escolhe. Deverá haver um período de 10 meses de ensino
comum, após o que os auditores conscientemente podem escolher. Esta
separação forçada pode significar a transformação do MP num corpo
administrativo e funcionalizado. É lamentável que isso aconteça agora,
quando em grande parte foi graças ao PS, ao dr. Almeida Santos, que o
MP teve a sua autonomia.
A prazo, em que é que se reflectiria essa perda de autonomia?
Reduzir,
a pouco e pouco, os poderes do MP, pondo-o num compartimento cada vez
mais pequeno. O vulcão, antes de explodir, faz uns ruídos. Ainda
estamos na fase dos ruídos e esperemos que o vulcão não rebente, mas há
sinais preocupantes, como é também o da lei que foi aprovada sobre o
vinculo à função pública dos magistrados.
Em que sentido?
A primeira vez que li aquilo
pensei que tivesse sido uma distracção do Governo, mas agora vejo, com
grande espanto, que, a prazo, pode pôr os magistrados ao nível dos
funcionários públicos. E isso é o fim da independência dos tribunais,
pois os funcionários públicos dependem da tutela ministerial. Já viram
o que seria um juiz dependente de uma tutela? Comecei a carreira com 23
anos e, até agora, nunca o poder político interferiu na minha carreira
de magistrado. Mesmo na época de Salazar e Vasco Gonçalves, nunca houve
nenhum político a interferir. Se puserem os magistrados como
funcionários públicos... a partir daí, recebem ordens, tal como o
funcionário das Finanças, que responde perante o seu chefe que, por sua
vez, reporta ao ministro. Não aceitarei ser um procurador-geral
dependente do poder político.
Quais as directivas que irá dar em relação à nova Lei de Política Criminal e à definição de crimes prioritários?
Ainda
não as escrevi, mas já tenho na cabeça as ideias essenciais. Será dada
prioridade absoluta, obviamente, aos processos com arguidos presos.
Depois, vou dar especial atenção à necessidade de se evitarem as
prescrições. A prescrição de um processo é péssima para toda a gente -
para a Justiça, para a vítima e até para o suspeito, pois este pode até
estar inocente, mas nunca se saberá.
Que crimes serão prioritários?
Os crimes mais
violentos, essencialmente em relação aos gangues que começam a aparecer
em Portugal. Depois, há uma série de opções pessoais a que vou dar
prioridade: violência escolar, violência nos hospitais e sobre os
idosos. Sei que há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação,
que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe.
Vou-me preocupar com cada caso de um miúdo que dê um pontapé num
professor ou lhe risque o carro. Não quero nem que haja um sentimento
de impunidade nem que esse miúdo se torne um ídolo para os colegas.
Quanto à escola, ao nível penal, deve existir tolerância zero. Mesmo
que seja um miúdo de 13 anos, há medidas de admoestação a adoptar. Se
soubessem a quantidade de faxes que eu recebo de professores a
relatarem agressões...
Quais vão ser, em 2008, as suas pedras-de-toque para o MP?
Gostava
de ver um MP mais ágil e menos burocrata. Mais activo e menos sentado
na cadeira, não esquecendo que o MP é uma estrutura hierarquizada e que
cada magistrado tem alguém um grau acima. Os procuradores não são
juízes! Os juízes é que são independentes. Um procurador-adjunto tem de
obedecer ao procurador-coordenador. E isso nem sempre tem acontecido.
(...)
REVISTA VISÃO | 22.11.2007
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