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Teresa Almeida, coordenadora da 9.º secção do DIAP. A magistrada, especializada em crime económico complexo e corrupção,
fala sobre os problemas e os estratagemas que permitem emperrar os
processos mais «quentes»
Quais são as dificuldades específicas, na investigação do crime económico?
O tipo de prova é completamente diferente e a crise internacional
revelou uma série de práticas novas, surpreendentes, que nunca tinham
sido estudadas pelos organismos de regulação, pelo que haverá
necessidade de actualizar alguns tipos de crimes.
E em que é que a lei pode ser limitativa da investigação?
Um exemplo: o crime de infidelidade, que, para além de ter moldura
penal muito apertada, é um crime semipúblico, em que o conjunto dos
accionistas de uma empresa tem de chegar a acordo para apresentar
queixa.
Um accionista, a título individual, não pode fazê-lo?
Não pode. É uma das matérias que devem ser repensadas. Por outro lado,
não há prova directa, nem arma do crime. Ninguém paga um favor com um
cheque. Quem negoceia com a preocupação de ocultar ilícitos, não têm as
casas ou os iates em seu nome… E têm contas em offshores, onde é
difícil chegar.
Difícil até que ponto?
Terei de perguntar, nalguns casos, a cada um dos paraísos fiscais se
tem alguma sociedade cujo beneficiário último é esse indivíduo… E pode
nem ser ele o beneficiário último. E esse beneficiário último pode ser
outra sociedade, sediada noutra offshore e assim sucessivamente.
Além dos offshores…
… Podemos ter a mala. É realidade mista que vai desde a clássica mala
de dinheiro, que pode levar 1 milhão de euros, e que dificilmente deixa
rasto, até essas situações mais sofisticadas.
Das centenas de processos que tem aqui, consegue estabelecer uma percentagem dos que envolvem offshores?
E raro o caso que não as envolve.
Existe um sentimento de frustração em torno dos megaprocessos há muitos anos sem desfecho…
Lidar com o crime financeiro e de corrupção não é, geralmente, uma
investigação de sucesso. Gostamos muito de nos apoucar em relação aos
colegas estrangeiros, mas contam-se pelos dedos as investigações lá
fora que chegaram a julgamento. Houve um grande escândalo com o «caso
Marbella», em Espanha, e onde é que está a condenação? 0 «caso
Siemens», na Alemanha? Idem, idem.
Como se explica isso?
O sistema financeiro foi-se autogerando e auto-armadilhando para que
seja muito fácil esconder o dinheiro e muito difícil encontrá-lo.
Quanto demora um processo complexo a chegar ao fim?
Muito. Mas temos reduzido o tempo. Lembro o caso Bragaparques,
inquérito que demorou cerca de um ano. 0 processo de corrupção na
Marinha também demorou, na fase final, pouco.
0 caso do BCP demorou mais.
Um ano e meio. Estivemos dependentes dos relatórios da supervisão que, provavelmente, não podia ter demorado menos.
E acompanham os efeitos das acusações em tribunal?
Somos nós que fazemos a instrução. E nunca tivemos uma única absolvição em julgamento.
Faz sentido haver uma fase de instrução tão demorada?
Temos instruções rápidas, de três a seis meses, e outras que demoram
mais de um ano. Algumas, tanto tempo quanto a investigação. Não faz
sentido que o processo penal tenha tanto formalismo, na fase de
investigação.
Há uma fronteira entre o legítimo direito de recurso e a litigância de má-fé?
Sim, quando se arranjam artifícios para motivar um recurso e impedir que o processo vá para julgamento.
A rápida resolução dos casos não interessa também à defesa?
Imagine um crime de infidelidade ou outro, de moldura penal pequena,
que prescreve ao fim de cinco anos… Interessa jogar na prescrição. No
caso do BCP: quando é que os factos chegaram ao conhecimento do
Ministério Público? Muitos anos depois do início dos factos se
iniciarem. Aliás, estes crimes aproveitam um sistema financeiro montado
para nos prejudicar a nós e favorecer o criminoso… Outras situações vêm
por inspecções administrativas, como foi o caso, nos CTT.
Quais são os expedientes clássicos a que as defesas recorrem?
Põem tudo em causa: que os factos não estão suficientemente
individualizados em relação a cada um dos arguidos, que as perícias não
são independentes, etc. Essas pessoas esquecem-se de que mais
importante que as perícias são os documentos que lá estão mesmo e que
constituem prova.
Para quem combate a corrupção, a lei actual é uma ferramenta ou um obstáculo?
Não acho que exista falta de leis ou de instrumentos legais. Há é falta
de meios humanos, não tanto no MP, mas nas polícias. Mas o grande
problema está no facto de, estando todos os documentos importantes
digitalizados e alojados em bases de dados, termos que os pedir por
ofício. Se as Finanças têm, em algumas situações, acesso directo a
contas bancárias, porque é que nós não havemos de ter?
VISÃO | 12.11.2009
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