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Mapa Judiciário: PGR prepara alterações criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
19-Mar-2008
Pinto Monteiro diz que tem de haver receptividade do Governo para aceitar as muitas propostas que vai receber. Primeiro-ministro afirma que se pretende experimentar e só depois progredir. Novo mapa preocupa agentes judiciais.

A resposta dos agentes judiciários à reforma do mapa dos tribunais, que ontem foi lançada pelo Governo, ameaça tornar-se num clássico em Portugal. Genericamente, não há quem concorde que são precisas alterações; especificamente, o modelo proposto merece a contestação de todos os envolvidos.O clima vivido ontem no Pavilhão de Portugal, em Lisboa, onde José Sócrates apresentou o mapa judiciário que quer lançar em fase de teste em 2009 - para três zonas do país - foi bem resumido pelo procurador-geral da República. Pinto Monteiro disse que uma reforma ao nível da Justiça é "uma necessidade, porque esta "não funciona bem", apelou mesmo a que os agentes não optem por uma "rejeição liminar" da lei. Mas pediu o mesmo ao ministro da Justiça "Tem que haver receptividade do Governo para aceitar as muitas propostas que vai receber".
Pela sua parte, o PGR promete entregar uma lista de alterações a fazer já em Abril. Mesmo numa postura de "serenidade", Pinto Monteiro não só propõe alterações ao nível do próprio Ministério Público, como uma preocupação específica "Vai implicar uma deslocação de pessoas, que pode complicar o acesso à Justiça. Vamos ver".
As preocupações, de resto, são partilhada por outros agentes. António Cluny, do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, mostra-se preocupado com a hipótese dos juízes virem a ser objecto de uma avaliação anual por parte do novo presidente dos 39 tribunais de comarca. "Dá ideia, perante a opinião pública, que o que se procura dizer é que essas entidades não trabalham o suficiente", atirou.

Independência em causa?
Pela parte dos magistrados do Ministério Público, a crítica é outra "É aprovar uma coisa sem saber o que está dentro", garante, explicando que o problema maior desta reforma trata da independência dos próprios juízes. É que, diz António Martins, só aguardando a versão final do diploma se pode saber se os poderes atribuídos ao juiz presidente e aos novos órgãos de gestão não vão interferir com os poderes jurisdicionais dos próprios juízes e com as competências do Conselho Superior da Magistratura (CSM), designadamente na possibilidade de redistribuir processos (afectaria o princípio do juiz natural), recolocar juízes dentro da comarca (violaria o princípio da inamobibilidade dos juízes) e propor inspecções extraordinárias (quando existe o CSM).
O tema é sublinhado ao JN por Rui Rangel, presidente do movimento Juízes pela Cidadania. "O juiz-presidente só deve ter competências administrativas, de gestão e de representação. Não pode interferir na deslocação de processos e de juízes", sob pena de "beliscar a sua independência".
Perante a iminência das críticas, o primeiro-ministro deu ontem a garantia de que a reforma respeitará "escrupulosamente a independência dos juízes e dos tribunais". Mas explicou que a sua reorganização "compete ao poder político". Só os próximos meses, com a discussão na Assembleia da República, poderão responder se a garantia de Sócrates recebe aceitação do sector - e se as sua preocupações terão aceitação pelo Executivo.

A reforma humilde [?!]
Para já, começam a discutir-se os pormenores da reforma nas três comarcas que vão arrancar com a reforma em 2009. Alberto Costa garantiu ontem que o novo modelo só avançará com mudanças ao nível da gestão informática dos processos, incluindo digitalização ao nível dos processos de primeira instância e dos actos dos juízes. Rui Rangel aceita que a modernização é imprescindível, mas sublinha que "é bom que se faça em todo o país", para que os resultados dos testes sejam comparados em igualdade de circunstâncias no final de 2010 - antes de a reforma se estender ao resto do país".
José Sócrates, de resto, fez as honras da casa ao garantir que o novo mapa judiciário é uma reforma "humilde, que pretende experimentar e só depois progredir", implicando "andar passo a passo" e alterar o que for preciso no fim do período de testes.
"Há reformas missionárias que, quando se descobre que piorou os resultados, já não é possível voltar atrás", disse o primeiro-ministro. Esta reforma, garantiu, não será assim.

Novos Procuradores
O desafio foi lançado por Conde Rodrigues, secretário de Estado da Justiça, na cerimónia de apresentação do mapa judiciário: "O Ministério Público poderá aproveitar para se reorganizar em função do movimento processual em cada comarca". Pinto Monteiro aceitou o repto: "O novo mapa implicará uma adaptação do MP (...) Os departamentos de Investigação e Acção Penal têm que ser reajustados", disse o PGR. Uma ideia em construção é que em cada comarca possa vir a existir um novo procurador coordenador, com poderes semelhantes ao do juiz-presidente, permitindo uma articulação entre os dois.

“Pode complicar o acesso à Justiça"
Há uma interrogação que se pode fazer desde já que é o facto de o novo mapa pressupor a deslocação de pessoas e magistrados que pode complicar o acesso à Justiça. Mas os operadores judiciários devem ter uma atitude de receptividade
Pinto Monteiro - PGR

“Um esqueleto sem carne e sem órgãos”
Parece difícil com os elementos contidos na proposta governamental ter uma opinião positiva ou negativa, na medida em que ela se assemelha a um esqueleto sem carne, sem órgãos. É como ter o esqueleto do edifício e não saber como vai ser preenchido.
António Cluny- Sind. Magistrados do MP

Nova organização
Passam a existir cinco distritos judiciais e 39 circunscrições de base, em resultado da agregação das actuais 231. O Tribunal de Comarca será constituído pela agregação dos actuais tribunais.

Maior especialização
O Tribunal de Comarca passa a desdobrar-se em juízos de competência genérica ou especializada, sendo ampliada a especialização em todas as comarcas.
Novo modelo de gestão Um presidente do tribunal, com funções de representação, direcção, gestão processual, administrativa e funcional, escolhido e nomeado pelo Conselho Superior de Magistratura; um administrador do tribunal, com funções de gestão, escolhido pelo próprio presidente do tribunal; e um Conselho de Comarca, com funções de participação e consulta e apoio ao presidente e ao administrador.

Processos a zero
Segundo o Governo, as experiências piloto que vão iniciar-se em 2009 terão o contador de processos a zero. Ou seja, os processos pendentes serão tratados à parte (separando juízes por velhos e novos processos), permitindo uma avaliação mais fidedigna dos resultados, dois anos depois.

Mais mobilidade
É a principal preocupação do sector. O novo juiz-presidente do tribunal terá competências para reafectar não só processos como os meios humanos. Magistrados e funcionários judiciais terão de se sujeitar a uma mobilidade, sem incentivos adicionais, o que preocupa até o PGR.

Informatização
Foi uma promessa solene do ministro da Justiça, ontem na apresentação da reforma: colocar os tribunais em rede, com a informatização de todo o sistema. Assim, a partir de Abril, as peças e documentos passam a ser entregues por via electrónica em todos os tribunais de 1.ª instância, no domínio de justiça cível. Em Setembro, será a vez dos actos dos juízes serem informatizados.

JORNAL DE NOTÍCIAS | 19.03.2008 

 

Comentarios (1)add
... : Um Juiz de novo crente
Contador de processos a zero ... hum, hum... isto faz-me lembrar a reforma dos TAF´s, sabem. Os Juízos Administrativos começaram com o contador a zeros porque, diziam os estudos da multinacional que se encarregou da questão, a procura dos juízos de competência administrativa seria tremenda. E os Tributários herdaram os milhares que havia nos TT de 1.ª Instância. Resultado: ao fim de um ano, os 2 Juízes Administrativos de Loulé tinham 50 processos cada um e o único Juiz Tributário tinham cerca de 1.000 processos. Contadores a zero, dizem eles ...
21.Março.2008
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