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António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do MP, a «O DIABO»: «O Governo está a pôr em causa o acesso de todos aos tribunais». Na sequência da aprovação de uma moção contra as
políticas do Governo para a Justiça pelo SMMP, António Cluny faz a «O
DIABO» um balanço crítico das reformas para o sector. Refere que a
proposta do mapa judiciário se trata, para já, de «um esqueleto sem
carne» e frisa que «em certa "esquerda "persiste uma pura visão
instrumental da lei e dos direitos».
DIABO
- Quais são as principais conclusões da moção aprovada pelo SMMP contra
aquilo a que consideram ser «as más leis e as piores reformas
legislativas» do Governo de José Sócrates?
ANTÓNIO CLUNY - Na nossa
opinião continua a existir um conjunto de leis processuais incapazes de
dar resposta justa às necessidades de celeridade e eficácia na lide
forense. Em vez de as simplificar e as articular com uma organização
judiciária que seja sua consequência, o Governo apenas tem, sobretudo,
vindo a privatizar a Justiça, aumentando-lhe os custos e pondo, assim,
em causa a garantia constitucional do acesso dos cidadãos aos tribunais.
O balanço que tem feito das reformas para o sector tem sido negativo. O que mais o preocupa neste momento?
A
falta de um pensamento estratégico que combine leis de processo,
organização judiciária e mapa judiciário e que tenha em vista
possibilitar aos cidadãos o exercício efectivo dos seus direitos. Se
ele existe é secreto e não parece que vá no sentido aqui proposto.
Uma das primeiras metas a que este Governo se propôs
foi a de aumentar a produtividade dos tribunais. Três anos depois, esse
objectivo foi conseguido?
Aumentar a produtividade não significa, no
essencial, tirar processos dos tribunais. Significa criar condições
legais e materiais para que magistrados e funcionários consigam dar
andamento e finalizar um maior número de processos. Isto não tem sido
feito.
Há cada vez mais, ano após ano, um sintoma de mal-estar e
tensão na Justiça. Os portugueses desejavam o contrário. Por que razão
não tem havido consensos no sector?
Para haver consensos é preciso
todos sabermos em que direcção se quer caminhar. É preciso clareza de
propósitos e transparência de métodos. Além disso é reciso criar
confiança com os diferentes interlocutores e não permitir que outros as
Finanças, por exemplo - incendeiem permanentemente o ambiente com
ataques despropositados e desprestigiantes para os estatutos dos
magistrados. É que, para além dos advogados, são eles que aplicam a lei
e têm, por isso, de ser mobilizados para as reformas.
«Novo-riquismo dispendioso e pouco eficaz»
Falta visão estratégica para a Justiça ou, como muitos dizem, os problemas passam, muitas vezes, pela famigerada falta de meios?
Como
disse, essa visão estratégica não é evidente e quanto aos meios parece
não haver também uma clara perspectiva sobre como, quando e onde os
dotar e utilizar. Em contrapartida parece haver, nesta matéria, um
certo novo-riquismo dispendioso e pouco eficaz.
Tivemos um Pacto de Justiça. Afinal, onde está ele?
Está onde o quiseram colocar: na disponibilidade.
Uma das ideias defendidas por este Governo é a de que hoje os tribunais estão mais descongestionados e informatizados. Concorda?
Basta
visitar um tribunal para ver que assim não acontece. Continua, além
disso, a haver uma total ineficácia na informatização. Ela passa pela
escolha de maus, desactualizados e incompatíveis programas informáticos
e, pior ainda, pela falta de dotação de aparelhos modernos e
compatíveis para os aplicar.
Disse recentemente que «o PS é pior que PSD a lidar
com a Justiça». A Justiça é mais mal amada à esquerda que à direita?
Qual é o problema?
É, afinal, a falta de uma generalizada verdadeira
cultura democrática de respeito pela lei. Em certa «esquerda» persiste,
além do mais, uma pura visão instrumental da lei e dos direitos. Há
também muita gente que continua a não querer assumir que a lei é igual
para todos, mesmo para os que mandam. É uma questão de jacobinismo mal
digerido. Na direita também acontece, mas, por motivos circunstanciais,
tem sido uma certa «esquerda», agora mais jacobina do que já
verdadeiramente socialista, que, em Portugal, tem dado o flanco.
Hoje a Justiça está cada vez mais longe dos
cidadãos? A ideia de que continua a haver «Justiça para ricos e Justiça
para pobres» faz sentido?
A Justiça é concebida pelos homens e pelos
homens que detêm o poder. Quando a evolução política da sociedade
caminha para o acentuar das desigualdades sociais - como hoje acontece
no nosso País - é natural que as leis reflictam esse percurso. A
«Justiça» é um conceito amplo e vago. Reúne os que fazem as leis e os
que as aplicam. Estes estão condicionados pelas leis e pelos meios que
existem para as aplicar. Aqueles, muitas vezes demagogicamente,
atribuem-lhes depois as culpas. No final, até por que são os tribunais
que, no, caso, concreto, dão a cara, acabam por ser estes órgãos os que
os cidadãos responsabilizam pelas leis iníquas.
Como analisa a reforma do mapa judiciário?
Para
já trata-se de um esqueleto sem carne. É preciso conhecer-lhe todo o
organismo para ter uma visão exacta da sua valia. Parece, em todo o
caso, pouco curial que os mapas dos tribunais administrativos, julgados
de paz e sistemas de mediação não tenham sido pensados em conjunto com
o dos tribunais judiciais. Além disso, o proposto sistema de governo
dos tribunais parece pouco adequado à sua realidade compósita e
complexa, o que irá determinar conflitos desnecessários, mas que se
reflectirão na qualidade dos serviços prestados. Por esta vez estou de
acordo com o Bastonário.
Os magistrados do MP estão numa autêntica luta no que respeita ao regime de carreiras. Quais são as vossas principais críticas?
Neste
momento as Finanças resolveram, sem qualquer fundamento legal
aceitável, esbulhar o grosso dos magistrados do equivalente
remuneratório ao tempo correspondente a dois anos de carreira. Não se
trata já de congelar, por motivos circunstanciais, os pagamentos
correspondentes durante dois anos, como aconteceu com toda a Função
Pública, trata-se de, definitivamente, capturaresse tempo de serviço
prestado. Pode parecer um escândalo, mas é o que acontece.
O estatuto socioprofissional dos magistrados está a ser violado? Em que medida?
Na
medida em que nada permite ao Governo fazer aquele esbulho que coloca
magistrados em posições distintas conforme já tenham toda a antiguidade
ou estejam a iniciara carreira. São apenas os do meio - a fatia grossa
- os que serão sacrificados.
MP: «falta de verdadeira formação permanente»
O
Procurador-Geral da República sempre defendeu, desde a sua posse, a
necessidade de uma maior organização do MP. Quais são, hoje, os
problemas que existem no MP em termos de funcionalização?
Falta de
verdadeira formação permanente. Especialização. Organização adequada a
essa especialização. Enfim um modelo de carreira adequada às funções
constitucionais, que alicie os melhores, que assente na vocação
progressiva por áreas funcionais determinadas, no empenhamento
colectivo e responsável e numa justa progressão e retribuição.
Por fim, como analisa o grito de alerta lançado nos
últimos meses na sociedade portuguesa sobre a corrupção? É mais
alarmismo do que realidade preocupante?
Antes de se encher a boca
com «slogans», importa fazer um trabalho de casa adequado. É isso que o
Conselho Superior do Ministério Público já começou a fazer. Depois
falamos. Sem esse estudo podemos correr o risco de estar sempre a
gritar pelo lobo e quando ele vem a sério já ninguém nota.
O DIABO | 18.03.2008
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