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Magistrados e polícias estão indignados com as declarações do
procurador-geral da República em entrevista ao Sol, e pedem a sua
demissão. O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (MP) vai
tomar uma posição nos próximos dias, através de - comunicado. Pinto
Monteiro acusou ontem o MP de ser "um poder feudal - de condes,
viscondes e marqueses que não cumpre a lei" e admitiu ter o telefone
sob escuta, confessando não garantir que a Polícia Judiciária não ande
em "roda livre".
Entre os magistrados do Ministério Público (MP)
pede-se a demissão do procurador-geral da República (PGR), posição
partilhada também por vários inspectores da Polícia Judiciária (PJ) e
juízes contactados pelo DN. Em causa, uma entrevista de Pinto Monteiro
ao Sol, em que admite poder ter o seu telemóvel sob escuta e onde acusa
o MP de ser um "feudo de condes, viscondes e marqueses", acrescentando
não garantir que a PJ não ande em "roda livre". O Sindicato dos
Magistrados do MP (SMMP) vai emitir um comunicado nos próximos dias,
apurou o DN.
"Lamentável", assim classificou a entrevista um
magistrado do MP que, por razões óbvias, pediu para não ser
identificado. Lembrou este procurador que Pinto Monteiro é o
responsável máximo pelo cumprimento da legalidade em Portugal, não
podendo, por isso, permitir-se pensar que o seu próprio telefone esteja
sob escuta. "Não se trata de um cidadão comum, que no café diz: ‘acho
que o meu telefone está sob escuta. Sinto uns ruídos no aparelho.’
Para
aquele magistrado, é inadmissível que seja o próprio PGR a admitir a
existência de escutas ilegais, já que não há notícia de que seja
suspeito de um crime. Lembrou, a propósito, que quem autoriza as
escutas é o juiz, a pedido de um magistrado do MP, cabendo às polícias
realizá-las. Assim, perguntou: "Sobre quem o PGR quis lançar suspeitas?
Sobre os juízes, sobre os magistrados do MP, sobre o órgão de polícia
criminal ou sobre uma qualquer entidade dependente do poder político?
Para
o PGR, o MP, na prática, não cumpre a lei porque não respeita a
estrutura hierárquica que o define. "O MP é um poder feudal de condes,
viscondes, marqueses e duques", disse. A fonte do DN, lembrando que
Pinto Monteiro é o responsável máximo pelo MP, pergunta: "E ele é o
quê, um rei sem poder?"
Sobre as intercepções, afirma o PGR: "Eu
próprio tenho muitas dúvidas de que não tenha telefones sob escuta." E
acrescenta: "Penso que tenho um telemóvel sob escuta. Às vezes faz uns
barulhos esquisitos."
Interpelado sobre se consegue assegurar, como
titular da acção penal, que as polícias não andam em roda livre, disse:
"Não, não consigo garantir. Não tenho controlo sobre elas." Juízes,
magistrados do MP e polícias serão os que ainda permanecem fora do
controlo do PGR, pois, na entrevista, garante que já acabou com o
sentimento de impunidade.
Classificando "a falsa modéstia a pior das
vaidades", afirmou, referindo-se à sua nomeação: "Considero que fizeram
uma boa escolha, pois sempre fui um bom juiz e um homem que nunca teve
medo de ninguém." E garantiu que a "este PGR nunca ninguém deu nenhuma
instrução, nem meteu uma cunha".
O presidente da Associação Sindical
dos Funcionários de Investigação Criminal, da PJ, Carlos Anjos,
defendeu, em declarações ao DN, que Pinto Monteiro deveria submeter o
telemóvel a um exame pericial, lembrando que ele é o responsável máximo
pelo cumprimento da legalidade.
O presidente da Associação Sindical
de Juízes Portugueses (ASJP), António Martins, recordando que as
escutas telefónicas têm de ser autorizadas por um magistrado judicial,
levantou a questão de saber se o PGR estaria a falar a sério ou a
brincar.
João Palma, do SMMP, admitiu ter lido "atentamente" a
entrevista, mas recusou-se a fazer comentários, tal como a maioria dos
magistrados contactados pelo DN.
O Ministério Público é uma estrutura hierarquizada.
É assim que está na lei. Mas não é assim na prática. O Ministério
Público é um poder feudal. No MP há o conde, o visconde, a marquesa, o duque.
Acho que as escutas são feitas exageradamente. Tenho dúvidas de que eu próprio não tenha telefones sob escuta.
Não me venham com os meios. Isso é uma questão velha. Temos de viver com os meios que temos
Pinto Monteiro - PGR
O PGR é o responsável máximo pela acção penal. Temos de saber se está a falar a sério ou a brincar
António Martins. Associação Sindical dos Juízes Portugueses
O PGR deveria submeter os seus telefones a exames periciais. Ele é o garante da legalidade em Portugal
Carlos Anjos - Sindicato da PJ
Escutas só com ordem do juiz
As escutas só acontecem depois de o juiz deferir o pedido do Ministério Público.As intercepções telefónicas são um meio de obtenção
de prova que só pode ser realizado com ordem ou autorização prévia do
juiz de instrução, por proposta do Ministério Público, e apenas no
âmbito de um processo sobre crimes punidos com prisão superior a três
anos. São realizadas sobretudo pela Polícia Judiciária, mas também pela
PSP, GNR e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) nos crimes para
os quais têm competência de investigação. A lei só estabelece
requisitos especiais para as escutas entre o advogado e o seu
constituinte, exigindo para a intercepção dessas conversas que o
próprio advogado esteja sob suspeita de ter cometido um crime. Assim,
até os ministros, os membros do Conselho de Estado ou o Presidente da
República podem ser alvo de escutas, desde que estejam sob investigação
por crime punido com prisão superior a três anos.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 21.10.2007
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