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O concurso aberto a magistrados para trinta vagas nos Tribunais
Administrativos e Fiscais, como juízes, teve uma adesão massiva de
procuradores-adjuntos do Ministério Público (MP), aliciados por
aumentos líquidos de ordenados na ordem de mil euros. Nos
próximos meses vão 48 candidatos para a formação no Centro de Estudos
Judiciários e só o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de
Lisboa fica sem 11 procuradores. Deixam mais de 5000 processos parados,
levando o DIAP à iminência de colapso.
Cada um destes 11 magistrados
ao serviço do DIAP de Lisboa, e que estão já de saída na perspectiva de
um aumento salarial, tem actualmente a seu cargo mais de 400 processos,
apurou o CM. Sete dos quais coordenam investigações em secções
genéricas, de combate a crimes globais; uma deixa a secção
especializada na investigação de homicídios: mas a maior preocupação
está na saída de três procuradores da 9.a secção, metade dos
magistrados que ali trabalha, sob a liderança de Teresa Almeida. no
combate à criminalidade económica e corrupção.Sérgio Pena, Inês
Bonina e José Lopes Ranito tinham em mãos processos que correm agora
sérios riscos de ficar parados, devido à ambição de melhores condições
de carreira na magistratura judicial. Estão nesse lote os casos de uma
complexa investigação às práticas dos últimos anos dentro do Banco
Comercial Português e os 19 inquéritos relacionados com a Câmara
Municipal de Lisboa.
Ao todo, e apenas tendo em conta o DIAP de
Lisboa, são cerca de 5000 processos parados, até ao dia em que sejam
redistribuídos pelos cerca de 40 colegas que resistiram a enveredar
pela carreira de juízes já de si sobrecarregados com uma média de 400
processos cada um - ou até o Conselho Superior do MP conseguir novos
procuradores para preencher estas 11 vagas. Só que nesse caso
levanta-se mais um entrave: um procurador-adjunto é obrigado a
trabalhar sete anos em comarcas do País antes de poder ingressar no
corpo do MP dos DIAP de Lisboa. Porto ou Coimbra.
O Ministério da
Justiça, em 14 de Janeiro, abriu um concurso excepcional - trinta vagas
nos Tribunais Administrativos e Fiscais do País, nas funções de juiz. O
ordenado ronda os 3000 euros líquidos, não representando um acréscimo
para magistrados que já sejam juízes de carreira ou procuradores da
República. Só que os ordenados dos procuradores-adjuntos, com menos
tempo de funções, rondam os 2000 euros - daí serem só estes a concorrer
em massa.
Entre largas dezenas de candidatos foram admitidos 48
magistrados no Centro de Estudos judiciários - a lista foi publicada em
Diário da República em 20 de Fevereiro e, desde o último dia 2, está na
página do Centro de Estudos judiciários na Internet. Uma vez que já são
magistrados, vão apenas fazer, nos próximos meses, um curso
especializado nas áreas fiscal e administrativa. No final, saem trinta
novos juízes e os 18 que não forem aprovados regressam à carreira no MP.
António Cluny fala na falta de possibilidade de progressão
O presidente do Sindicato dos Magistrados do
Ministério Público (SMMP), António Cluny, não está surpreendido com a
"debandada" de procuradores, explicando que a novidade é que agora "o
Ministério Público [MP] não está a conseguir fixar quadros também na
primeira instância". "Muitos dos melhores quadros do MP a nível
superior há muito que passaram para o Tribunal Constitucional, de
Contas ou Supremo Tribunal de Justiça", explica o magistrado,
acrescentando: "É o resultado visível de duas coisas: falta de
condições e de reconhecimento do trabalho e bloqueamento da carreira no
Ministério Público." Para Cluny, "é importante dar atenção ao que se
está a passar", até porque, avisa, "se houvesse outras possibilidades,
maior seria a saída": "Há um mal-estar no seio do MP que resulta de
várias situações exteriores."
Carência de magistrados
A Procuradoria-Geral da República (PGR) alega que
"ainda não é certo que todos esses magistrados vão ocupar lugares como
juízes dos Tribunais Administrativos e Fiscais", mas admite que as
vagas nos serviços do Ministério Público "terão de ser preenchidas,
designadamente, com o aumento de quadros", adiantou ao CM fonte do
gabinete de Pinto Monteiro. Certo é que esta situação vai agravar ainda
mais a "carência de magistrados com a categoria de procurador-adjunto",
diagnóstico traçado no último relatório anual da PGR, referente ao ano
de 2006. A resposta para a falta de magistrados foi a atribuição de
serviço em regime de acumulação ou destacamento e, em algumas comarcas,
a nomeação de licenciados em Direito como substitutos do
procurador-adjunto. No final do ano de 2006, o quadro de magistrados do
Ministério Público era integrado por 1388 procuradores: 155
procuradores-gerais-adjuntos, 394 procuradores da República e 839
procuradores-adjuntos.
Saiba mais
11 Dos magistrados do MP que concorreram a lugares
de juízes pertencem ao DIAP de Lisboa, coordenado por Maria José
Morgado, e têm importantes investigações em mãos, designadamente
inquéritos à Câmara de Lisboa. 9ª Secção do DIAP de Lisboa, destinada à investigação da, criminalidade económica, pode perder três dos seis magistrados.
Leis Penais
A salda de procuradores do
Ministério Público acontece numa altura em que os magistrados estão
confrontados com prazos substancialmente mais curtos para as
investigações, na sequência das novas leis penais.
Câmara e BCP
As investigações ao BCP e os 19
inquéritos em curso à Câmara Municipal de Lisboa são alguns dos casos
mais complexos que estão entregues à 9ª secção do DIAP de Lisboa,
coordenada por Teresa Almeida.
Editorial de Eduardo Dâmaso - "Mil euros de justiça"
A saída de quase 50 procuradores do Ministério
Público para a carreira de juiz, onde vão ganhar mais mil euros, é um
retrato implacável da falta de algumas das reformas que importa fazer.
Esta debandada deixa o DIAP de Lisboa com menos 11 procuradores e
destapa com todo o fragor o grave e arrastado problema da carreira do
Ministério Público que há anos permanece insolúvel. É há décadas uma
carreira afunilada, apenas com três níveis de progressão (procurador,
procurador adjunto e Procurador-geral adjunto) que não deixa
perspectivas de valorização remuneratória e profissional na primeira
instância. Esta fase, que é decisiva quer para a carreira dos
magistrados quer para a eficácia da investigação criminal, é aquela em
que se torna decisivo valorizar o mérito e o trabalho. É nesta fase que
é decisivo saber se se quer formar magistrados de elite, bem preparados
e bem pagos, para casos de elite que são aqueles que envolvem
corrupção, alta criminalidade financeira e violenta, ou se é para
continuar tudo ronceiramente, mais ou menos tal como está. Este é o
momento decisivo para saber se o Ministério Público vai sair de uma
organização datada ou se quer acompanhar os tempos. E é essa
clarificação que deve ser exigida ao Governo mas também aos restantes
partidos - porque não é indiferente para a credibilidade de ambos saber
o que pensam sobre esta matéria. Esta justiça de mil euros tem de
acabar sob pena de um dia destes acabar o próprio Estado de Direito
CORREIO DA MANHÃ | 10.04.2008
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