 «Por interesses económicos e políticos imediatos, por
intempestivo e oportunista jacobinismo, por falta de consciência
cívica, por mercenarismo jornalístico ou até por complexos psicológicos
e sociais vários, os discursos sobre a Justiça, os tribunais e os
magistrados têm sido, voluntária, insistente e conscientemente,
corrosivos e dissolventes. Quer denegrindo e usando da intriga em relação à
acção dos magistrados quando as suas decisões lhes não convêm, quer
pretendendo fazer assimilar a ideia de que o seu estatuto deve ser
igual ao dos normais funcionários, todos esses discursos se conjugam
para reduzir-lhes a dignidade própria da sua específica função,
coarctar possibilidade de independência e autonomia reais dos
magistrados e assim a autoridade moral e simbólica de que necessitam
para fazer respeitar, em qualquer caso, a lei e o direito.Não calculam, porém, os menos-mal intencionados dos
seus autores os demónios que estão a levantar e os riscos que estão a
fazer correr à Democracia».
UM DISCURSO CRÍTICO, SERENO E RESPONSÁVEL SOBRE A JUSTIÇA PRECISA-SE
Editorial 43 do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público
1. Muito se falou e muitos – porventura demasiados – têm falado nos últimos tempos sobre a Justiça.
Alguns, mesmo os mais responsáveis, parecem,
ultimamente, ser movidos apenas por um incontrolável desejo de
protagonismo fácil e chega a ser delicado encontrar explicações
racionais para alguns dos seus discursos e intervenções.
Outros limitam-se a reflectir ideias feitas, quando
não as inventam e propalam como se fossem verdadeiras. Atente-se na
suposta crítica ao Ministério Público do Porto, alegadamente contida
num despacho de uma magistrada da «equipa Morgado», que, lido e relido,
nada refere a esse propósito.
Todo este ruído em torno da Justiça dos seus erros
verdadeiros e falsos e dos erros prováveis e improváveis dos seus
responsáveis e profissionais não é, como poderia parecer, inadvertido
ou desprovido de sentido.
Desvia as atenções dos portugueses dos verdadeiros
problemas que assolam o País e, à cautela, põe em causa a legitimidade
do sistema judicial, insistindo em desacreditá-lo, num momento em que
decorrem importantes processos na fase de investigação e julgamento.
2. Quem tiver lido o artigo de Paulo Rangel no
último número da revista Atlântico compreenderá melhor quais as razões
desta tentativa de atordoamento da opinião pública e dos cidadãos
relativamente ao funcionamento da Justiça e ao papel que na nossa
sociedade desempenham os magistrados.
Defende Paulo Rangel que sem os tribunais e os
magistrados que temos – com as suas imperfeições reais, mas, no
essencial, sérios e respeitadores do seu estatuto de independência e
autonomia – a sociedade portuguesa teria, de há muito, resvalado,
definitivamente, para níveis de instabilidade política, moral e cívica
que não podemos sequer imaginar.
Não é, de facto, por acaso que, apesar da constante
preocupação na divulgação de estudos de opinião altamente críticos da
Justiça que temos – e que alguns querem, de imediato, associar,
exclusivamente, ao desempenho dos magistrados – que os cidadãos
portugueses continuam a socorrer-se dos tribunais, preferindo-os, em
todo ocaso, à intervenção dos «tecnocráticos boys» que pontificam,
agora, nos chamados meios «alternativos» de resolução de conflitos.
Tal facto, indesmentível, evidencia, em todo o caso,
a opinião que os cidadãos têm dos tribunais, dos magistrados e dos
outros órgãos poder e meios de resolução de conflitos deles
dependentes.
Ora, parece ser essa resistente autoridade social
dos Tribunais, a legitimidade das decisões dos magistrados, enfim, a
autoridade da lei, da Justiça e a crença na viabilidade de um Estado de
Direito baseado na separação de poderes, que muitos temem e querem, por
isso, comprometer e desgastar.
3. Por interesses económicos e políticos imediatos,
por intempestivo e oportunista jacobinismo, por falta de consciência
cívica, por mercenarismo jornalístico ou até por complexos psicológicos
e sociais vários, os discursos sobre a Justiça, os tribunais e os
magistrados têm sido, voluntária, insistente e conscientemente,
corrosivos e dissolventes.
Quer denegrindo e usando da intriga em relação à
acção dos magistrados quando as suas decisões lhes não convêm, quer
pretendendo fazer assimilar a ideia de que o seu estatuto deve ser
igual ao dos normais funcionários, todos esses discursos se conjugam
para reduzir-lhes a dignidade própria da sua específica função,
coarctar possibilidade de independência e autonomia reais dos
magistrados e assim a autoridade moral e simbólica de que necessitam
para fazer respeitar, em qualquer caso, a lei e o direito.
Não calculam, porém, os menos-mal intencionados dos
seus autores os demónios que estão a levantar e os riscos que estão a
fazer correr à Democracia.
4. Sente-se já e demasiado forte, na nossa
sociedade, um cheiro a podre. Um cheiro que nenhuns modernismos e
simplificações informáticas podem iludir.
Querem, por isso, alguns, para disfarçar, fazer
parecer podre, também, o que, no essencial, ainda se mantém são,
generalizando críticas, confundindo responsabilidades, os erros de uns
poucos e os defeitos de outros tantos com o comportamento cívico e
moral geral da maioria dos magistrados e a acção permanente – mesmo que
morosa e difícil – da Justiça e dos Tribunais.
Convenhamos, também, que alguns magistrados,
advogados e responsáveis de instituições judiciárias não têm ajudado
muito com as suas recentes intervenções públicas a prestigiar e
dignificar o papel da Justiça, os lugares que ocupam, os colegas com
quem quotidianamente trabalham e o seu próprio e concreto desempenho.
Muitos deles são, contudo, os que já têm ou
pretendem ter um pé fora das profissões jurídicas e optaram ou
aguardam, proximamente, por um lugar noutros postos mais proveitosos,
menos responsabilizantes e de maior visibilidade política e social. Os
seus discursos judiciários são passes para outras vidas.
5. Procurar, serenamente, discernir nos discursos
críticos – sempre e cada vez mais necessários – o que é um contributo
positivo e genuíno para o melhoramento das instituições e da sua
prestação pública (como foram, por exemplo, os do anterior Presidente
da República e têm sido os do actual) e o que é, apenas, propaganda e
manipulação da opinião, produzidas por agências de comunicação ou
gabinetes de gestão política de notícias é, por isso, fundamental.
Descobri-lo e denunciá-lo é difícil, é perigoso, mas
é necessário e urgente, se queremos salvar a Democracia e o Estado de
Direito.
Nesta guerra – e é de uma guerra civilizacional que
se trata – devemos todos estar empenhados: políticos sérios,
profissionais da justiça responsáveis, jornalistas corajosos,
comentadores argutos e simples cidadãos conscientes e participativos.
É que é da nossa vida, da nossa sociedade, do nosso País que se trata.
SMMP.PT | 11.02.2008
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