|
António Cluny, presidente do SMMP, faz balanço do II Fórum do MP:«Nunca houve no MP uma modernização financeira ajustada»;«A falta de meios tem sido um dos grandes causadores do entorpecimento do sistema de Justiça»;«Só 4 por cento dos candidatos ao CEJ enveredam pela carreira no MP».
DIABO - Qual o balanço que faz do II Fórum do
Ministério Público (MP) e em que foi divulgado um Manifesto de aspectos
«graves» que preocupam os magistrados?
ANTÓNIO CLUNY - O facto deterem estado mais 300 magistrados neste Fórum
revela uma preocupação muito grande com os problemas que quisemos
tratar. A ideia deste Fórum mais do que encontrar culpados e
responsáveis, passou essencialmente por revelar, com muita verdade e
alguma crueza, a situação de funcionamento do MP.
A ideia que ficou foi um retrato negro do Ministério Público…
Creio que esse retrato ficou bastante claro com as intervenções dos
meus colegas das diversas direcções distritais - Porto, Coimbra, Lisboa
e Évora - e creio que este é um contributo muito importante para que o
poder político e a Assembleia da República possam mostrar - numa altura
em que se está a discutir o mapa judiciário que é possível encontrar
soluções apropriadas à situação que descrevemos. Se conseguirmos isso e
espero que seja possível, acho que o Fórum atingiu plenamente os seus
objectivos. Em todo o caso nós temos agendado para o último trimestre
de 2008 um congresso extraordinário onde iremos avaliar e tomar posição
sobre as medidas entretanto preconizadas pelo poder político sobre
estes problemas e aí faremos um balanço.
O que está em causa, afinal?
No fundo o que está em causa não é uma acção governativa de dois ou
três anos, mas sim uma situação que decorre pelo menos desde que o
Ministério Público se transformou numa magistratura autónoma. Embora
reconheçamos que é difícil resolver tudo de uma vez, entendemos, por
outro lado, que é necessário programar a resolução desses problemas,
sobretudo, os mais urgentes e gritantes. Muitos dos problemas que
afectam o MP não são de hoje, já remontam, pelo menos, desde que o MP
se constituiu como magistratura autónoma depois do 25 de Abril. Muitos
são culturais, outros são de natureza interna, mas outros há cuja
solução está apenas ao alcance da vontade de quem, dentro e fora do MP,
os pode resolver.
«E preciso que os magistrados tenham os instrumentos necessários para poder trabalhar»
No manifesto do SMMP conhecido no II Fórum do MP reclama-se iniciativas
do poder político para dar resposta aos «graves problemas» do MP. Quais
são?
Desde já criar mecanismos que tornem a carreira das magistraturas mais
apetecível e mais interessante de modo a que não haja só 4 por cento de
candidatos no Centro de Estudos Judiciários que enveredem pela carreira
no MP. Depois, é essencial que não haja uma elevada expressão - ao
nível da primeira instância e dos restantes tribunais - de vontade de
saída de magistrados. É fulcral pensar uma dotação em termos materiais
do MP com os instrumentos necessários ao exercício das suas funções.
Ficou muito claro no nosso Fórum que nem os sistemas informáticos são
suficientes e eficientes nem permitem sequer o cumprimento das funções
que nos competem.
Nessa matéria também faltam os incentivos que o Procurador-Geral da República sublinhou em relação ao MP?
Passa por tudo. Mas para nós há duas questões principais. Uma que é
tomar a carreira mais ágil, interessante e mais exigente do ponto de
vista do próprio mérito, da formação permanente e da especialização.
Mas não basta fazer isso, é preciso que os magistrados tenham os
instrumentos necessários para poder trabalhar. Conjugar estes dois
aspectos é, para nós, a questão essencial.
Uma das situações preocupantes é cada vez mais o
facto de as pessoas se estarem a afastar do MP. O poder político tem
sido algo insensível a esta questão?
O problema é que essa é uma questão cultural. Desde o 25 de Abril que
se criou uma magistratura autónoma mas sempre se pensou o MP como se
ele fosse ainda a magistratura vestibular do antigamente. A verdade é
que as funções do Ministério Público são muitas, a necessidade de
intervenção em áreas muito complexas é também cada vez maior e nunca se
conseguiu pensar que, para pôr este sistema a funcionar, era necessário
meios e programar a dotação desses meios: a sua actualização,
modernização, a assistência permanente, uma programação de quadros e
uma programação financeira. Dou-lhe um exemplo. Sempre que as Forças
Armadas fazem uma modernização, esta é acompanhada por uma modernização
financeira ajustada. No MP isso nunca foi feito. Mas esta tem sido uma
pecha de todos os governos.
«O MP não vive isolado do resto do País nem da sociedade»
80 por cento dos magistrados do distrito de Lisboa estão contra o mapa
judiciário. Isto revela a grande fragilidade desta reforma?
Para nós a reforma só tem sentido se a cada uma das circunscrições
corresponder um núcleo de excelência de serviços capazes de dinamizar e
tornar mais célere e eficaz o funcionamento dessas novas
circunscrições. Só tem sentido reorganizar o mapa se isso corresponder
a uma reclarificação dos meios de trabalho, seja a nível de perícias,
de traduções ou de todo um conjunto de serviços de apoio que até agora
não tem existido. Se isso não acontecer então isto é apenas um
redesenho do mapa que poderá ter benefícios mas terá de alguns
malefícios e, entre uns e outros, não há compensação nenhuma. Para
haver uma mais-valia era necessário dotar estas circunscrições com
meios que até agora têm faltado ao sistema e que tem sido no fundo os
grandes causadores do entorpecimento do sistema de Justiça.
Analisando as conclusões que saíram deste Fórum fica
a ideia de haver um grande mal-estar no interior do MP. A crise do MP é
também o espelho da crise da Justiça?
O MP não vive isolado do resto do País nem da sociedade. Não só é
verdade como no nosso caso consideramos que a crise é, de algum modo,
mais grave porque é mais desacompanhada e menos amparada. Ou
conseguimos inverter essa situação ou um dos pilares do funcionamento
judicial ficará absolutamente descurado.
Pinto Monteiro considera: Crise na justiça não pode servir para limitar acção do MP
O Procurador-Geral da República (PGR), Pinto Monteiro, disse Fórum do
MP que os códigos aprovados não estão de acordo com a realidade e
avisou que a crise na justiça não pode ser pretexto para se limitar a
acção do MP. Se há quem saia especialmente prejudicado com a crise dos
cidadãos em relação à justiça é o MP. O PGR considera que o sentimento
de descrença apenas legitima os Governos a introduzir condicionalismos
à instituição. «Hoje os ventos não correm favoráveis ao MP na Europa. O
poder executivo sente-se legitimado nos países da Europa para
introduzir limitações ao poder judicial, neste caso ao MP. A
legitimação advém do descontentamento do cidadão perante a justiça»,
observou. Pinto Monteiro acusou também o Parlamento de legislar
compulsivamente sem medir as consequências e frisou que «a Justiça
atravessa uma crise de identidade, definição e eficiência, o que advém
da desadequação das leis aos tempos novos».
Conclusões do inquérito apresentado no Fórum do MP
No II Fórum do MP, os magistrados do MP mostraram-se descontentes com a
carreira e condições de trabalho, sentem-se tratados de forma desigual
em relação à magistratura judicial e exigem mudanças breves,
designadamente a revisão do seu Estatuto.
Segundo o levantamento, 90 por cento dos inquiridos garantem que o
quadro de funcionários e de procuradores é insuficiente e têm uma
opinião muito negativa sobre a revisão do Código de Processo Penal.
Entre 80 a 85 por cento de procuradores querem a revisão do Estatuto do
MP, com particular crítica quanto à especialização e à progressão na
carreira. Os magistrados queixam-se de falta de informação sobre o novo
mapa judiciário, dizem que os meios informáticos são obsoletos e lentos
e garantem não ter segurança no edifício onde trabalham.
O DIABO | 20.05.2008
Comentarios () |
|
|
|
|
|