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06-Dez-2007
Estarão os magistrados portugueses a preparar-se para assumir o protagonismo dos seus colegas italianos? Enquanto Portugal e Espanha estudam a hipótese de uma candidatura conjunta ao Mundial de Futebol de 2018, há já uma frente ibérica formada e que vai irromper com estrondo: num momento em que, nos dois países, as relações entre o poder judicial e o poder político estão num clima de crispação inédito, os juízes portugueses e espanhóis decidiram unir-se na organização do 1.º Congresso Ibérico do Poder Judicial, a decorrer em Lisboa, no próximo dia 25 de Janeiro. Nessa assembleia, os 7 mil magistrados da Península aprovarão uma carta de 20 princípios, em que declaram não admitir qualquer intromissão no poder judicial por parte do poder político e em que criticam, sem meias palavras, alguns projectos-lei governamentais que, na sua óptica, podem levar à funcionalização e perda de independência.


Esqueça-se, pois, o arquétipo do recato institucional dos juízes. O Congresso de Lisboa envolve gestos que valem mais do que mil palavras: nenhum ministro, deputado ou qualquer outro político será convidado. Magistrados ligados à preparação do congresso assumem mesmo, em declarações à VISÃO, que este é o maior sintoma da «perda de confiança do poder judicial no poder político». Uma frase que tanto se destina a Sócrates como a Zapatero.

O porta-voz do movimento, Carlos Marinho, contemporiza e diz que o congresso «tem como destinatário o cidadão, para que continue a confiar no poder judicial». Mas diz também, sem rodeios, que o evento servirá para «lembrar que há um poder judicial independente e que há selos do sistema em que não se deve mexer». Marinho critica a intenção do Governo de, no novo mapa judiciário, pôr juízes a chefiar outros juízes, bem como a anunciada criação de uma comissão externa aos tribunais que decidirá sobre promoções. «Um juiz intimidado não é livre e, a acontecer isso, é a própria tutela da democracia que está em causa», enfatiza. Carlos Marinho, que não quer «outras pessoas a administrar as carreiras dos juízes e a própria Justiça, de forma politizada».

Um dos princípios a aprovar no Congresso vincará, precisamente, a rejeição da politização da Justiça e da participação dos juízes em quaisquer actividades partidárias, mas a verdade é que, para vários dos envolvidos, o evento marcará, decisivamente, a entrada em vigor de uma nova relação entre os poderes judicial e político.

Ninguém parece defender o modelo da «república dos juízes» italiana, dos anos 90, decorrente da Operação Mãos Limpas contra a máfia, mas é consensual que o aumento da mediatização da acção dos magistrados, na sequência da vaga de processos-crime envolvendo figuras de topo da sociedade portuguesa, deu origem a uma maior intervenção do poder judicial no espaço público. «Viemos ocupar um espaço em que é possível o exercício da acção política», acrescenta um juiz.

DO CINTO AO STRESSE
«O poder judicial vai afirmar-se politicamente, disso não há dúvida», estima Nuno Garoupa, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Illinois, nos EUA, para quem o modelo português seguirá «de forma irreversível» o figurino italiano ou espanhol. Para este especialista, a Justiça lusa está a desapertar o «cinto formalista» que a envolveu nos últimos cem anos e que serviu para «proteger o poder judicial dos ciclos políticos» bem como dos «ajustes de contas» entre as várias corporações (políticas, militares, religiosas e outras) que compõem o Estado. A exposição mediática da Justiça, completa Nuno Garoupa, levará o poder judicial «a acordar da longa letargia que o protegeu e imunizou durante tantos anos».
O sociólogo Boaventura Sousa Santos também observa um «aumento do protagonismo social e político do sistema judiciário». Mas deixa um alerta: «O problema é que isso leva a que se criem expectativas positivas elevadas a respeito do poder judicial, esperando-se que ele resolva problemas que o sistema político não resolve e que, no quadro do princípio da separação de poderes, deveriam por ele serem resolvidos.» Nesses casos sucede «que o sistema judiciário não corresponde à expectativa e, rapidamente, passa de solução a problema». Cria-se, então, afiança, um clima de «stresse institucional entre o poder político e o judicial».
O porta-voz do Congresso, Carlos Marinho, recusa qualquer intenção dos juízes de desejarem outros poderes de Estado e assevera que, «quando muito, queremos ajudar o Governo a ir pelo caminho certo, tal como o navegador que vai ao lado do piloto».
O futuro dirá quem tem a mão na caixa de velocidades.

REVISTA VISÃO |  06.12.2007

Comentarios (19)add
... : Socrália
A resposta do Poder Judicial é imperiosa e condição essencial de Democracia e de Liberdade para os Cidadãos. Num Mundo Global a Resposta só poderá ser Global.
Parabéns ao Poder Judicial entre Portugal e Espanha.
Torna-se, necessário, a meu ver, que os Srs. Juízes expliquem aos cidadãos, em linguagem acessivel, porque é que o ataque ao Poder Judicial, além de atentar gravemente contra a separação dos poderes, constitui um grave retrocesso civilizacional.
Resta aos cidadãos, a confiança e o apoio no ÚLTIMO REDUTO, que é Justiça, sendo que não há Justiça sem Poder Judicial autónomo.
06.Dezembro.2007
... : Silva
O protagonismo só prejudica os juízes e a sua classe. Os juízes devem ser recatados para decidir serenamente. E defendidos dos jornalistas que desinformam. Mas, por isso, as suas decisões devem ser mais ponderadas e justas, para não andarem a reboque dos jornais. Já dizem que a Relação de Coimbra vai alterar a sua decisão sobre a Esmeralda. É verdade?
06.Dezembro.2007
... : Preocupado...

Ora aí está..
O aventureirismo está instalado...
Sem qualquer contenção, perspectiva institucional, nem adequada leitura das coisas, um qualquer juiz (?) prepara-se para deitar a perder todo um trabalho paciente e firme de equilibrado ajustamento dos horizontes da democracia e do quadro constitucional da separação de poderes.
Os fantasmas regressam, graças às doenças infantis de sempre.
Tudo muito estranho. Se isto não tem dedo do núcleo estratégico do Governo, pronto a armadilhar o caminho quando as coisas não lhe correm bem, vou ali e já venho...
É por isso que a ASJP não pode deixar-se arrastar para estes cenários descontrolados e patéticos.Não pode entrar num caldeirão frentista, artificial e com objectivos políticos inconfessáveis.
Por enquanto, tenho confiança na ASJP.
Mas se embarcar no arrastão, desde já aviso: "desarrisco-me".
Passem bem os espanhóis que querem falar por mim. Façam na sua terra o que quiserem. Em Portugal é que não (já agora porquê em Portugal e não em Espanha?).

06.Dezembro.2007
... : CPM
Por causa destes políticos
Que nos querem ter cativos
Temos que copiar Marx:
Juízes todos uni-vos

Mas não é a exploração
A causa dessa premissa
É p´ra nos condicionarem
Quando fazemos justiça


Por terem tudo na mão
Eles querem também ter
Para além dos que já têm
Mais este quarto poder

Nas Câmaras e Governo
E também na Administração
Eles têm o controle
Só na Justiça é que não


Mas se cá metem a mão
Que p´ro Povo é escudo
Passam a pôr e dispor
E a controlar-nos em tudo

Por isso, estou de acordo
Sem nisso ser pioneiro
Que vão todos os juízes
A Lisboa em Janeiro



06.Dezembro.2007
... : Adolfo
O "Preocupado" até parece membro da Direcção da ASJP, perdão, da AJP...
Se não, porquê afirmar que a iniciativa não tem "qualquer contenção, perspectiva institucional, nem adequada leitura das coisas" e que "um qualquer juiz (?) prepara-se para deitar a perder todo um trabalho paciente e firme de equilibrado ajustamento dos horizontes da democracia e do quadro constitucional da separação de poderes"? Isto pressupõe adequado conhecimento do processo..., por dentro.
Além disso é feio falar assim de um colega. Um conselho: desarrisque-se mesmo...
06.Dezembro.2007
... : Bruno P.
Preocupado, é melhor «desarriscar-se» porque se a asjp não quer defender a independência dos juízes nem quer lutar contra a politização, como parece ser esse o objectivo do encontro entre os juízes portugueses e espanhois, é melhor a asjp «desarriscar-se» do mapa, ir para as berlengas e deixar a defesa dos juízes a quem a pretende fazer. Esta DN em quem votei saiu-me uma grande fava. Uma miséria.
06.Dezembro.2007
... : Preocupado...


Adolfo:
Para se entender o que eu disse, refiro-me à notícia que foi posta para comentar, neste espaço. O "qualquer juiz" é o que resulta da frase «viemos ocupar um espaço em que é possível o exercício da acção política, acrescenta um juiz".
É este o discurso que vai ser "trabalhado" pelas agências do Governo, na opinião pública e contra os juízes.
Quanto ao mais. Sim, tenho acompanhado o trabalho da ASJP, como todos os juízes, espero eu. E concordo genericamente com o que tem acontecido. Que não vejo ser muito diferente, até aqui, da contenção que tem pautado as posições do FJI. Ou do presidente do STJ.
O clima de frentismo emocional deve ser controlado, é a minha opinião. Todos os responsáveis se têm controlado, como é próprio dos juízes.
Organiza-se uma grande frente mediática para judicializar a política?
Muito bem.
E depois? Já pensou nas consequências?
Voltarei, se quiser antecipar as consequências e definir objectivos precisos, no curto e médio prazo, para tal acção no plano português (não no espanhol).
Nunca esqueço o que se passou no Congresso da Justiça em que o então bastonário da OA procurou congregar um frentismo parecido e com o que fez, perante isso, o saudoso presidente Aragão Seia. Recorda-se?



06.Dezembro.2007
... : Francisco Bruto da Costa
A ideia central e os conteúdos anunciados para este congresso são indubitavelmente interessantes.
E são-no independentemente de quem o organizou.
O facto de assumidamente não se ter convidado ninguém do poder político para o congresso é outro factor relevante.
Se prevalecer uma afirmação colectiva de cidadania pelos magistrados, sem dar espaço a grupos e capelinhas, este congresso tem todas as condições para ser um sucesso.

06.Dezembro.2007
... : Adolfo
Tem razão, Bruno P. Afinal apregoavam a "proactividade" e vai a ver-se, na questão da "funcionalização" foram apanhados de calças na mão... O mesmo sucede, ao que se vê, na questão do mapa judiciário.
Bom, isto é um sinal dos tempos que correm. Faz lembrar a máxima socrática, embora me pareça que haja ainda quem não saiba que nada sabe... da politica governamental para a justiça, é claro...
06.Dezembro.2007
... : Joaquim Martins
A isto chama-se um grande tiro no pé da actual dn da asjp.
Então abandonam um congresso onde vai sair um documento de afirmação da independência do poder judicial e contra a politização da justiça ? Não me digam que agora a asjp defende a funcionalização da judicatura e a politização da justiça !
Avisem-me para «desarriscar-me» de membro, pois não pago as minhas quotas para certas pessoas com uma grande dor de cotovelo só olharem para o seu umbigo eleitoral.
Isto mete-me nojo.
Vou fazer por tudo para estar nesse dia em Lisboa.
Há dispensa de serviço ?
07.Dezembro.2007
... : Grande Manitu
Por ocasião de um importante evento internacional que reuniria magistraturas de diversos países, verifíca-se que os juízes portugueses não estão unidos. Mas estão divididos porque defendem diferentes pontos de vista e distintos rumos para a justiça? Não. É apenas e só um problema de lutas pelo poder, vaidades e sede de protagonismo. Enfim, tiques e birras de vedetas. Pelos vistos aprenderam qualquer coisa com os partidos políticos.
O bacharel Pinto de Sousa, os Drs. Bernardes e Conde e o Mestre Pereira agradecem sensibilizados.
07.Dezembro.2007
... : Eça de Queirós Alternativo
«Nessa assembleia, os 7 mil magistrados da Península aprovarão uma carta de 20 princípios...»

«Aprovarão» ?!

Mas ainda não foi o Congresso e já contaram os votos ?
Que estranho.
Faz-me lembrar as várias Assembleias Selvagens de 1975.



07.Dezembro.2007
... : anti-kadaffi
Tem razão, Grande Manitu.
Mas convém perguntar quem por causa de uma grande dor de cotovelo se quis desmarcar de um evento com que concordou de início e bem conhecendo todas as entidades envolvidas.
A actual dn da asjp e por arrastamento o mjd (sendo que este só existe nos momentos eleitorais com os seus pasquins) é que estão a provocar a desunião que o FJI à partida quis promover, juntando todos e não excluindo nenhum.
A colagem desta dn da asjp ao governo e aos seus intentos em tantos aspectos deve fazer-nos reflectir sobre se queremos um poder judicial dócil com o político ou um poder judicial independente, separado e não politizado. A escolha é dos juízes.
07.Dezembro.2007
... : anti-kadaffi
eça de queirós alternativo, parece-me que não podemos confiar sempre 100% na imprensa. Se tivesse sido escrito que é intenção que seja aprovado tal documento tudo ficaria esclarecido. Foi isso que li no JN e no Sol, pois só fiquei a conhecer desse evento pelos jornais. Penso que a organização deveria já ter veiculado para os juízes esse evento, até porque falta pouco tempo.
07.Dezembro.2007
... : Eça de Queirós Alternativo
Pois é, é pena que a «Visão» não tenha seguido o sábio mandamento do João Pinto:

Prognósticos, só no fim do jogo !

Por que terá sido utilizada a expressão «aprovarão», que dá ideia de um final conhecido de antemão, desvalorizando totalmente o congresso ?

Ele há coisas do Diabo ...




07.Dezembro.2007
... : delta
Desculpem lá se vou ser injusto, mas assim, e por alto, tudo isto parece futurologia com opinião de um americano e tudo. Se não estou em erro um futurólogo americano chamado Kahn? dizia mais ou menos isto: que quando as coisas são colocadas em carris que vão dar lá abaixo ou mais à frente em certo sítio, é certo e seguro ou muito provável que tal aconteça.
Ora se os juízes portugueses se põem a andar em carris que vão dar ao modelo espanhol ou italiano, é muito provável que no fim do caminho lá se encontrem.
Os juízes querem reunir-se? Porquê começar já a julgá-los?
Até pode ser muito positivo, talvez eles descubram como resolver o problema dos atrasos dos processos e encontrem a cura do cancro.
Depois do congresso talvez se sintam mais seguros e com força para decidir mais vezes contra o Governo, isto é com justiça e mais independentes.
Estão preocupados com a sociedade civil ( e os políticos) que está descontente com os tribunais e com a justiça em geral?
Pois é, mas há razões de sobra por causa da justiça em Portugal e não podem levar a mal que se pense em racionalizar a execução da justiça (mapa judiciário). Podem discordar da eficácia da medida, mas não porque ela atenta a independência etc. que pode ser um argumento desonesto.
Portanto os senhores juízes têm todo o direito de não ser julgados pelas intenções. Nisto estão todos inocentes.

07.Dezembro.2007
... : Aninhas
Nada melhor para as sondagens hoje publicadas sobre a posição dos portugueses em relação á justiça,tem sido uma campanha orquestrada pela comunicação social há meses a esta parte como nunca me lembro de ter existido nos últimos trinta anos.Acho mesmo que os magistrados deste país tem o direito de exigir o direito ao contraditório.É preciso urgentemente por cobro aos julgamentos dos magistrados nos estúdios das televisões e nas páginas dos jornais.Os tribunais são um orgão de soberania e como tal tem de ser tratados sobre pena de Portugal deixar de ser um Estado de Direito.A democracia está doente,os cidadões desconfiam das instituições.
08.Dezembro.2007
... : Mário Rama da Silva
Apreciei a opinião ponderada do Dr. Bruto da Costa. É seu hábito.
No geral parece-me bastante estranho ver discutir, aparentemente por Juizes, afirmações de um simples artigo de imprensa como se de factos provados se tratasse.
Quanto à magistratura italiana já todos sabemos no que deu: muita parra, pouca uva, inspiração para o cinema e a televisão... mas nunca mais conseguem julgar Berlusconi.
A magistratura espanhola também não é exemplo: quem lê a imprensa espanhola constata as divisões existentes, todas de natureza política, que se instalaram entre os Juízes, para gáudio do poder político.
Muitas estrelas, a mais mediática com um percurso sinuoso e saindo ressaibiado de um cargo político agitando-se freneticamente para se manter nos jornais e vender livros; outra estrela, que presidiu a uma detenção de um sujeito em pleno casamento do filho teve processos disciplinares e suspensão porque, para além do espalhafato não trabalhava; outro está a braços com um processo por corrupção...
Esperemos que os Juízes portugueses e espanhóis, cuja quase totalidade nada tem a ver com o estrelato, sigam no seu trabalho sem se sentirem inspirados por tal tipo de gente.
09.Dezembro.2007
... : EXPLICADOR
Coloco a todos os comentadores acima referidos a seguinte questão: - não será importante uma iniciativa que procura congregar e juntar os representantes das diversas correntes organizadas no seio das magistraturas portuguesas e espanholas para discutir problemas comuns, em particular aqueles relacionados com a independência judicial ?
Ou será que todos têm por adquirido que exercem a sua função com verdadeira independência e que não haverá aspectos da organização política de um Estado (é neste capítulo da CRP que estão os tribunais) que deverão ser mantidos para que possa falar em Estado de Direito democrático ?
Ou será ainda curial dar credibilidade ao texto de um artigo jornalístico a propósito da aprovação de princípios quando todos sabemos que não é assim que trabalham os juízes, mesmo que fosse em 1975 ?
12.Dezembro.2007
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