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É a última do Ministro da Justiça. A Associação Sindical dos Juízes Portugueses mostra-se surpreendida com as recentes declarações do ministro da Justiça. Em entrevista ao "Correio da Manhã", Alberto Costa diz que as tomadas de posição dos sindicatos do sector se assemelham às de organizações políticas e que deveriam ir a votos em conjunto com os partidos políticos...
O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses afirma que o ministro da Justiça desconhece o que é um sistema democrático.
"Ficamos surpreendidos porque o nosso comportamento, nomeadamente desta direcção que está em funções há cerca de um ano, tem-se pautado por não ser uma atitude estritamente sindicalista e, por outro lado, tem-se pautado por contribuir com propostas concretas para o bom funcionamento do sistema de justiça", refere António Martins.
O representante dos juízes lança farpas ao ministro da Justiça, considerando que Alberto Costa "tem uma concepção incorrecta do sistema de uma democracia moderna e de uma democracia em que a cidadania não se esgota nas organizações políticas nem nos partidos políticos".
RÁDIO RENASCENÇA | 05.03.2007
REPÚDIO DAS AFIRMAÇÕES DE ALBERTO COSTA
As associações sindicais manifestaram-se surpreendidas com as declarações do ministro da Justiça, Alberto Costa, que, em entrevista publicada ontem no Correio da Manhã, acusou os sindicatos de terem "posições desfavoráveis e opostas ao interesse público" e, frequentemente, fazerem "pensar que se está perante organizações políticas".
O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), António Martins, criticou as declarações do ministro dizendo que este demonstrou "uma visão pouco democrática da sociedade". Em sua opinião, a perspectiva de Alberto Costa de reduzir a área de intervenção na sociedade às organizações políticas "é um erro muito profundo". E isto porque os sindicatos não se limitam a defender os socioprofissionais, apresentam também propostas para resolver os problemas da Justiça e, portanto, do interesse público. Aliás, disse, seria "inadmissível" se assim não fosse. Para o juiz, as soluções e propostas das organizações sindicais, nomeadamente aquela a que preside, não são meramente corporativas, têm "sentido crítico" e servem o interesse público.
Cluny critica. Instado pelo CM a pronunciar-se sobre o assunto, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), António Cluny, afirmou que se recusava a entrar em polémicas porque havia questões mais importantes para se discutir. No entanto, ao fim do dia, o procurador-geral adjunto inseriu no site do sindicato um editorial que se refere à polémica. Aí, António Cluny considera que as declarações de Alberto Costa "são, no mínimo, contraditórias" e "equívocas". "Quando os sindicatos se limitam a defender simples interesses socioprofissionais têm sido considerados por este Governo como corporativos e restritivos na sua análise e posições. Quando tentam enquadrar a sua acção e os seus pontos de vista numa perspectiva mais abrangente que procure reflectir o chamado interesse global, comum e público, são, agora, acusados de intervirem politicamente", pode ler-se no editorial.
António Cluny recorda que posições deste tipo sobre a acção dos sindicatos e, em geral dos movimentos associativos, não são novas. "Embora noutro contexto, eram, de facto, referidas amiúde no antigo regime pelos responsáveis políticos de então. Para eles, toda a manifestação de pontos de vista contrários à governação consistia, em regra, numa manipulação política e numa actuação a soldo de interesses inconfessáveis. Para eles também só o Governo sabia e podia interpretar legitimamente o interesse nacional", escreve Cluny no editorial.
Funcionários criticam. O Sindicato dos Funcionários Judiciais também repudiou as afirmações do ministro. "Rejeitamos e repudiamos esse tipo de comentário. Não temos nenhuma conotação política e partidária. Somos um sindicato independente com boas relações com todos os partidos políticos, o que é normal em termos institucionais", afirmou Fernando Jorge, presidente do sindicato.
O responsável salientou que o sindicato defende os direitos dos trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, procura contribuir para uma efectiva melhoria do sistema de justiça, com apresentação de propostas concretas. "Se isto é ter uma atitude política, enfim...", acrescentou.
Frases da discórdia. "Em certas circunstâncias, as posições expressas por essas organizações [sindicatos]... são desfavoráveis e opostas ao interesse global, ao interesse comum, ao interesse público." "É verdade que frequentemente as tomadas de posições sindicais fazem pensar que estamos perante organizações políticas que deveriam submeter-se a sufrágio para verificar se sim ou não o eleitorado confirma esses pontos de vista." Alberto Costa, ministro da Justiça.
CORREIO DA MANHÃ | 05.03.2007
A ENTREVISTA EM CAUSA
Alberto Costa, Ministro da Justiça, satisfeito por estar a domar o monstro da Justiça, fica surpreendido com a reacção dos sindicatos. Polémico, considera que defendem posições contrárias ao interesse público e que actuam como organizações políticas. Por isso, diz, deviam ir a votos. Gosta do estilo de Sócrates e não tem dúvidas de que este é mesmo o seu PS.
Correio da Manhã - Quando foi ministro da Administração Interna ficou célebre uma frase sua: "Esta não é a minha polícia." E esta Justiça? É a sua Justiça?
Alberto Costa - Essa frase nunca foi proferida por mim. Foi-me realmente atribuída, mas o próprio semanário que a publicou como tendo sido minha veio a reconhecer expressamente que não era minha.
- Foi um período muito complicado para si, muito difícil mesmo.
- Foi um período de mudança, de transformações, de iniciativa, que globalmente marcarou a evolução do sector, mas que também foi uma experiência muito significativa para mim.
- E esta Justiça? O monstro, como lhe chamou. Esta semana afirmou que o monstro começou a ser finalmente atacado. Mas esta Justiça é ou não a sua Justiça?
- É preciso fazer mudanças e transformações neste sector e o Governo está empenhado em fazê-las. Governar é sempre procurar melhorar, introduzir modificações positivas e é nessa linha que temos vindo a actuar. Mas o problema fundamental que referiu é o de na última década ter havido um crescimento constante, à razão de cem mil processos por ano, do volume das pendências, e tornava-se muito importante inverter esse processo, evitar que o monstro continuasse a crescer. E realmente em 2006, em função de um conjunto de medidas, de um plano de combate ao congestionamento dos tribunais, essa tendência inverteu-se e embora a descida não seja tão significativa como desejaríamos, na casa dos cem mil processos, é um sinal de inversão. E se nada tivesse sido feito haveria mais cento e vinte mil processos. Era assim que os últimos anos estavam a correr. É por isso que a mudança é muito animadora, embora exija muito trabalho e persistência para continuar a acentuar-se.
- Mas na última década tomaram-se muitas medidas, tanto pelo PS como pelo Governo do PSD/CDS. Falharam todas?
- Na última década houve planos, houve esforços, houve iniciativas mas que não se traduziram em resultados concretos.
- Mas os números que apresentou são fiáveis?
- São números de um organismo com poderes delegados do Instituto Nacional de Estatística para o sector, são números provisórios e sei que são números estabelecidos com grande prudência, de forma que é bastante possível que os números definitivos sejam bastante melhores.
- Como é que explica a reacção negativa dos sindicatos e da Ordem dos Advogados a esses números? Ficou triste? Desiludido?
- Fico surpreendido. Porque esperaria que sublinhassem os resultados positivos destes resultados e que se associassem a eles, na medida em que resultam, em grande medida, do trabalho de todos os que trabalham nos tribunais. Mas no nosso sector instalou-se há muitos anos uma mentalidade de crise que muitas vezes perturba as reacções às boas notícias, que muitas vezes são consideradas quase como desautorizações das concepções de que se parte acerca da grande crise.
- Também considera, como o seu colega da Economia, que os sindicatos são muitas vezes forças de atraso?
- O que eu considero é que, em certas circunstâncias, posições expressas por essas organizações, que no passado se distinguiram pela sua luta por objectivos altamente meritórios, são desfavoráveis e opostas ao interesse global, ao interesse comum, ao interesse público. E quando assim é, o papel do Governo é não perder de vista o interesse comum em nome da consideração de interesses sectoriais socioprofissionais.
- Não considera que os sindicatos, nomeadamente na área da Justiça, extravasam claramente as suas competências?
- É verdade que frequentemente as tomadas de posição das organizações sindicais fazem pensar que estamos perante organizações políticas que deveriam se submeter a sufrágio para verificar se sim ou não o eleitorado confirma esses pontos de vista. Mas o importante é não confundir o interesse geral com uma interpretação muito restrita e sectorial de certos interesses, eventualmente legítimos, que não devem ser confundidos com o que interessa a todos. É por isso que existe a esfera pública, é por isso que existe a deliberação política democrática.
- O pacto de Justiça firmado entre o PS e o PSD é uma forma de o proteger a si, à sua política e às suas medidas?
- O fundamental era que um conjunto significativo de reformas legislativas fosse aprovado por um consenso alargada no Parlamento e perdurasse para lá de uma legislatura. O que muitas vezes acontece é que as reformas com um suporte político meramente maioritário são muitas vezes alteradas, substituídas nas legislaturas seguintes. Na esfera da Justiça essa falta de continuidade é absolutamente prejudicial, é absolutamente negativa.
(...) CORREIO DA MANHÃ | 04.03.2007
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