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De visita ao Tribunal da Relação do Porto, o Justiça e Cidadania percebeu melhor porque ‘é que os Juízes desembargadores trabalham em casa. Faltam gabinetes e condições para que o trabalho seja desenvolvido no Tribunal.
A autonomia dos juízes, a ausência de quem lhes organize uma agenda. De uma maneira geral, são donos de si próprios. Horários de trabalho, férias, feriados e fins-de-semana não são reguladores do tempo e do trabalho destes profissionais. Mas há preços que se pagam por essa liberdade. Ganhar menos que os advogados ou que os médicos foram alguns exemplos que a Juíza desembargadora Isabel Pais Martins apontou ao JUSTIÇA E CIDADANIA.
Enquanto era desenvolvida uma conversa descontraída - que acabaria por ser a três, uma vez que o presidente do Tribunal da Relação do Porto também se juntou ao que pretendeu ser um pequeno levantar do véu que esconde aquela classe com características de actuação tão próprias -, visitámos a Relação da Invicta, para onde foram destacados, em 2006, 84 desembargadores e onde existem 17 gabinetes disponíveis para trabalharem. O JUSTIÇA visitou a Relação do Porto, mas situação semelhante de condições de trabalho é vivida nas outras quatro (Lisboa, Coimbra, Évora e Guimarães).
E é ali que está o verdadeiro espírito de serviço público. Ali se encontram os profissionais que não vêm muito para a rua reivindicar melhores condições, por exemplo, de trabalho, que, como se sabe não são as melhores. Trabalhar em casa por não haver gabinetes que cheguem, nem terem as condições para que tal aconteça não é excepção, mas a regra.
O que torna "indiferente" onde os juízes de 2ª instância moram, uma vez que a obrigatoriedade de estarem no tribunal assenta numa presença semanal, daí a gestão de trabalho ser por conta dos juízos. Mas não é esta liberdade que atrasa a justiça em Portugal. Porque, na sua grande maioria, "os juízes são competentes e responsáveis", o que significa que não provocam demoras nos processos.
O trabalho de juiz, e o de juiz desembargador em especial, "é um trabalho muito solitário". "Mas de equipa", realçou ajuíza desembargadora que acompanhou a exploração do JUSTIÇA à Relação do Porto e foi esclarecendo de um modo muito natural o que para um leigo pode tomar contornos muito complexos. Este trabalho solitário, de equipa está sujeito, desde logo, "às condicionantes naturais do trabalho em grupo, obrigando a algum contacto mútuo", mas também à interligação na entrega ao trabalho. O facto de serem donos do seu horário obriga os juízes "a uma disciplina muito rigorosa, até em questões de higiene de vida", para não contribuir para as estatísticas que fazem já circular a metáfora - pelo menos entre a classe - de que «o desembargador passa a vida de pijama», pela falta de obrigação de cumprir horários e pelo facto de trabalharem, na sua maioria, em casa.
Justiça é lenta
A Justiça em Portugal é lenta, não anda. Este cliché existe. Os juízes reconhecem que os processo nem sempre andam como os intervenientes (eles incluídos) desejariam. Depois da explicação por quem já anda nisto há 30 anos percebe-se que é na burocracia que reside grande parte do problema. Que Portugal é muito burocrático é outro lugar comum. Neste caso, porém, a burocracia existe por seguir "um ritual que tem que ser cumprido", traduzindo-se num processo longo, mas que tem que ser respeitado para garantir que se faça justiça (ou a melhor justiça possível). Ajuíza desembargadora Isabel Pais Martins admitiu, todavia, que esse tempo longo possa servir para protelar o caso. "Mas isso é a excepção" foi a garantia dada de imediato, porque "bons e maus profissionais há-os em todas as profissões". "Mas os bons são sempre em maior número", quer acreditar. Da realidade que melhor conhece, a da Relação do Porto, a juíza nem hesita e mostra-se convencida que "a maioria dos desembargadores no Porto são competentes e empenhados em dar o devido tratamento aos processos", o que implica - reitera - "ter o verdadeiro sentido de serviço público". E é por este motivo que se adaptam às, muitas vezes, pouco dignas condições de trabalho. Por sorteio, os processos são distribuídos pelo número de desembargadores disponíveis, que a maior parte das vezes não são em igual número aos destacados em Julho, devido a jubilações, atestados, falecimentos e licenças. Situações que não são antecipadas na distribuição dos juízes e que provocam desequilíbrios no rácio entre processos existentes e juízes a despachar, levando, muitas vezes, "a uma atribuição pouco razoável de trabalho". Os movimentos de juízes são feitos uma vez por ano - em Julho, e a 15 de Setembro cada um está no «seu» tribunal, mediante a previsão das necessidades para cada tribunal.
Férias
E quando sentiram que estavam a ser verdadeiramente injustiçados foi aquando da medida "popilar e demagógica" - assim a apelidaram os nossos interlocutores - das férias judiciais que o Governo liderado por José Sócrates decretou em 2006. Férias, feriados, fins-de-semana. São conceitos que não têm muito significado para os juízes, já que têm é que responder pelo trabalho que lhes é distribuído o que retira significado efectivo a um horário rígido. Levada a cabo pela primeira vez em 2006, a redução das férias foi uma medida "popular e demagógica". Os adjectivos foram usados por muitos dos que criticaram a decisão. Por melhores condições de trabalho não reclamam, no que a juíza desembargadora Isabel Pais Martins apelida de "verdadeiro espírito de serviço público", assumindo o papel de terceiro poder.
Mas levantaram a voz contra o que consideraram "demagogia" e o presidente da Relação do Porto tem números que contradizem os resultados que o ministro da Justiça, Alberto Costa, e o próprio primeiro-ministro, José Sócrates, apresentaram em finais de Fevereiro. Primeiro-ministro e tutela consideraram "extraordinários" e "motivadores" os resultados atingidos em 2006. Ao aumento de 57,3 por cento do número de processos concluídos em Julho, Agosto e Setembro de 2006 que o Executivo avançou, o presidente da Relação do Porto contrapõe com não mais de "um dia efectivo". Mas José Correia de Paiva também sabe como se fazem as contas de forma a satisfazer cada posição: "Basta que em Julho de 2006, num tribunal qualquer, tenha havido uma resolução para podermos dizer que houve um aumento de cem por cento". E o desembargador - que por força do desempenho das suas funções não despacha processos - nem precisa de recorrer a explicações muito extensas, diz apenas que "até ao ano passado, nesse mês, não tinha havido nenhuma resolução"...
O juiz presidente do Tribunal da Relação do Porto é categórico a afirmar que "a retirada de um mês de férias judiciais não corresponde a mais um mês de trabalho". Disse-o ao JUSTIÇA. Já o havia escrito quando apresentou a estatística referente a 2006. Admite que no ano passado houve neste tribunal "aumento de distribuição e diminuição de pendências" em todas as secções. Recusa, em todo o caso, que a maior eficácia se deva ao mês de férias que foi retirado, atribuindo-a à atribuição de mais juízes auxiliares" e à possibilidade de "a Relação destacar/requisitar oficiais de justiça". Para além de considerar que a Relação tem agora um corpo com "maior qualidade e disponibilidade".
JUSTIÇA & CIDADANIA | 03.05.2007
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