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O novo Mapa
Judiciário foi aprovado em Conselho de Ministros e segue agora para a
Assembleia da República. O "Semanário Económico" falou com juristas que
questionam a mobilidade dos juízes dentro das comarcas alargadas
previstas no modelo.
Mapa Judiciário levanta dúvidas de inconstitucionalidade
A reforma dos tribunais judiciais delineou um novo
mapa judiciário com 39 comarcas em vez das 231 existentes. Para além
disso, os juízes e os advogados vêem mudar a sua participação na
administração dos juízos.
Cada comarca vai ter um Tribunal judicial
de 1.ª Instância e outros juízos de competências genérica, como os
Tribunais de Família e Menores, do Comércio ou do Trabalho. A proposta
de lei do Governo prevê a agregação de comarcas e a coincidência destas
com o mapa das NUT II. Ainda não é conhecida a localização destes
tribunais de competências específicas dentro de cada circunscrição,
excepto no caso das três comarcas que vão servir de ensaio do mapa.
Em
Setembro, as comarcas do Alentejo Litoral, Baixo Vouga e Lisboa
Noroeste vão experimentar as novas soluções judiciais e permitir uma
avaliação do mapa. "Uma experiência" que António Pires de Lima, antigo
bastonário da Ordem dos Advogados (OA), contesta. "Estamos a lidar com
pessoas que estão a fazer de conta que gerem o sistema de justiça e não
têm a mínima ideia da prática". A prova é que uma das comarcas-piloto
inclui Sintra, "um dos tribunais mais atrasados do país" diz o
ex-bastonário. Na prática, Pires de Lima diz que o novo mapa judiciário
vai trazer problemas e não soluções. "Os juízes continuam a não poder
ser movidos das comarcas, mas estas, que tinham 40 quilómetros
quadrados, passam a ter 400" o que implica mais tempo gasto com
deslocações. António Martins, da Associação
Sindical dos Juízes
Portugueses, considera que este ponto da nova organização dos tribunais
não está esclarecido, mas diz ainda que "é um erro equiparar os juízes
a funcionários públicos, pois estes não devem estar sujeitos a esta
mobilidade". O princípio da inamovibilidade dos juízes garantido
constitucionalmente e o princípio do juiz natural são salvaguardas do
cidadão, salienta António Martins, para que "um juiz não possa ser
retirado de um processo a bel-prazer de quem quiser". Nuno Líbano
Monteiro, sócio da sociedade de advogados PLMJ, considera que ao
atribuir ao juiz presidente competência para a "reafectação dos juízes
no âmbito da comarca, poderemos estar próximo da fronteira
constitucional" mas esta pode ser uma medida positiva para "aumentar a
capacidade e rapidez de resposta dos juízes".
Juízes e advogados vão gerir tribunais
O Governo
quer envolver os profissionais de justiça na gestão e administração da
comarca, num "novo quadro de responsabilização entre a justiça e os
seus destinatário", diz Alberto Costa. O modelo de gestão proposto cria
a figura do presidente do tribunal, nomeado pelo Conselho Superior da
Magistratura, do administrador do tribunal, nomeado pelo presidente, e
do conselho de comarca, constituído pelo presidente, pelo
administrador, por representantes da OA, da Câmara dos Solicitadores,
dos funcionários da justiça e dos municípios. Rogério Alves,
ex-bastonário da OA, concorda com a inclusão de advogados nos
conselhos, que serão "núcleos responsáveis por encontrar soluções para
aquela comarca". Já Pires de Lima lembra que esta participação, exigida
pela Ordem, pode não ser possível devido à falta de tempo dos advogados
para essa actividade. O advogado Líbano Monteiro considera que permitir
que os advogados "possam sugerir alterações no que respeita à
administração e funcionamento dos tribunais" é um ponto positivo da
reforma. Na questão do juiz presidente, António Martins critica a
possibilidade de recrutamento de juízes desembargadores. A ASJP
considera que o presidente deve ser recrutado "dos próprios juízes
administrados, de um juiz de 1.ª Instância, que é aquele que conhece
melhor os problemas da comarca". Rogério Alves diz que ter um
presidente responsável pelo serviço dos tribunais em cada circunscrição
vai "permitir uma melhor gestão integrada". Porém, considera Líbano
Monteiro, a concentração de poderes muito amplos no presidente leva a
que a gestão dependa das suas capacidades de liderança. "Esta questão
assumirá grande relevância no modo como a reforma se traduzirá no
terreno"; prevê. Os próximos dois anos vão provar se a experiência
resulta nas três comarcas-piloto, dizem os juristas consultados pelo
"Semanário Económico". A reforma não inclui os tribunais
administrativos e fiscais e os julgados da Paz, que o Ministério da
Justiça diz fazerem parte de um processo independente.
PSD quer discutir mapa na Assembleia
O PSD espera que o Governo apresente mais
desenvolvimentos sobre o mapa antes de propor alterações. Quem o diz é
o porta-voz parlamentar para a justiça dos social-democratas, Alberto
Amorim Pereira, que afirma que o partido está "muito preocupado porque
terá sido revelado que a regulamentação destas questões será feita por
portaria". O PSD vai exigir que o projecto de lei para a organização e
funcionamento dos tribunais passe pelo parlamento, e aí apresentará as
suas sugestões "no sentido de uma melhoria do sistema de justiça
através de uma de gestão dos recursos mais eficientes". Amorim Pereira
deixa algumas ideias, "com certeza que alguns tribunais terão de ser
reequacionados ou redimensionados, terá de haver mobilidade dos juízes,
como tem de haver uma maior articulação entre as comarcas mais pequenas
e as maiores". Amorim Pereira afirma que o novo mapa judiciário é a
"desvalorização dos tribunais e dos agentes judiciais e que vai
"acantonar a justiça nas 39 circunscrições". "Os tribunais próximos das
pessoas deixam de ter as valências que as pessoas necessitam", diz.
Outra crítica do presidente do Conselho de jurisdição Nacional do PSD
centra-se na figura do gestor judicial, que vai ser responsável pela
gestão dos recursos materiais e humanos do tribunal. "Esperava-se que
fosse recrutado por concurso público, agora o governo já vem dizer que
será por despacho do ministério" o que pode favorecer a entrada de
"bons socialistas sem experiência em gestão". Já em relação ao
princípio do juiz natural, considera negativo que "de acordo com uma
medida prevista, os cidadãos possam escolher o tribunal que os vai
julgar". Apesar de concordar com uma reforma da justiça, Amorim Pereira
lamenta que "não só os julgados de Paz, como ainda os tribunais
administrativos e fiscais tenham ficado de fora". "Se o governo acha
que é necessária uma concentração dos tribunais de comarca cíveis e
criminais nestas circunscrições, tem de explicar porque é que deixa o
processo manco", diz este social-democrata, que acusa Sócrates e o
Ministério da justiça de "falta de visão global".
SEMANÁRIO ECONÓMICO | 20.03.2008
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