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A Associação Juízes pela Cidadania lança a
primeira de várias iniciativas para denunciar "a pressa" do Governo em
aprovar a reforma do mapa judiciário (organização territorial dos
tribunais) e para advertir o Governo que é "precoce" avançar em
Setembro com as três experiências-piloto que tem previstas.
Os juízes prometem não baixar os braços até conseguirem que o Governo
"tenha humildade e reconheça que esta reforma está para além dos ciclos
eleitorais", disse ontem ao JN o juiz Rui Rangel. "O que peço ao
Governo é que não tenha pressa. Não aconteça com este mapa o que
aconteceu com a lei processual penal que gerou o caos", sublinhou.
O grupo Juízes pela Cidadania promete impedir que a reforma "avance de
maneira precipitada", e começa já hoje a luta com um amplo debate sobre
o tema, que integrará especialistas de várias áreas da Justiça.
Ontem foram recebidos pelo secretário de Estado da Justiça, Conde
Rodrigues, a quem entregaram as suas propostas (Ler caixa). Está assim
no terreno mais uma voz crítica, a juntar à da Associação Sindical dos
Juízes e do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. E às quais
se juntou ontem, também, o PCP que, numa conferência de imprensa,
manifestou "preocupações que resultam da insuficiente informação sobre
conteúdos da reforma e sua concretização".
O PSD , que assinou com o PS o pacto para a reforma da Justiça -
designadamente do mapa judiciário -, foi o primeiro a contestar a
proposta do ministro Alberto Costa, tendo abandonado o acordo. Rui
Rangel defende que "o PSD fez bem, porque fez com que algumas luzes
vermelhas se acendessem".
Uma das preocupações agora destacadas por Rangel prende-se com o
desconhecimento do regulamento do novo mapa judiciário. "O regulamento
tem de ser do conhecimento público", advertiu. "Damos por assente que o
mapa actual está obsoleto", reconhece, mas, acrescentando "Não
significa que o Governo tenha de caminhar sem antes alcançar um grande
consenso no novo paradigma".
Rui Rangel duvida, aliás, que a equipa de Alberto Costa esteja a lançar
um "verdadeiro novo paradigma". "Porquê estas 35 novas circunscrições e
não outras? Como será feito o reagrupamento de tribunais?", questionou,
acusando que, por exemplo, "o distrito judicial de Lisboa vai ficar
ingerível, ao mesmo tempo que, erradamente, se esvazia o juízo de Évora
e se aposta num tribunal da relação no Algarve".
Fechos encapotados
A bandeira socialista de que é preciso optimizar os serviços, ganhar
eficácia na organização e racionalizar, "não pode ser dissociada de
princípios tão essenciais à soberania dos tribunais como os princípios
da inamovibilidade, do juiz natural e da independência interna da
função jurisdicional". "São garantias do cidadãos e não dos juízes",
frisou. "Temo que pode haver aqui alguma tendência de politização da
Justiça", disse ainda, avisando que "a Justiça não pode andar a reboque
dos interesses políticos".
A figura do juiz presidente também gera preocupação "Foi adaptada do
modelo holandês, mas tem uma série de funções jurisdicionais que vão
contra a Constituição. É bom que o Governo pondere". Indo mais longe,
acusou o Governo de não assumir que haverá fecho de tribunais. "A médio
prazo esta reforma vai levar ao fecho de tribunais e isso deve ser
assumido de forma clara e não encapotada".
Propostas da AJpC
Comarcas. "Somos adeptos da manutenção do modelo comarca", defende Rangel. "Pode
ser melhorado pela redução ou encerramento de alguns tribunais
desnecessários. Mas não pode ser corrompido o entendimento
constitucional da figura da comarca".
Especialização. "Entendemos que se deve caminhar para tribunais de competência
especializada", propõe. Acabar com a lógica de competência genérica
acompanhando a complexificação do Direito.
Juiz-presidente. "Preocupa-nos o modelo quanto ao juiz-presidente em cada tribunal. Não
deve ter qualquer função jurisdicional". Por exemplo, "ter poderes em
relação à distribuição de processos é inconstitucional". O juiz
presidente deve ter funções administrativas, de gestão e de contacto
com a Comunicação Social.
Contingentação- "Deve avançar-se para a implementação da contingentação processual -
definição do número de processo por juiz em cada ano", defende a
associação.
Quiosques de Justiça. Rejeitar a figura dos quiosques de Justiça. "São indignos para o
cidadão. Nos quiosques compram-se pastilhas e jornais, não Justiça. O
tribunal é um órgão de soberania".
JORNAL DE NOTÍCIAS | 29.02.2008
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